Não fazia nem duas horas que eu tinha conseguido relaxar o suficiente pra tentar dormir. A mansão do meu pai tinha um silêncio que incomodava, do tipo que deixa tudo mais barulhento. O som do meu próprio respirar parecia alto demais ali. A cama era confortável, macia até demais, como se me engolisse — mas ainda assim, o sono custava a vir. Talvez fosse o fuso horário. Talvez fosse o fato de eu estar de volta ao Brasil. Talvez fosse... ela.
Isadora Fernandes, como ela fez questão de contar.
A nova noiva do meu pai.
A mulher que, só de olhar, me fazia pensar besteira.
Desde o momento em que abri a porta da mansão e a vi ali, com aquela roupa grudada ao corpo, ou na cozinha, com os cabelos loiros presos de forma bagunçada, eu percebi que essa estadia ia ser um verdadeiro inferno. Não porque ela era má ou irritante. Pelo contrário. O problema era outro. O problema era que ela era absurdamente linda.
E o que me irritava era saber que meu pai, um homem com quase sessenta anos, tinha conseguido uma mulher daquelas. O tipo de mulher que, se eu visse numa balada na Europa, eu daria um jeito de chamar pra sair. Alta, loira, olhos azul-piscina, pele clara, cintura marcada... e aquele jeito doce que provocava e afastava ao mesmo tempo. Jovem. Sexy. E agora... minha futura madrasta.
O quarto era grande, com janelas que davam pro jardim dos fundos. Uma brisa fresca entrava por uma fresta da cortina, misturando o cheiro das plantas com o perfume amadeirado do meu sabonete. Eu estava só de samba-canção, deitado com um dos braços atrás da cabeça, encarando o teto escuro e pensando besteira demais pra alguém que acabou de voltar de um continente diferente.
Foi aí que ouvi.
Toque. Toque.
Uma batida leve na porta. Quase tímida. Me levantei devagar, franzindo a testa. Quem seria? Lorenzo, eu sabia que não era. Ele estava viajando, provavelmente em alguma reunião de negócios em São Paulo. E os outros funcionários da casa só voltariam pela manhã.
Levantei e fui até a porta.
— Quem é? — perguntei, num sussurro rouco de sono e irritação.
— Sou eu... Isadora — veio a resposta do outro lado. A voz dela era suave, com um tom de hesitação que me despertou mais do que o café da manhã mais forte.
Abri a porta com calma, só uma fresta. E lá estava ela.
Vestida com um roupão de cetim claro, amarrado com força na cintura, mas curto o bastante pra mostrar as coxas nuas. Os cabelos soltos caíam em ondas nos ombros, e os olhos azuis pareciam ainda mais intensos à luz baixa do corredor.
Ela parecia nervosa. Ou talvez estivesse fingindo.
— O que foi? — perguntei, cruzando os braços.
— Eu... ouvi um barulho. Forte. Vindo dos fundos da casa. E... — ela engoliu em seco — eu fiquei com medo. Será que você pode dar uma olhada?
Soltei um suspiro, claramente impaciente.
— Você acha que alguém invadiu a mansão do Lorenzo Morelli? Com muro de três metros, cerca elétrica e câmera até no vaso sanitário?
— Eu sei que parece exagero, mas juro que ouvi alguma coisa. Por favor, Enzo. Só dá uma olhada comigo.
Revirei os olhos, mas dei meia-volta, voltando pro quarto.
— Espera aí.
Peguei um bastão de beisebol que estava encostado no canto. Uma relíquia dos meus tempos de adolescente, quando ainda jogava por diversão. Nunca pensei que fosse usá-lo pra me proteger de um possível ladrão... ou pra acompanhar uma loira surtada pela casa.
Quando voltei, ela ainda estava lá. Me encarando. Seus olhos desceram automaticamente pelo meu corpo sem camisa, e percebi sua respiração falhar por um segundo. Dei um meio sorriso irônico.
— Vai encarar ou vai mostrar onde foi o barulho?
Ela desviou o olhar e andou na frente, descalça, com passos leves no chão de mármore.
Descemos as escadas em silêncio, o som do meu bastão batendo levemente contra minha perna. A mansão parecia ainda maior à noite. A iluminação era baixa, criando sombras pelas paredes, e o silêncio parecia pesar mais do que o ar.
— Foi por aqui — sussurrou Isadora, apontando na direção da cozinha, que levava à porta dos fundos.
— Aposto que foi o vento — murmurei. — Ou algum gato no telhado. Ou um esquilo psicopata.
Ela não riu da piada. Estava tensa. Assustada de verdade. Ou fingindo muito bem.
— Você sempre desacredita de tudo? — perguntou, num tom mais firme.
— Eu só não confio em primeiras impressões.
— E eu sou uma má impressão?
Virei o rosto devagar, encarando-a por alguns segundos. A penumbra deixava o rosto dela ainda mais misterioso. Olhos brilhando. Lábios entreabertos. Cheiro de lavanda no ar.
— Você é confusa — respondi, baixo.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, CRAACK.
Um barulho seco, como algo pisando em galhos no quintal.
Ela se encolheu e segurou no meu braço com força, os olhos arregalados.
— Eu ouvi! — sussurrou, com o coração disparado.
— Eu também — falei, sério agora.
Fomos andando até a porta de vidro que dava pro jardim dos fundos. Acendi a luz externa, mas não vimos nada de imediato. Apenas o vento balançando as árvores e o som distante de um carro passando na rua.
— Fica aqui — falei, soltando o braço dela. — Se alguém estiver lá fora, quero que você trave essa porta se eu sair.
— E se for perigoso? — sussurrou, segurando minha mão de novo.
— Aí você chama a polícia. E manda um beijo pro Lorenzo.
Ela não riu.
Eu abri a porta e dei dois passos pra fora, com o bastão firme na mão. O chão estava úmido, e o cheiro de terra molhada tomava o ar. Os sensores de movimento acenderam uma fileira de luzes no jardim, iluminando as árvores, as pedras do caminho e o pequeno lago artificial no canto direito.
Foi então que vimos.
Um homem cambaleando perto da cerca, vestido de forma desleixada, com a camisa aberta e a calça manchada de sujeira. Ele parecia bêbado, os olhos vermelhos, a respiração pesada.
— Isadora... — ele murmurou, com a voz embargada. — Volta... por favor.
Isadora ficou imóvel. Eu, por outro lado, levantei o bastão por precaução e dei dois passos à frente.
— Quem é você? — gritei.
O homem levantou a cabeça devagar. E, mesmo de longe, pude ver o desespero nos olhos dele.
— Isadora... não faz isso... a gente se ama...
Me virei, confuso, encarando a loira atrás de mim. Ela estava pálida, os olhos arregalados. Mas não disse nada.
Fiquei ali, no meio do quintal, de samba-canção, descalço, segurando um bastão e tentando entender o que, diabos, estava acontecendo.
Mas a resposta viria. E eu sentia que não ia gostar nada dela.