"Antes que a chama se acenda, ela sonha com água. Antes que o fogo a consuma, a terra a reclama de volta."
— Fragmento do Livro das Marcas.
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No dia seguinte, Elisa estava eufórica. Mais uma vez havia passado o dia inteiro pensando em Henrique. A curiosidade sobre o homem misterioso só crescia, mas era mais do que isso — era um desejo ardente de estar com ele, de saber se ele também pensava nela da mesma forma.
As noites se tornaram seu refúgio. Ela e Henrique se encontravam quase todos os dias, no mesmo lugar, escondido além da barreira mágica. Aquele local, antes silencioso e estranho, tornara-se agora o seu preferido.
As conversas sobre os filhos da noite foram ficando raras. Em seu lugar, surgiram histórias de lugares distantes, sabores exóticos, plantas que curavam e frutas que só cresciam sob luas específicas. Henrique encantava Elisa não apenas com sua aparência ou seus olhos intensos, mas com tudo o que sabia.
Numa dessas noites, foi a vez de Elisa falar. Ela não tinha aventuras para contar, mas dividiu com ele pedaços de sua vida — os dias no campo, as receitas que gostava de preparar, e sua ligação com a natureza.
— Quando estou nadando... é como se a água me chamasse. Não escuto mais nada, apenas o som da correnteza. Me sinto invisível. Me sinto livre. — ela disse de olhos fechados, como se estivesse flutuando ali mesmo.
Henrique não conseguia desviar o olhar. Ela era diferente. Os cílios ruivos, o cabelo ondulado como o fogo domesticado, os lábios corados, a pele marcada pelo sol. Elisa parecia feita de vida — e cada vez mais, ele se via afundando naquele sentimento.
Elisa voltava para casa antes do amanhecer, mas estava cada vez mais impaciente. Não esperava mais os pais dormirem completamente, e se tornara descuidada. Queria estar com Henrique. Precisava disso.
Uma noite, ela perguntou:
— Por que você nunca pode me encontrar durante o dia?
— Trabalho na terra. Só posso vir depois do pôr do sol — respondeu, sem hesitar.
Ela acreditou. Conhecia bem a rotina do campo. E decidiu não insistir.
Henrique começou a levar presentes. Não podia tocá-la, mas encontrava formas de mostrar que pensava nela.
— Essa pedra combina com seus olhos — disse ele, ao mostrar uma pequena esmeralda. Elisa se encantava com cada gesto. Ele era inteligente, charmoso e havia algo nele que simplesmente... brilhava.
Mas as noites roubavam sua energia. De manhã, m*l conseguia levantar. Dormia à tarde para estar forte o suficiente para encontrá-lo à noite. Então, começaram os primeiros sintomas: visões confusas, sonhos estranhos, dores de cabeça e uma fadiga constante. A mãe, Melinda, passou a preparar chás com ervas, mas havia algo em seu olhar — um medo contido.
— Mamãe... acha que estou doente? — perguntou Elisa, aflita.
Melinda hesitou. Depois sorriu com doçura forçada.
— Claro que não, minha flor. Deve ser só um resfriado.
Mas Elisa percebeu: havia mais por trás daquelas palavras.
Naquela noite, ela contou tudo a Henrique. Ele a ouviu em silêncio, com o cenho franzido.
— Acha que é por causa dos nossos encontros noturnos? — ele perguntou, aflito.
— Não. Claro que não. Talvez algo que comi, ou alguma e**a da minha mãe. Não se preocupe. — disse Elisa, tentando convencê-lo — e a si mesma.
Ela estava apaixonada. E ele, embora não dissesse, também estava.
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Certa tarde, Melinda e Charles retornaram mais cedo do campo. A chuva tinha encharcado a terra e danificado a plantação de tomates. Mas ao se aproximarem da vila, encontraram uma multidão em frente à sua casa.
Uma umaça densa e acinzentada escapava pelas janelas. Os vizinhos tentavam ajudar, mas recuavam assustados.
Charles e Melinda largaram tudo. Correram em desespero. Antes que pudessem entrar, Willian e Meredith os encontraram.
— Mamãe! Papai! — gritou Meredith, correndo para os braços dos pais.
— O que está acontecendo?! — perguntou Melinda, quase sem fôlego.
— Estávamos brincando com os Welles... e de repente a fumaça começou — disse Willian, em pânico.
— E... onde está sua irmã? — Charles perguntou, sentindo o coração parar.
O menino apenas apontou para a casa.
Melinda caiu de joelhos. Charles correu sem parar pra pensar muito.
Dentro da casa, a fumaça era sufocante. O quarto das crianças estava tomado por uma névoa espessa. Nenhuma chama. Nenhum fogo visível. Apenas fumaça — espessa, venenosa, viva.
— Elisa! — gritou, cobrindo o rosto.
Através da escuridão cinzenta, viu o vulto sobre a cama. Elisa estava desacordada. A fumaça saía debaixo dela, como se seu corpo queimasse por dentro.
Ele a pegou nos braços. Sua pele queimava como brasa, mas Charles não hesitou. A carregou para fora.
— Filha! — gritou Melinda ao vê-los sair.
Todos se aproximaram. Melinda tocou a filha e recuou, assustada com o calor do corpo da menina.
— Onde estava o fogo? — perguntou Joanita, uma vizinha.
— Um pedaço de madeira... Elisa deve ter sufocado com a fumaça — respondeu Charles, desviando os olhos.
— Tragam água! — gritou Melinda.
Alda trouxe uma bacia e um pano molhado, e limpavam Elisa com urgência.
— Ela está respirando... mas não acorda — disse Alda.
Melinda apertava a filha contra o peito, desesperada.
— Talvez... talvez o rio ajude — disse Willian com a voz trêmula.
Melinda e Charles se entre olharam. O Rio, onde Elisa tinha conseguido finalmente vir ao mundo depois de dias de agonia.
Charles nem esperou. Pegou a filha e correu. Melinda ia logo atrás. Atravessaram a floresta sem olhar para trás.
O céu já escurecia quando chegaram ao rio.
Charles colocou Elisa na água fria. E então, a transformação começou.
As águas pareciam reconhecê-la. A correnteza tocava sua pele com reverência. O calor diminuiu. O fogo cessou.
Elisa abriu os olhos. Fracos, mas vivos.
— Papai... — sussurrou.
— Graças aos Deuses... — Charles murmurou, ajoelhado na beira do rio.
Melinda se aproximou, chorando.
— O que... aconteceu comigo?
Os pais se entreolharam. Eles sabiam. O colar não conseguia mais conter o poder. E a verdade não poderia ser adiada por muito mais tempo.
Charles ia falar... mas Melinda colocou a mão sobre seu braço.
— Hoje não. Por favor... hoje não.
Ele assentiu.
— Você respirou muita fumaça. Está cansada. Vamos voltar para casa.
Enquanto a floresta mergulhava na escuridão, o corpo de Elisa era envolvido pela água — e sua alma, por um segredo que não podia mais ser contido por muito tempo.