As coisas saíram de controle muito rápido, e parte de si estava feliz por não ser responsável por aquilo, quer dizer, não inteiramente.
Tudo começou quando Kalu assistia — miseravelmente — Tahira ficar com Miguel. Considerou várias vezes a hipótese de mandar tudo para o inferno e ir embora, mas algo sádico dentro dele não conseguia parar de encarar a cena. Até que a sua atenção foi roubada por Nathaniel que, num rompante pouco característico da sua personalidade, saiu marchando para o segundo andar com um olhar que prometia sangue.
Kaluanã só precisou de um instante para descobrir o motivo: na pista de dança Tamara discutia de maneira acalorada com o babaca do Felipe, que tentava tocá-la de todas as formas que não deveria.
Ainda assim Kalu podia deixar que as coisas seguissem o seu curso, afinal, Tamara era capaz de se defender sozinha — tinha um soco tão potente quanto Tahira e não se importava em jogar sujo — no máximo, ela daria uma surra no i****a escorregadio e Nathan, por tentar se meter nos seus problemas. Porém, Anderson — melhor amigo grande e superprotetor de Felipe — poderia representar um problema.
Ou solução.
Ele era um cara legal, todo musculoso, mas pacifista até a segunda ordem. Melhor, tinha uma espécie de amizade estranha com Samuel, o que obrigaria o outro a meter-se na briga — mesmo que só para separar — se as coisas chegassem “aos finalmente”.
O que levaria ao seu irmão mais velho — que convenientemente era dono da boate.
Um plano nada honroso começou a se formar na sua cabeça enquanto seguia Nathaniel através do segundo andar. Só precisava do movimento certo para trazer Tahira para o confronto, ela com certeza tomaria partido dos amigos — mesmo que estivessem errados — e o conflito de interesse com Miguel seria o bastante para arrefecer aquela merda que estavam tendo.
Pelo menos era o que esperava, de qualquer forma, sempre podia usar Iara como o plano B.
Kaluanã tinha um ótimo senso de autopreservação, não estava disposto a levar a pior ficando com o cara maior, então, depois do primeiro soco que Nathaniel deu em Felipe, Kalu aproveitou-se da situação para se meter entre os dois e — como havia orquestrado — Felipe voltou-se para ele, o empurrando com força. No tempo que esbarrava — nem tão sem querer assim — em Miguel, Anderson já estava indo em direção a Nathan como um touro furioso.
O primeiro soco Kalu aceitou com resignação já que precisava parecer indefeso, o segundo foi mais difícil, entretanto — abençoado fosse Deus — o terceiro nunca chegou, pois Tahira veio na sua defesa como a força da natureza que era.
Tudo funcionou perfeitamente, ela deu um chute em Felipe, Miguel — como um maldito cavaleiro de armadura reluzente, o grande i****a — se colocou no meio dos dois para protegê-la e acabar com a briga. Kalu quase sorriu quando a loira começou a discutir com ele, mas sua felicidade durou pouco.
Do nada alguém segurou o seu cabelo com força, puxando a sua cabeça para trás. Um exame rápido do oponente revelou que se tratava de Kamila. Ele não podia simplesmente revidar, pois além dela ser uma mulher ainda era a prima do seu amigo, e onde não via o menor problema em usar Samuel, tinha mais escrúpulos quando se tratava de Nicholas.
Diferente de Tahira, Kamila lutava como uma garota. A ruiva soltou o seu cabelo para arranhar a sua cara com as suas unhas de harpia — que p***a de pessoa afiava as unhas como garras? Perguntou-se. Instintivamente, ele cometeu o seu maior erro da noite: colocou os braços na frente do rosto para impedi-la de alcançar os seus olhos. A ação deixou outras partes do seu corpo desprotegidas, como, por exemplo, suas bolas!
Kalu sentiu a dor subindo pelo ponto de impacto, seguindo por seu ventre e irradiando por suas entranhas, contraindo todos os músculos no caminho. Caiu de joelhos sem conseguir manter a respiração.
No auge do seu delírio, perguntou-se como o ser humano pôde passar por milhares de anos de evolução sem nunca cogitar a possibilidade de blindar uma parte tão vulnerável e sensível da anatomia. Uma joelhada foi tudo que precisou para deixá-lo completamente fora de combate, e tinha certeza que não era o primeiro homem a passar por aquilo.
Deve ter apagado por alguns instantes, porque quando voltou a abrir os olhos o cenário era completamente diferente. A "briga" havia tomado uma proporção significativa, seis caras grandes e m*l-encarados, todos de cabelos laranja — que pareciam muito mais integrantes de uma seita estranha que seguranças — estavam aqui e ali em vários estágios de conflito. Todo o seu grupo tinha se metido na confusão — até mesmo Helena, conhecida por ser suave, discutia com um deles.
O resultado é que foram expulsos da boate sem cerimônia alguma.
— Espero que os idiotas estejam satisfeitos. — disse uma Iara furiosa do lado de fora da Gokudō.
De certa forma, Kalu estava, mas era inteligente o bastante para não deixar aquilo transparecer.
Nicholas sentou no meio fio apoiando a cabeça na barriga de Helena — rodeando a sua cintura com os braços — que por sua vez, permanecia de pé ao seu lado encarando a explosão da amiga com cautela. Samuel — que também foi colocado para fora junto com eles — fumava próximo ao casal encostado em um poste. Tamara e Nathaniel se afastaram para discutir — o que não funcionou, pois podiam ouvir perfeitamente os gritos furiosos dela, o que destoava muito da aparente calma de Nathan. Iara andava de um lado para o outro enquanto xingava e mexia no celular. Samara bebia uma garrafa de água que ninguém fazia ideia de como havia conseguido. Tahira até então aguardava o desenrolar da situação recostada na porta de um carro estacionado, de braços cruzados.
Kalu tragou o seu cigarro.
— Estou indo para casa! — a sua colega de quarto declarou depois de alguns minutos.
— Você bebeu demais. — Samara lembrou. — Não pode voltar dirigindo.
— Podemos rachar um Uber. — Uma Tamara irritada voltou para o grupo após deixar Nathaniel com uma expressão de poucos amigos. — A gente pode fazer a rota da principal e te deixar em casa.
— Não, não e não. — Iara interrompeu as negociações. — Qual é, deveria ser nossa comemoração de fim de provas. — Choramingou. — Samara, você esfregou a maior nota da sala na cara do i*****l do professor Honório, isso merece comemoração!
Samara balançou a cabeça em concordância, entretanto, ainda havia dúvida nos seus olhos.
— Tamara, não deixe o babacão ali estragar tudo. — suplicou para a amiga.
— Desculpa por me importar, da próxima vez não vou me envolver. — Prometeu Nathaniel, ofendido.
— Nossa, obrigada por não se meter na minha vida! — Tamara agradeceu com sarcasmo.
— Vocês separados são um porre! — o comentário inconveniente partiu de Nicholas, obviamente.
Tamara o fuzilou com o olhar e Nathan amarrou a cara, porém, nenhum dos dois falou nada.
— Podemos ir para a Luxúria, fica a poucos quarteirões daqui e mulheres não pagam a entrada.
— Ei, e a gente? — novamente, Nicholas virou a cabeça para fitar a loira.
— Vocês que lutem! — Iara sorriu.
— Por mim tudo bem. — Concordou Samara.
— O que acha? — Nicholas perguntou a namorada.
— Ainda está cedo. — Helena deu de ombros. — Pode ser legal.
— Preciso de uma bebida. — Foi a resposta de Samuel.
— Tamara? — Iara usou a sua melhor expressão de chantagem emocional.
— Não usa essa cara de cão que caiu da mudança, sabe que odeio essa merda. — Mas a ela acabou retribuindo o sorriso.
— Nathaniel? — quando ele negou com um balançar de cabeça Iara o envolveu em um abraço exagerado. — Todo mundo aqui já quis dá uma surra no Felipe e a raiva da Tamara já até passou. — Desviou o olhar para a morena num pedido silencioso de ajuda. — Deixa para agir como um senhor de meia-idade amanhã, hoje vamos beber!
— Acabei deixando de lado algumas coisas do trabalho, preciso terminar neste fim de semana. — Foi sua desculpa.
— Amanhã você vai ter tempo de sobra pra terminar isso. — Chocando o total de zero pessoas, certo, talvez só Nicholas, as palavras vieram de Tamara, não Iara.
Foi o bastante para convencê-lo.
— Nem vem com esse olhar para cima de mim. — Tahira disse assim que a amiga se bandeou para o lado dela. — A minha noite já acabou.
— Ah, não!
— Já tive ação o suficiente, agora só preciso da minha cama. — Decidida, ela pegou a chave do carro dentro da bolsa.
— Não pode dirigir.
— Toda a adrenalina evaporou com o álcool do meu sangue, vou ficar bem.
— Não é assim que as coisas funcionam! — como médica oficial do grupo, mesmo que ainda não formada, Samara sentiu-se no dever de interferir.
— Te levo para casa. — As palavras deixaram a sua boca tão rápido, que Kalu só se deu conta de que tinham partido dele quando todo mundo o encarou.
— Não.
— Eu não bebi.
— Não.
— É o Kalu ou a gente. — Iara cantarolou.
Parte dele sabia que algo estava sendo maquinado naquela cabeça maliciosa — principalmente por ter desistido tão fácil de arrastar Tahira para a próxima boate — mas se Iara decidiu agir a seu favor naquele momento aceitaria a vantagem de bom grado.
— Ok! — concordou a contragosto entregando a chave do carro na mão dele.