Camilla A primeira vez que eu ouvi foi por acaso. Eu estava encostada na janela alta do esconderijo, tentando decifrar o morro pelo recorte de céu e pelo som das coisas pequenas, panela batendo, chinelo arrastando, moto subindo devagar. Eu ainda sentia o cheiro de fumaça preso no cabelo, e a chave pesava no bolso como se lembrasse o tempo todo: você pode ir. Só que o morro não deixa ninguém ir de verdade quando ele decide que seu nome virou assunto. A voz veio do lado de fora, na rua estreita, bem abaixo do nosso recorte de janela. Duas mulheres paradas num portão, conversando como se a vida fosse normal. — Eu tô te falando… — uma delas disse, rindo baixo. — Ela não é só refém, não. — É o quê então? — É mulher dele, ué. Tu não viu o vídeo? O jeito que ele puxou? Ali não é “resgate”

