A breve história de Fernanda:
“Antes nesta região, as famílias abastadas se dividiam por casas e as pessoas que trabalhavam em suas terras eram jurados a estas casas, uma representação do período feudal, ainda nos tempos modernos, mas era como vivemos durante muito tempo, uma casa prestando respeito a outra, trocas de favores, casamentos para manter as fortunas somente entre eles.
Uma peculiaridade da casa Torres, da qual você descende Samantha é que as mulheres são belíssimas, sempre, nunca houve na história desta casa uma mulher que não tenha feito um homem enlouquecer por sua beleza, esta também era uma coisa temida, pois os mais antigos e supersticiosos chamavam-nas de bruxas. Não eu, ou os meus familiares que sempre serviram a sua casa e conhecemos a todos de perto.
Bem, Fernanda assim como você era belíssima, muitos homens se enamoraram por ela ao longo de sua vida, desde que atingiu a idade para ser apresentada a sociedade a casa Torres, sempre recebeu muitas visitas de futuros pretendentes, mas naquela época não se casava por amor, e sim por interesses financeiros, entre nós vassalos também era assim, só poderíamos casar com vassalos cuja a casa tivesse negócios com os nossos senhorios.
Bem a mais ou menos trinta anos, mais ou menos a bela Fernanda se apaixonou, como deveria ser, era jovem e bela e com certeza seria um dos casamentos mais festejados pela família e os seus. Mas quando ela disse quem era o jovem que ela gostaria de apresentar para a família, ele não foi aprovado. Não fazia parte de um clã abastado, não teria fortuna para somar com a casa Torres e por isso foi recusado.
Para os pais dela não importava o amor, somente os negócios e em nome dele eles podiam ser cruéis. Fernanda, dona de sua independência, um traço particular e peculiar a ela, não se submeteu às vontades da família e por duas vezes tentou fugir com o jovem par.
Na primeira tentativa de fuga, eles foram encontrados pelos homens que trabalhavam para a família e trazidos de volta, ela ficou encarcerada em seu quarto por dias. E para complicar se recusou a sair quando seria apresentada ao pretendente escolhido pela família, por conta disso ficou mais alguns dias presa em sua torre, como ela começou a chamar. O que ela não sabia é que para cada dia em que esteve presa, seu amado também esteve, mas não com as mesmas comodidades, foi ordenado que ele sofresse injúrias sobre a pele todas as manhãs e não lhe fosse permitido alimentação, a menos que ela quisesse se alimentar.
Os homens encarregados da segurança adoraram tais ordens pois sabiam que a jovem era contrária a ordens, então toda vez que chegava a eles uma informação contrária aos seus desejos eles adoravam, pois poderiam desferir mais torturas ao jovem. E isso levou aproximadamente seis meses, quando a moça se rendeu aos apelos da mãe e aceitou sair do quarto.
Até hoje acredito que a mãe a ajudou e o fez contando a ela sobre as torturas que o rapaz vinha sofrendo. Ela mudou ao sair do quarto, aparentemente estava seguindo a todas as ordens da casa, voltou a fazer os passeios ao ar livre, e fazer as refeições com a família, aceitou então conhecer o seu pretendente.
Marcos Almeida, claro da casa Almeida, produtores de vinhos conhecidos no mundo inteiro, por sua importação, para as duas famílias o casamento era perfeito, afinal um tinha interesse nas terras e o outro na produção de vinhas e o alto valor de mercado.
Ele era um homem um pouco mais velho, já tinha assumido os negócios da sua família e a tocava com pulsos de ferro, mas se viu apaixonado por Fernanda de forma arrebatadora, a garota não fez nada diferente para conquistar o homem, pelo contrário, quando sozinhos se mostrava o mais detestável possível, mas nada o demoveu do distrato, ele queria o casamento e ela aceitou que os arranjos e preparativos fossem realizados. Ocasionalmente recebia por intermédio da mãe notícias sobre o seu amado e a recuperação dele que inicialmente era lenta, mas vinha mostrando progressão com o passar dos dias.
Três meses se passaram desde a apresentação do casal para a sociedade, em toda a comunidade se falava do casamento das casas Almeida e Torres, a sequência dos nomes era importante para eles, estava ficando claro que a casa Torres seria então administrada pelos Almeidas e claro isso não agradava muito ao patriarca Torres, mas ele não tinha muito o que fazer, visto que a casa dele se tornou fraca, quando o boato da filha ter tentado fugir com outro se espalhou.
Marcos Almeida, não era muito preso a esta tradição, mas fez uso dela por que era importante para ele o poder sobre as casas. Se mostrou complacente aos desejos da jovem, impondo alguns limites mas permitindo que ela tivesse algumas liberdades até o dia do casamento, que deveria ser breve.
A ideia de casar era algo que desagradava Fernanda, mas ela em nome do amor, aceitou tudo o que foi imposto. E às escondidas tramava um meio de fugir disso, conhecendo a sua angústia teve o apoio da mãe, que mesmo contrariando o marido, optou por apoiar a filha, pois não queria que ela se entregasse a um relacionamento sem amor, não como tinha sido o dela, e mesmo depois de estar casada e saber que tinha tido uma vida tranquila, não sabia o que era o amor, não na intensidade em que a filha descrevia o que sentia.
Fernanda planejava fugir dias antes do casamento, estava apenas aguardando o restabelecimento do seu amado, pois agora entendia que a fuga poderia ser mais penosa. Não poderiam fugir por caminhos conhecidos e pegar um avião como planejaram antes.
Iriam então por terra, por estradas vicinais, que levariam a um porto e de lá seguir para um destino ignorado. A ideia era entrar no primeiro barco que estivesse partindo. Sim, o plano tinha falhas. Eles não tinham o suporte de ninguém, nem mesmo a mãe poderia ajudar muito, ela fez o que pode para conseguir que o jovem pudesse escapar durante a troca de turno dos seguranças.
A noite em que fugiram era uma noite escura, a troca de turno era sempre às oito horas da noite, ela conseguiu se esgueirar pelos cantos da casa, até chegar na ala onde o jovem estava encarcerado, destravou a porta e encontrou ali finalmente o homem por quem seu coração bateria para sempre. Ele estava mudado, os meses de encarceramento haviam roubado o brilho dos seus lindos olhos, mas o sorriso de felicidade jovial voltou aos seu rosto quando a viu. Se abraçaram e choraram, mas não tinham muito tempo, o plano de fuga estava em curso.
Ela o fez seguir pelo mesmo caminho que tinha feito para chegar até ali, buscaram os fundos da casa e de lá partiram a pé até a moto que tinha escondida perto da estrada. Ali havia uma mochila com poucas roupas para os dois, algum dinheiro e um monte de esperanças. Conseguiram rodar por pelo menos duas horas sem serem incomodados.
Na casa a ausência dela foi notada no jantar, mas a mãe justificou dizendo que a filha havia informado que estava indisposta e por isso não jantaria. Ninguém foi confirmar se ela estava no quarto, pois ela vinha se comportando bem todos aqueles dias. Mas após a troca da guarda, quando o jantar do hóspede foi servido, notaram que ele não estava em seus aposentos, e isso soou um alerta. Todos foram mobilizados, ligações foram feitas, estradas fechadas. Almeida tinha mais recursos, mais contatos e logo ficou sabendo de uma moto com duas pessoas cruzando a estrada sentido porto.
Ele era praticamente dono do porto, nada entrava ou saia sem que ele tivesse conhecimento. Tudo legal ou ilegal era de seu conhecimento, então quando a informação de que um rapaz queria duas passagens para qualquer barco saindo do porto seu alerta ativou.
Marcos orientou que a passagem fosse concedida sem muitos embaraços, ele não avisou para a família que provavelmente teria uma pista positiva de Fernanda e o amante, ele disse que se juntaria a diligência e saindo da propriedade se dirigiu o mais rápido que pode para o porto, chegando lá foi direcionado ao barco onde o jovem casal se achava seguro e entrou.
Os dois estavam na parte oposta do navio, abraçados, olhando para a imensidão de água que se estendia à sua frente, o navio tinha como destino Amsterdã, passando pelo sul da África, sentiam que estavam seguros, os marinheiros não os incomodaram, disseram onde deveriam ficar e quais partes do navio poderiam transitar, e para eles estava tudo bem desde que pudessem estar juntos.
A visão do jovem casal abraçado mirando o horizonte, encheu o coração de Marcos Alencar de raiva, o ciúmes falou mais alto e mais forte, ele perdeu a razão por longos minutos, enxergou tudo vermelho, mas manteve a classe. Se aproximou do jovem casal, tocando com mãos de aço os ombros de Fernanda.
Quando ela sentiu o toque violento em seu ombro, sentiu o sangue gelar em suas veias e o coração parar, ele olhava para ela com muita raiva. Em momento algum dirigiu o seu olhar para o jovem que olhava aterrorizado para o homem à sua frente, ele tentou lutar por sua amada, mas foi seguro por outros dois seguranças.
-- Você voltará para a residência, e será uma noiva feliz em nosso casamento. E vai fazer isso, porque a tua família depende de você, seus pais, seus avós. Ele não é nada para você, nunca será, e você não terá a oportunidade de voltar para ele, por que esta história de amor, como o dos folhetins acaba hoje.
Então e somente, ele se virou para o jovem e lhe deu um tiro à queima roupa. Ordenou que o seu corpo fosse lançado ao mar, para que servisse de alimento aos peixes. Fernanda não viu o tiro, enlouqueceu somente com o som, e mesmo ciente das consequências jurou para o homem à sua frente que ela se casaria, mas nunca lhe teria amor.
Seus olhos se tornaram violeta, a dor a mudou naquele instante. Eles retornaram para a residência sem trocar uma palavra, ele não permitiu que ela fosse encarcerada, ou punida. Na verdade não era necessário mais nenhuma punição, sua alma já tinha sido domada, ela estava só.
Sua mãe olhava para ela com pesar, o que denunciava a sua culpa e participação no auxílio da fuga da filha, o pai se afastou abatido, aceitando que não era mais o senhor da casa. O avô que chegou a casa por motivos do casamento acolheu a garota sem poder fazer muito por ela, viu a mudança em seus olhos e previu que aquilo era só o começo de uma longa história que se repetia, mas não achou o momento para ter esta conversa com a jovem.
O dia do casamento chegou a cinzento, a cerimônia foi reservada apenas para os amigos íntimos das casas e contatos comerciais. O dia que tinha começado cinza próximo do horário estava quase escuro, e ainda assim o altar que tinha sido erguido próximo do penhasco se manteve no lugar.
Marcos, se vestiu com toda pompa para o evento, e esperou a noiva em seu local como manda o decoro, ele aguardava que seu sogro trouxesse a noiva até seus braços passando por um longo tapete vermelho. A decoração estava perfeita, e quando os acordes da marcha nupcial deu início, a noiva toda de branco em um belo vestido rendado incrustado em pérolas que cintilavam ao toque das luzes dispostas pelo jardim, caminhava a passos lentos porém firme em direção ao altar.
Ele sorria convencido da vitória, de ter para si uma jovem tão bela, ele sabia que ela jurara nunca o amar, mas ele teria a vida inteira para fazer dela a sua amada, e conquistar o seu coração, afinal acreditava não ser uma pessoa tão má.
O padre estava fazendo suas preces, enquanto o pai entregava a noiva para o noivo. E de repente tudo mudou. Alguém entre os convidados gritou “fogo” e todos se voltaram para a direção onde a pessoa apontava. A sala principal da casa estava em chamas, algumas pessoas correram em direção da casa para conter as chamas. Marcos olhava para a casa em chamas de forma impassível, como se nada o pudesse tocar, até mesmo o padre se mobilizou para se juntar à brigada que se formou.
A noiva também, não parecia preocupada com as chamas, ela estava olhando direto para frente, onde a poucos passos se estendia o abismo abaixo deles, e talvez aproveitando que as pessoas não estavam olhando, ela tomou impulso e se atirou contra o homem grande que era Marcos Almeida, que distraído, sem equilíbrio e sem ter onde se apoiar se deixou ser alçado a um curto voo antes da queda.
Os poucos que realmente viram e entenderam o que aconteceu, dizem que ele estava com um sorriso feliz quando caiu no penhasco. Certamente por que estava prestes a morrer com aquela que ele acreditava amar. A queda até o fim do penhasco era uma morte certa.
As pessoas ficaram divididas entre salvar a casa ou os noivos que desceram em queda livre para a morte certa. Os senhores da casa, não viram a queda, pois já estavam muito à frente dentro casa, onde foram consumidos pelas chamas. Os convidados e empregados deram o seu máximo para conter as chamas e tiveram sucesso, mas não puderam salvar a família, e quando a informação de que os noivos tinham caído no penhasco, um grupo se formou para poder resgatar os corpos.
Mas quando alcançaram o fim do abismo, dois dias depois do incidente, apenas o corpo de Marcos estava lá, não havia sinal da noiva, nem de seu traje ou mesmo indícios de sangue, o que provaria que ela caiu junto com o noivo.
E desde então a lenda se fez.
Dizem que em dias de tempestade, Fernanda volta para visitar a casa. “