Filipe . . .
Brotei em casa depois de terminar meus corre, e já passava das seis horas da noite.
De cara, já encontrei a Fabiana na cozinha. Ela tava lavando a louça, mas simplesmente parou, me encarou e voltou a lavar.
Larguei o oitão em cima da mesa, junto com o meu celular, e fui atrás de algum bagulho pra comer na geladeira.
Fabiana: Você não veio almoçar. – comentou, sem nem me olhar.
Eu também não olhei pra ela. Só catei uns potes de comida ali e coloquei pra esquentar no prato.
Ainda tinha que tomar um banho antes de subir pra treinar os moleques, e eu tava cansadão.
O filho da p**a que falasse que vida de bandido é só curtição merecia levar um tiro na testa.
Tirei o prato do micro-ondas e sentei na mesa. Ela terminou de lavar a louça e se encostou na pia, me olhando.
Fabiana: Você está me vendo aqui? – perguntou.
Filipe: Tu ainda não tá invisível. – respondi de boca cheia, sem olhar na cara dela.
Já tava boladão, ela que não viesse me estressar.
Fabiana: Deco veio aqui hoje.
Eu larguei o garfo no prato e afastei a comida, olhando pra ela pela primeira vez.
Filipe: Te comer?
Fabiana: Nossa, Filipe, vai se f***r!
Neguei com a cabeça e voltei a comer. Tinha mais o que fazer do que perder meu tempo com essas merdas.
Filipe: Qual o meu vulgo, p***a? Já falei que não quero meu nome saindo da tua boca.
Fabiana: Eu sou tua mulher! – gritou.
Fiquei de pé, na maior agilidade, me aproximando dela. Não encostei, mesmo que eu quisesse quebrar a cara dela.
Fabiana abaixou a cabeça rapidinho, olhando pro chão.
Filipe: Tu tá bem ligada que não é minha mulher tem tempo.
Fabiana: A gente ia ter um filho. Você não tem a menor sensibilidade por isso? Somos um casal, deveríamos estar passando por esse momento difícil juntos!
Filipe: Difícil pra ti? – ela levantou o olhar, me encarando com a maior cara de cachorro abandonado – O filho era meu ou do Deco?
Deco era primo da Fabiana, e uns meses antes de ela descobrir a gravidez, chegou um papo no meu ouvido que eles estavam se pegando.
Não foi uma surpresa muito grande, porque sempre saquei a malícia dele, e no começo até achava que ela retribuía.
Mas ela tava bem avisada que, se fizesse algum vacilo, ia ser cobrada.
Mas tu me escutou? Pois é, a Fabiana também não.
Foi lá e me meteu um par de chifres com o próprio primo, que eu tenho ódio.
E foi assim que as coisas entre nós ficaram do jeito que estão. E por isso ela foi cobrada.
Ela apanhou tanto que tinha as marcas até hoje, se pá.
Cabelinho ficou na zero e usava peruca pra lá e pra cá.
Eu nem gostava muito dessas parada de bater em mulher e criança, mas se teve vacilo, ia ter cobrança. Sem caô!
No Deco foi só surra de madeira molhada, e uma semana trancado em uma sala. Com frio, fome, e os c*****o tudo.
Eu queria mesmo era ter matado os dois, mas o Grego não deixou, porque eles eram primos da fiel dele.
Não olhei na cara da Fabiana por um tempo. Mandei ela pra p**a que pariu mesmo.
Até ela brotar na minha porta umas semanas depois, falando que tava grávida, que o filho era meu, e que era impossível ser do Deco.
Que era tudo caô e que ela nunca tinha dado pra ele. Chorou pra c*****o no meu ouvido e disse que tava morando na rua, que pelo menos precisava da minha ajuda pra ter onde ficar.
Fabiana veio morar comigo nova pra c*****o. Brigou com pai, com a mãe e as p***a toda.
Pesou na minha mente legal, dizendo que eu era responsável por ela, e eu acabei deixando ela ficar.
Não gostava dela e tinha nojo, mas eu sempre aprendi que era melhor manter o inimigo perto do que longe.
E pra todo mundo, a gente tava junto de vez.
Mas era a maior caôzada, porque dentro de casa era só eu tentando fazer ela vazar pra longe toda vez que eu perdia a paciência, mas ela não largava do meu pé.
Fabiana: Esquece isso, cara! Já te falei que eu nunca fiquei com Deco, Tubarão!
Filipe: Já mandei tu não mentir pra bandido. Ter quase conhecido o d***o uma vez não foi suficiente?
Ela respirou fundo, deixando os ombros caírem ao lado do corpo.
Fabiana: Deco veio aqui porque queria falar contigo. Ele quer entrar no esquema aí, mas o Grego mandou ele se resolver contigo.
Filipe: Quando ele vir aqui de novo, tu avisa pra ele que a minha resposta é que ele não vai entrar. – Sentei na mesa de novo – Já deixa tuas mala pronta, e vai os dois pra casa do c*****o.
Eu nem consegui comer. Larguei tudo ali em cima da mesa mesmo e saí da cozinha, indo até o meu quarto — que nem era o mesmo que o dela, desde que a gente voltou a morar junto.
Joguei uma água no corpo rapidão, e depois fiquei a maior cota fumando na janela, aliviando a mente e me preparando pra encontrar com os moleques.
Quando deu sete e meia, eu vazei na minha moto, e pra minha sorte, a Fabiana tava trancada em algum canto da casa.
Então eu nem vi a cara de vagabunda dela.
Chegando lá, eu já vi todos os selecionados no galpão, porque estavam ligados que eu não gostava que atrasassem.
Menos a Alana.
A filha da p**a que me testasse, pra ver se eu não ia fazer a cabeça do Grego pra ela pular fora do assalto.
Filipe: Tua irmã não tem relógio em casa? – perguntei pro D2, que tava sentado mexendo no celular.
Salvador: Falta quinze minutos aí, tio. Marca dez que já já a Alana brota.
D2: Por mim ela tá fora.
Alana: Eu tô fora é o seu cu! – Virei na direção dela, que entrou pela porta do galpão com a maior cara feia – Grego me deu a oportunidade, não vai ser vocês que vão tirar ela de mim.
D2: Fica de gracinha pra ver se tu não cai fora. – apontou na cara dela.
Alana: E você quem vai me tirar? – Ela caminhou até o Salvador, sentando do lado dele, colocando um pé em cima do sofazinho e abraçando o ombro dele com um dos braços – Oi, bebê.
Filipe: Ele não. Mas eu tiro. – Eles me encararam – Salvador, tu tá ligado que isso aqui não é lugar pra namoro.
O mano empurrou a mão dela pra longe rapidinho e negou com a cabeça.
Salvador: Tem namoro aqui não, parça.
Alana riu baixinho e empurrou ele com o ombro.
Eu tava só palmeando as atitudes daquela garota... Nem tava errado quando eu chamava ela de criança.
Rato: E aí, irmão. Qual é a missão?
Filipe: A missão é botar pra f***r. – Eles me fitaram com atenção – Preciso de alguém pra desligar as câmeras de segurança do condomínio, e é por isso que tu tá aqui, Rato.
Rato: Jaé, meu truta.
Filipe: Preciso de alguém que tenha olho de águia. Tu tá ligado, né Salvador? – Ele concordou e fez um legal com a mão – Preciso de um piloto de fuga.
D2: Duzentão por hora então, meu parceiro.
Alana arqueou a sobrancelha pra mim, cruzando os braços.
Alana: Precisa de mim pra quê?
Eu dei de ombros.
Filipe: Não preciso. Tu tá aqui porque o Grego quer.
Vi a cara dela ficando bolada e nem perdi tempo. Já comecei a explicar os detalhes do plano. Onde era, quando seria e como faríamos.
Os moleques já se empolgaram e começaram a lançar várias ideias, enquanto a criança lá ficava quietinha, aprendendo com os mestres como fazia.