Entre Brasas e Rio

1082 Palavras
"Antes que a chama se acenda, ela sonha com água. Antes que o fogo a consuma, a terra a reclama de volta." — Fragmento do Livro das Marcas. ____ No dia seguinte, Elisa estava eufórica. Mais uma vez havia passado o dia inteiro pensando em Henrique. A curiosidade sobre o homem misterioso só crescia, mas era mais do que isso — era um desejo ardente de estar com ele, de saber se ele também pensava nela da mesma forma. As noites se tornaram seu refúgio. Ela e Henrique se encontravam quase todos os dias, no mesmo lugar, escondido além da barreira mágica. Aquele local, antes silencioso e estranho, tornara-se agora o seu preferido. As conversas sobre os filhos da noite foram ficando raras. Em seu lugar, surgiram histórias de lugares distantes, sabores exóticos, plantas que curavam e frutas que só cresciam sob luas específicas. Henrique encantava Elisa não apenas com sua aparência ou seus olhos intensos, mas com tudo o que sabia. Numa dessas noites, foi a vez de Elisa falar. Ela não tinha aventuras para contar, mas dividiu com ele pedaços de sua vida — os dias no campo, as receitas que gostava de preparar, e sua ligação com a natureza. — Quando estou nadando... é como se a água me chamasse. Não escuto mais nada, apenas o som da correnteza. Me sinto invisível. Me sinto livre. — ela disse de olhos fechados, como se estivesse flutuando ali mesmo. Henrique não conseguia desviar o olhar. Ela era diferente. Os cílios ruivos, o cabelo ondulado como o fogo domesticado, os lábios corados, a pele marcada pelo sol. Elisa parecia feita de vida — e cada vez mais, ele se via afundando naquele sentimento. Elisa voltava para casa antes do amanhecer, mas estava cada vez mais impaciente. Não esperava mais os pais dormirem completamente, e se tornara descuidada. Queria estar com Henrique. Precisava disso. Uma noite, ela perguntou: — Por que você nunca pode me encontrar durante o dia? — Trabalho na terra. Só posso vir depois do pôr do sol — respondeu, sem hesitar. Ela acreditou. Conhecia bem a rotina do campo. E decidiu não insistir. Henrique começou a levar presentes. Não podia tocá-la, mas encontrava formas de mostrar que pensava nela. — Essa pedra combina com seus olhos — disse ele, ao mostrar uma pequena esmeralda. Elisa se encantava com cada gesto. Ele era inteligente, charmoso e havia algo nele que simplesmente... brilhava. Mas as noites roubavam sua energia. De manhã, m*l conseguia levantar. Dormia à tarde para estar forte o suficiente para encontrá-lo à noite. Então, começaram os primeiros sintomas: visões confusas, sonhos estranhos, dores de cabeça e uma fadiga constante. A mãe, Melinda, passou a preparar chás com ervas, mas havia algo em seu olhar — um medo contido. — Mamãe... acha que estou doente? — perguntou Elisa, aflita. Melinda hesitou. Depois sorriu com doçura forçada. — Claro que não, minha flor. Deve ser só um resfriado. Mas Elisa percebeu: havia mais por trás daquelas palavras. Naquela noite, ela contou tudo a Henrique. Ele a ouviu em silêncio, com o cenho franzido. — Acha que é por causa dos nossos encontros noturnos? — ele perguntou, aflito. — Não. Claro que não. Talvez algo que comi, ou alguma e**a da minha mãe. Não se preocupe. — disse Elisa, tentando convencê-lo — e a si mesma. Ela estava apaixonada. E ele, embora não dissesse, também estava. ⸻ Certa tarde, Melinda e Charles retornaram mais cedo do campo. A chuva tinha encharcado a terra e danificado a plantação de tomates. Mas ao se aproximarem da vila, encontraram uma multidão em frente à sua casa. Uma umaça densa e acinzentada escapava pelas janelas. Os vizinhos tentavam ajudar, mas recuavam assustados. Charles e Melinda largaram tudo. Correram em desespero. Antes que pudessem entrar, Willian e Meredith os encontraram. — Mamãe! Papai! — gritou Meredith, correndo para os braços dos pais. — O que está acontecendo?! — perguntou Melinda, quase sem fôlego. — Estávamos brincando com os Welles... e de repente a fumaça começou — disse Willian, em pânico. — E... onde está sua irmã? — Charles perguntou, sentindo o coração parar. O menino apenas apontou para a casa. Melinda caiu de joelhos. Charles correu sem parar pra pensar muito. Dentro da casa, a fumaça era sufocante. O quarto das crianças estava tomado por uma névoa espessa. Nenhuma chama. Nenhum fogo visível. Apenas fumaça — espessa, venenosa, viva. — Elisa! — gritou, cobrindo o rosto. Através da escuridão cinzenta, viu o vulto sobre a cama. Elisa estava desacordada. A fumaça saía debaixo dela, como se seu corpo queimasse por dentro. Ele a pegou nos braços. Sua pele queimava como brasa, mas Charles não hesitou. A carregou para fora. — Filha! — gritou Melinda ao vê-los sair. Todos se aproximaram. Melinda tocou a filha e recuou, assustada com o calor do corpo da menina. — Onde estava o fogo? — perguntou Joanita, uma vizinha. — Um pedaço de madeira... Elisa deve ter sufocado com a fumaça — respondeu Charles, desviando os olhos. — Tragam água! — gritou Melinda. Alda trouxe uma bacia e um pano molhado, e limpavam Elisa com urgência. — Ela está respirando... mas não acorda — disse Alda. Melinda apertava a filha contra o peito, desesperada. — Talvez... talvez o rio ajude — disse Willian com a voz trêmula. Melinda e Charles se entre olharam. O Rio, onde Elisa tinha conseguido finalmente vir ao mundo depois de dias de agonia. Charles nem esperou. Pegou a filha e correu. Melinda ia logo atrás. Atravessaram a floresta sem olhar para trás. O céu já escurecia quando chegaram ao rio. Charles colocou Elisa na água fria. E então, a transformação começou. As águas pareciam reconhecê-la. A correnteza tocava sua pele com reverência. O calor diminuiu. O fogo cessou. Elisa abriu os olhos. Fracos, mas vivos. — Papai... — sussurrou. — Graças aos Deuses... — Charles murmurou, ajoelhado na beira do rio. Melinda se aproximou, chorando. — O que... aconteceu comigo? Os pais se entreolharam. Eles sabiam. O colar não conseguia mais conter o poder. E a verdade não poderia ser adiada por muito mais tempo. Charles ia falar... mas Melinda colocou a mão sobre seu braço. — Hoje não. Por favor... hoje não. Ele assentiu. — Você respirou muita fumaça. Está cansada. Vamos voltar para casa. Enquanto a floresta mergulhava na escuridão, o corpo de Elisa era envolvido pela água — e sua alma, por um segredo que não podia mais ser contido por muito tempo.
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