Tinha trechos que ela lia nos arquivos que pareciam ser escritos para ela, e o instinto insistia em avisar que ela não devia confiar tudo a ele, um sexto sentido que sempre teve ao qual ela sempre dera atenção. Tinha levado consigo apenas uma mochila com roupas básicas pois acreditava que não passaria muito tempo ali na colina, e muito menos faria viagens, e agora pensava consigo como faria uma viagem tão longa com pouca coisa. Se sentia mais independente com sua moto.
Reuniu suas anotações, e as gravações que constantemente faz quando pensa em voz alta, guardou em sua pasta e foi para o seu quarto, lá tomou um banho rápido e trocou a sua roupa básica por outra de tonalidade diferente porém igualmente básica. Colocou todos os demais pertences na mochila, incluindo o notebook e a câmera, a mesma que usou para fotografar a tempestade e desceu para encontrar com Oscar que a aguardava na sala de jantar.
Quando ela entrou na sala, ficou encantada com o belo homem que se apresentava a sua frente, vestido de forma casual com uma calça jeans escura que contornava os músculos de sua perna uma camisa branca sem gravata e um blazer igualmente escuro, ele sorriu para ela com dentes brancos e perfeitos e a convidou para sentar, ela tentou desviar o olhar de desejo o clima da sedução se instalou entre os dois sem muito esforço.
Pela primeira vez na vida ela se sentiu boba e desarrumada diante de um homem. O que aos olhos dele era totalmente desnecessário, pois a sua beleza invadia os lugares por onde passava, ela poderia não se dar conta, mas em qualquer lugar em que entrava ela passava a ser o centro das atenções.
Ali naquela sala eram somente os dois, e provavelmente eles se sentiriam presos um no olhar do outro mesmo se estivessem rodeados por multidões.
-- Ah, é, por favor sente-se. Eu pedi para dona Lúcia preparar algo leve, normalmente peço coisas deste tipo quando vou voar. Espero que esteja de acordo.
-- Eu não tenho o hábito de jantar, então. Acho que você acertou.
-- Que bom. Esta é toda a bagagem que você vai levar?
-- É tudo o que eu trouxe, normalmente quando estou em expedição, foco mais na pesquisa do que em mim, então não trouxe nada extraordinário.
-- Você, por si só, já é extraordinária, não precisa de mais nada.
-- Oi?
-- Ahm, nada. Eu me distraí.
Foram interrompidos com a chegada de dona Lúcia que trazia uma terrina de sopa e algumas torradas, para acompanhar. Ele pediu um vinho tinto e ela foi buscar.
-- Espero que aprecie, é fabricado aqui na região, de um sabor singular e viciante.
-- Adoro vinho, você fez uma ótima escolha.
Os dois se estudavam a cada olhar, a boca carnuda dele, que escondia aquele sorriso perfeito. O olhar penetrante dela, que oscilava de cor quando o fixava em algum ponto da sala.
-- Vocês pretendem comer antes que esfrie?
Era dona Lúcia retornando com a garrafa solicitada e vendo que nenhum dos dois tinham tocado na comida, ele disse que estava esperando ela retornar para que pudessem brindar. Ela não acreditou muito mas acatou a desculpa.
-- E vamos brindar ao que?
-- Descobertas…
E o fizeram. O clima entre os dois era de paz, ambos estavam se conhecendo e claramente seduzidos pela presença marcante um do outro. Jantaram em silêncio, havia pressa pois a nave já estava próxima do heliponto, ele já havia sido comunicado, ela pensava em como deveria ser simples a vida de um milionário, não que dinheiro para ela fosse um problema, sempre teve, mas nunca tanto.
-- Vamos? O carro nos espera.
A viagem de carro até o pequeno aeroporto era curta m*l tiveram tempo de conversar pois ele passava algumas instruções para o motorista, parecia uma outra pessoa dando ordens e orientações, como eram assuntos de negócios ela não prestou muita atenção, enquanto isso ela revia as suas anotações e um nome era recorrente, Zaira.
-- “Zaira pode abrir os olhos... “ O que isso quer dizer?
-- Oi? Falou comigo?
-- Não, eu pensei alto, mas você pode ajudar. Eu achei várias menções deste nome “Zaira”, acho que é uma pessoa, não um lugar, podemos procurar por ela quando chegarmos lá.
-- Podemos. Na verdade não temos um itinerário programado, então podemos ser turistas e procurar enquanto visitamos a cidade. Você já fez uma pesquisa na internet?
-- Eu não acredito que todas as suas pesquisas têm início na internet.
-- E às vezes um fim também, a internet ajuda muito a Dra. pesquisadora. Veja que temos três referências a Zaira em Nova Orleans, um café, um bar e um restaurante, tenho certeza que pertence a mesma pessoa.
-- Se for assim, será mais fácil.
Estavam estacionando no aeroporto, e um jatinho estava taxiando próximo a eles, era todo preto e tirando os dados exigidos pela aviação não tinha mais nenhuma informação que pudesse identificar o belo pássaro n***o de metal que os aguardava. Descendo da nave, uma bela mulher usando um terno azul, bem moldado ao seu corpo, sorriu para Oscar como se tivesse ganhado na loteria, e fez Sam se sentir invisível.
-- Capitão, que bom te ver. Quando soube que a viagem seria com o Senhor, eu mesma preparei o equipamento.
-- Que bom te ver Stella, sei que a nave está perfeita como sempre.
-- E o Sr. irá pilotar a nave, deixei a sua almofada do jeito que gosta.
-- Hoje não, vou fazer companhia para a minha amiga. Samantha, esta é Stella a copiloto.
Stella fez questão de medir Samantha de corpo inteiro, deixando claro que ela era inapropriada para estar do lado de um homem tão belo. O que causou certo incômodo, mas não inerte. Ignorando a moça de forma fria da mesma forma que foi recebida, falou diretamente para ele.
-- E quais outras surpresas terei? Você não me disse que era piloto "Capitão".
Colocou a mão no braço dele, ao que ele entendeu a provocação.
-- Você não me deu muito tempo.
Sorriu olhando nos olhos dela e se movimentando para cochichar em seu ouvido.
-- Se ela derrubar o avião a culpa é sua.
Ela mais uma vez insinuante, apenas sorriu, não precisou olhar para os olhos gelados que a encarava com desprezo. Stella limpou a garganta para interromper a i********e dos dois. Quando olharam para ela foram perguntados sobre as bagagens.
-- Tudo o que precisamos está aqui, gostaríamos de partir assim que a torre autorizar.
-- Então será imediatamente.
Ela voltou a ser profissional, encaminhando o chefe e sua acompanhante para a nave. Assim que certificado que ambos estavam sentados lado a lado e com os contos de segurança, informou o plano de voo pelo auto falante e partiram.
A viagem até Nova Orleans foi curta e rápida, quando desembarcaram já havia um carro os esperando com motorista que foi dispensado pois Oscar queria dirigir pela cidade, ele sentia um certo prazer em circular pela cidade e não gostava de ostentar na cidade onde cresceu e onde conhecia a maioria das pessoas, detalhe este que não tinha sido informado para a Sam, pois ele queria ver como ela se movimentava entre seus muitos conhecidos.
Foram direto para o centro velho, onde estava localizado o endereço do bar. Era uma noite quente as pessoas faziam fila para entrar, o que dava para ver o prestígio do local, Samantha, apenas seguiu Oscar quando ele deixou o audi preto e se dirigiu diretamente para o segurança na porta do bar, um homem alto n***o vestido com um blazer e por baixo uma gola rulé, com o calor que fazia no local, era impressionante ele conseguir se manter firme e com um sorriso recebendo os clientes. Quando Oscar se aproximou, ela imaginava que ele pediria para passar na frente como se fosse um cliente V.I.P., mas o que se seguiu foi mais interessante.
-- Então resolveu pagar o que me deve. - Disse o segurança.
-- Eu não lembro disso não, mas não posso pagar sobre a minha vitória.
-- E está fazendo o que tão longe de casa?
-- Eu trouxe a minha amiga aqui para conhecer a vizinhança, e quero apresentar o bar para ela, por que esta tão lotado hoje?
-- Temos apresentação especial toda sexta.
-- Isso é novo?
-- No formato atual sim, mas sempre tivemos. Ela é ótima e o público a ama. É preciso reservar mesa com dias de antecedência.
-- Uhm, tudo bem, voltamos amanhã, por que queremos falar com a Zaira também.
-- Não se faça de modesto, você tem mesa em qualquer lugar desta cidade. Venham entrem, vou avisar que você deseja uma hora particular.
O segurança gesticulou para o outro que estava mais a frente pedindo a troca de lugares, assim que foi feito eles adentraram o local. O bar era muito amplo com exibição de garrafas de bebidas do mundo inteiro. As mesas estavam quase todas ocupadas.
O lugar era lindo e todos estavam voltados para o palco que estava mais iluminado. Foram direcionados a uma mesa que ficava mais ao canto do palco, eles tinham uma visão privilegiada.
Aos poucos as luzes foram ficando em penumbra, algumas pessoas começaram a bater ritmada na mesa, provavelmente já tinham participado do show em vezes anteriores.
Quando Zaíra subiu ao palco, o que Samantha viu foi uma mulher n***a belíssima, usava uma roupa de couro preta e um colar de ossos que certamente só ficaria vem nela, a roupa parecia costurada em seu corpo, se ajustava perfeitamente, o som da bateria e o riff agudo da guitarra dava um toque único ao espetáculo. Ela sorriu e uma fileira de dentes brancos foram expostos e o alto som foi cessando lentamente até que o ambiente todo ficou em silêncio e em penumbra, iluminado apenas pelas luzes de velas que estavam nas mesas.
Os dois foram pegos de surpresa quando a luz focou apenas a bela mulher no palco, ela manteve o sorriso e levantou as mãos chacoalhando um pandeiro meia lua, fazia a volta em um meio círculo e o parava em sua mão, fez isso três vezes e então começou a recitar em tom de poesia.
“Eu não sou dona da verdade.
Por que a verdade é livre.
Eu não controlo o tempo.
Por que ele vai e volta.
Eu não espero nada do amor,
Por que ele não me controla.”
-- Boa noite a todos, eu sou Zaíra, muitos aqui me conhecem, e é sempre um prazer receber novos visitantes. Eu não canto, nem sou poeta, apenas repito o que ouço, geralmente não serve a mim, mas pode servir para ti.
Palmas foram ouvidas, o tom estava prestes a subir e ela o pausou imediatamente com as mãos tocando o pandeiro.
-- Eu sei que vocês buscam respostas, eu não tenho para todos. Eu vou falar que alguém terá uma oportunidade no trabalho, uma nova chance no amor, uma viagem importante. E todos vocês vão dizer que já ouviram isso antes. Então eu vou mostrar.
Ela se movimentava no palco, e apontava com a mão que segurava o pandeiro para algumas mesas e pessoas, falava as palavras para as pessoas e essas demonstravam que estavam certas de que a mensagem era para elas, continuando a sua caminhada foi em direção ao canto onde Samantha e Oscar estavam.
-- Aqui eu vejo amor, muito amor. Reencontro e retorno. É muito bom te ver de volta Fernanda.
O coração de Samantha travou e ela sentiu leves pontadas e uma dor aguda em sua cabeça. Oscar buscou por suas mãos e elas estavam geladas, Samantha estava pálida.
-- Eu, eu não sou Fernanda. - balbuciou e desmaiou.