Juninho narrando
Mano, que p***a é essa? Cheguei em casa do trampo, umas oito e meia da noite, morto de cansado. Entreguei encomenda o dia inteiro, sol quente, trânsito, moto esquentando, só queria um banho, uma cerveja e esquecer que o mundo existe. Estacionei a moto, e olhei pro portão, trancado, normal.
Entrei.
Aí fui abrir a porta de casa e parei.
O vaso.
O vaso da planta murcha tava no canto errado. Sempre deixei ele do lado esquerdo da porta, sempre. Minha mãe que colocou ali antes de morrer, e eu nunca mexi, agora tava do lado direito, alguém entrou aqui. O coração acelerou na hora, olhei pra trás, a rua vazia, só o poste piscando. Empurrei a porta devagar, mão tava suando. Se tivesse alguém dentro, eu ia ouvir, fiquei parado um tempo, só escutando.
Silêncio.
Acendi a luz da sala.
Nada.
Tudo no lugar, mas meu olho foi pro chão, um papel dobrado, peguei, e abri.
— MEXEU COM QUEM NÃO DEVIA. A PRÓXIMA NÃO É AVISO.
Puta que pariu.
Li umas cinco vezes, sem acreditar, o papel tremia na minha mão, olhei em volta de novo, a janela, porta. Qualquer movimento.
Nada.
Fechei a porta rápido, tranquei com chave, corrente, tudo que tinha. Encostei as costas na madeira e fiquei ali, respirando fundo. Quem foi que entrou aqui? Quando? O que querem?
Li o papel de novo.
Mexeu com quem não devia.
Luly.
Só podia ser, a mina do baile, a morena, ela deve ter contado pra alguém, algum irmão, primo, namorado novo. Alguém que veio atrás, botei a mão na cabeça.
Merda, merda, merda.
Pensei em ligar pra polícia, mas que polícia? Pra falar o quê? Alguém entrou na minha casa e deixou um bilhete? Iam rir na minha cara, ou pior: iam perguntar por quê, e aí eu ia ter que explicar o que fiz no baile. Segurar a Luly, empurrar ela, e gritar, na frente de todo mundo. Respirei fundo de novo, fui até a cozinha, abri a geladeira, peguei uma cerveja, e bebi metade de uma vez.
O papel ainda na mão.
Olhei pra ele.
A letra era feia, de propósito, pra não reconhecer, mas a mensagem era clara, a próxima não é aviso. O que seria a próxima? Uma bala? Uma faca? Um p*u na cabeça?
Bebi o resto da cerveja.
Pensei em ligar pros cara que eu conheço, os menor da boca, pedir proteção, mas aí ia ter que explicar, e se espalhasse, todo mundo ia saber que tão atrás de mim. Fiquei ali, parado no meio da cozinha, sem saber o que fazer.
Aí ouvi um barulho lá fora, uma moto passando, meu coração quase saiu pela boca. Corri pra janela, espiei pela cortina, só uma moto passando, e alguém voltando do trampo.
Relaxa, Juninho.
Mas não dava, coloquei o papel no bolso, fui pro quarto, abri a gaveta, e peguei a chave do armário. Lá dentro tava o revólver do meu tio, ele deixou quando morreu, anos atrás, eu nunca tinha usado, e nem sabia se tava funcionando.
Peguei, e senti o peso, coloquei na cintura.
Voltei pra sala, tranquei a porta de novo, mesmo já estando trancada, corrente, e ferrolho.
Desliguei a luz.
Fiquei sentado no escuro, revólver na mão, ouvindo cada barulho da rua. O papel no bolso queimava igual brasa, mexeu com quem não devia.
Quem?
Luly.
Ela era só uma mina, fraca, chorona, sempre achei que não ia dar problema, mas parece que tava enganado. Fiquei ali a noite toda, não dormi. Quando o dia clareou, levantei com o corpo moído. Olhei no espelho do banheiro, olheira funda, cara de quem viu fantasma.
Lavei o rosto.
Olhei pro revólver em cima da pia, pensei em não ir trabalhar. Mas aí pensei: se eu não for, tão esperando isso, tão querendo que eu me cague.
Respirei fundo.
Vesti a roupa, peguei o capacete, e coloquei o revólver na cintura, escondido na camisa.
Abri a porta devagar.
Olhei pra um lado, pro outro.
Rua vazia.
Tranquei tudo, fui pra moto, liguei, e acelerei. Enquanto arrancava, olhei pelo retrovisor. Um cara tava parado na esquina, preto, boné, olhando pra mim. Não desviou o olhar, acelerei mais, o papel ainda tava no bolso.
A próxima não é aviso.
Passei o dia inteiro pilhado. Na rua, entregando encomenda, mas a cabeça tava longe, cada moto que passava do lado eu olhava, carro mais devagar eu suspeitava, parecia que todo mundo tava me olhando, me seguindo, e me julgando.
O papel ainda tava no meu bolso, li umas vinte vezes durante o dia, mexeu com quem não devia. A próxima não é aviso, mordi o beiço com força.
Luly.
Tinha que ser ela, quem mais podia ser? Ela e a amiga, aquela morena que veio pra cima de mim no baile, a cara de brava, e a voz firme. Deviam ter contado pra alguém, algum parente, um mano envolvido. Parei a moto no acostamento umas três da tarde, tava calor, cabeça fervendo, suor escorrendo.
Puxei o celular.
Fiquei olhando pro contato dela.
Luly.
Ainda tinha o coração, nem sei por que não apaguei, talvez por esperança, por orgulho, ou por não aceitar que tinha acabado.
Cliquei.
— Parabéns.
Mandei.
Ela viu rápido, os três tracinho apareceu na hora.
— Oi?
— Bonito o que cê fez.
— Que você está falando?
— Fingindo que não sabe? Mandaram recado lá em casa hoje
— Que recado?
— Alguém entrou na minha casa, e deixou bilhete, ameaça, cê sabe quem foi?
— Juro que não sei.
— Ah para.
— Juninho, juro, não mandei ninguém.
— Então foi sua amiga, a brava, ela arrumou alguém.
— Não foi ninguém, mas se foi, fez bem
Meu sangue esquentou na hora.
— Como assim fez bem?
— Depois do que você fez comigo no baile, mereceu.
— O que eu fiz? Segurei seu braço só.
— Só? ME SEGUROU À FORÇA NA FRENTE DE TODO MUNDO
— Cê tava me ignorando.
— TÔ TE IGNORANDO PORQUE NÃO QUERO MAIS NADA COM VOCÊ.
— Mas não precisa arrumar gente pra me ameaçar.
— Não arrumei ninguém, mas se tô sendo sincera? Tomara que apareça mais
— Luly…
— Me deixa em paz.
— Eu ainda te amo.
— E eu já não sinto nada.
— Mentira.
— Verdade.
— Cê vai se arrepender.
— Ameaçando de novo? Vai ver o bilhete foi merecido mesmo.
— Luly.
— Some da minha vida.
Ela saiu.
Os três tracinho sumiu, ela me bloqueou? Ou só saiu da conversa? Tentei mandar outra mensagem, não foi.
Bloqueou mesmo.
Puta que pariu.
Bati a mão no guidão da moto, o calor subiu pro rosto, o sangue ferveu igual leite no fogo. Fiquei ali, no acostamento, respirando fundo. O trânsito passando, ninguém ligando. Ela disse que não mandou ninguém, mas não parecia surpresa, não parecia arrependida.
Parecia que tava gostando, que queria mais. Mordi o beiço com força, pensei em ir lá, agora mesmo. Mas aí pensei no bilhete, a próxima não é aviso. Se eu aparecer, vão achar que sou i****a, que não entendi, que tô pedindo pra próxima acontecer.
Respirei fundo de novo, liguei a moto, e voltei pro trampo, mas a cabeça não saía daquilo.
Luly.
Ela me bloqueou, ela disse que não sente mais nada, disse que tomara que apareça mais ameaça. Meu sangue ferveu de novo. No fim do dia, voltei pra casa, antes de entrar, olhei tudo, nada mexido. Entrei rápido, e tranquei tudo, sentei no sofá no escuro, peguei o revólver, e coloquei no colo.
Luly.
Ela ia se arrepender, não hoje, não amanhã. Mas um dia, e quando esse dia chegar, ela ia lembrar de mim.