Aprecio a bela visão da chuva leve lá fora molhando a grande janela do meu quarto, as nuvens escuras, o clima frio, os carros e as pessoas nas ruas lá embaixo andando apressadamente em mais um dia cheio e agitado em New York me fazem agradecer mentalmente por comprar este apartamento, apesar de ainda não me acostumar muito bem com á altura, não que eu tenha medo, mas as vezes é um pouco estranho acordar e ter a sensação de estar prestes a entrar no céu.
- Amor, pega o seu blazer preto no closet, por favor. - a voz doce da minha namorada me trás de volta a realidade, me fazendo deixar meus pensamentos de lado por um instante.
Em silêncio vou até o closet e sorrio para as várias opções de roupas escuras na minha parte do closet, vou até a parte de peças sociais e então suspiro vendo as várias opções de blazers pretos, vermelho escuro, cinza escuro, azul escuro e as pouquíssimas opções de cores claras. Olho cada peça em busca da que ela quer, minha namorada ama um modelo específico que eu ganhei no natal passado de alguma empresa de moda, mas nunca usei por ele ser cheio de detalhes que não me agradam e que na minha cabeça não combinaria nada comigo, mas nela é diferente.
Não tem nada que não fique perfeito nessa mulher.
Eu simplesmente tenho muita sorte de ter esbarrado nela em uma manhã qualquer em que decidi parar para tomar um café no Starbucks perto do Central Park.
Pego o blazer e o coloco encima da cama, me sento na poltrona perto da enorme janela voltando a apreciar a vista pela vidraçaria. Observo o céu escuro e por alguma razão minha mente parece viajar para as manhãs chuvosas na fazenda dos meus avós em Austin, durante o inverno, quando eu acordava bem cedo para ajudar o meu avô a cuidar dos animais, eu adorava todas as lições que ele me dava enquanto cavalgavamos, ele era um grande homem.
Ainda me culpo por não estar lá quando ele morreu.
Ele sempre me pedia para ir visitá-lo, mas com a correria que é viver em New York dificilmente me sobrava algum tempo.
Ainda mais depois de abrir minha própria empresa de arquitetura e construção cívil.
Sinto os braços da minha namorada rodearem meu pescoço e em seguida seus lábios macios pressionam minha bochecha, enquanto ela repousa seu queixo em meu ombro e eu seguro suas mãos.
- No que tanto pensa meu anjo? - pergunta e eu sorrio.
- No quanto eu tenho sorte de namorar a mulher mais linda desse planeta. - respondo olhando para ela da maneira que consigo e ela sorrir antes de beijar a ponta do meu nariz.
- Eu poderia rebater dizendo que foi o contrário e que eu sou a sortuda, mas você acabaria com essa discussão saudável em segundos, porquê você é uma mulher de argumentos infinitos. - brinca se afastando para em seguida se sentar em meu colo.
- Eu não tenho culpa de você sempre querer insistir em ir contra os fatos. - digo mordendo seu queixo levemente e ela revira os olhos.
- Eu amo quando você faz isso. - diz me olhando nos olhos e eu suspiro admirada com a sua beleza.
- E eu amo você. - digo tocando seu rosto delicado com traços marcantes e o nariz levemente arrebitado. - Cada pequeno traço, seus lábios rosados, carnudos e macios, seus olhos azuis que me deixam maluca, a sobrancelha bem desenhada, seu sorriso torto e as vezes travesso, a maneira como me desmonta por inteira só com um simples olhar. - faço uma pausa e junto nossos lábios. - Eu amo tudo em você e tudo sobre você. - completo mordendo seu lábio inferior e ela suspira.
- Será que a gente não pode faltar nessa reunião ? - pergunta manhosa me fazendo rir.
- Achei que sair na capa da Vogue era um dos seus maiores sonhos. - respondo divertida enrolando uma mecha de seu cabelo na ponta do meu dedo.
- Meu maior sonho é casar com você, construir uma família, ouvir suas piadas nada convencionais baseadas no seu humor peculiar até meu último dia de vida, entre tantas outras coisas que você já sabe. - diz e em seguida junta nossos lábios em um selinho rápido antes de sair do meu colo.
Ela pega o blazer e o veste enquanto eu a observo em silêncio totalmente rendida ao seu charme e pensando no que ela disse.
Com toda certeza eu quero o mesmo.
Não há nada que eu mais queira do que chamá-la de minha esposa.
Me levanto ajeitando minha roupa para não sair toda amarrotada ao lado dessa mulher incrível, seria um pecado andar assim ao lado dela, quase uma afronta aos deuses que a colocaram no meu caminho, na minha vida.
- Espero que Kate não enrole muito para ir direto ao ponto, porque eu quero muito aproveitar o dia ao seu lado. - diz pegando sua bolsa enquanto eu só consigo pensar no quanto sua b***a fica maravilhosa nessa calça jeans. - Amor? - chama e eu pisco várias vezes antes de olhar em seus olhos azuis e ela sorrir sapeca ao notar o motivo da minha desatenção.
- Me desculpa, mesmo depois de quase dois anos e meio de namoro eu ainda não sei lidar com a sua beleza. - digo e ela revira os olhos estendendo sua mão para mim.
- Vem, vou te guiar pra você não tropeçar nos próprios pés enquanto olha descaradamente para a minha b***a em público. - brinca me fazendo rir.
- Foi tropeçando que te conheci. - digo e ela ri assentindo, enquanto seguimos para fora do nosso apartamento.
- Quarto melhor dia da minha vida. - diz com um tom de voz nostálgico.
- Quarto? - pergunto e ela me olha rapidamente por cima do ombro enquanto fecha a porta do apartamento.
- Sim, o terceiro foi quando nos beijamos pela primeira vez, o segundo quando me pediu em namoro e o primeiro quando disse que me amava. - responde e eu sorrio segurando sua mão entrelaçando nossos dedos. - Aah, tem o quinto também que foi quando a gente passou a morar juntas. - completa enquanto andamos em direção ao elevador.
- Algo me diz que essa lista é muito maior do que parece. - digo ouvindo meu celular tocar dentro de sua bolsa.
É sempre assim quando estamos juntas, ela pega meu celular e não me deixa só pensar em trabalho.
Apenas chamadas de emergência do meu escritório são permitidas por ela, pois segundo a mesma, se deixar eu vivo apenas para trabalhar.
Ela abre a bolsa, pega o aparelho e faz uma careta ao olhar para a tela do mesmo e em seguida me entrega. Coloco minha digital para desbloquear a barra de notificações e então uma conversa no w******p é aberta, e por alguma razão o áudio inventa de se reproduzir automáticamente.
" Sariel nem pense em faltar a esse almoço em família, a sua vó e... "
Pauso o áudio rapidamente quase deixando o aparelho cair quando ele começa a tocar novamente com o nome de minha mãe brilhando na tela e sinto os olhos de Jade em mim.
- Eu vou atender e já volto. - digo e ela apenas assente seguindo para o elevador.
Suspiro me sentindo i****a por saber que provavelmente essa ligação inesperada trouxe de volta o fato de eu ainda não ter a apresentado para a minha família em quase dois anos e meio de namoro. Olho para a mulher seguindo sozinha pelo corredor em silêncio e então respiro fundo antes de atender a ligação.
*
- Achei que não ia atender a sua mãe, já estava pensando em comprar uma passagem para New York pra te dar umas boas palmadas. - diz minha mãe irritada do outro lado da linha.
- Eu não sei se poderei ir. - digo direta e sua risada sarcástica do outro lado da linha me faz suspirar.
- Eu não vou aceitar mais desculpas, Sariel. - diz com um tom sério. - Sua vó está velha, vai deixar que ela morra sem te ver da mesma maneira que seu avô morreu? - questiona de maneira rude e isso me atinge em cheio fazendo meu peito doer. - Já te demos tempo demais, sei que não quer vim por causa do seu pai, mas isso não pode mais continuar assim, sentimos sua falta. - completa com um tom choroso e eu reviro os olhos para sua facilidade pra mudar de humor em segundos.
- Você não vai desistir dessa vez né? - questiono respirando fundo em seguida já sabendo a sua resposta.
- Não mesmo. - responde e eu olho para a minha namorada que me esperava em frente ao elevador entretida em olhar para a caixa metálica agora aberta.
- Avisa a vovó que ela finalmente vai conhecer a minha namorada. - digo e em seguida encerro a ligação.
*
Respiro fundo antes de seguir até a mulher me esperando ainda observando a caixa metálica em silêncio. Assim que a alcanço, seguro sua mão voltando a entrelaçar nossos dedos tendo noção do quanto o fato de não conhecer a minha família a deixa insegura, afinal este é um passo importante para ela, para a nossa relação.
Mais, m*l sabe ela que eu só queria a poupar de conhecer algumas pessoas desnecessárias.
E que eu estava me poupando também de correr o risco de reviver certas situações que me deixaram m*l.
Mais não é justo com ela, e também não é justo com a parte bacana da minha família.
Enquanto o elevador desce, eu envio uma mensagem para o motorista para confirmar se ele já está a nossa espera. Espero sua resposta confirmando se já está lá fora nos aguardando e então olho para a mulher ao meu lado pensando em qual poderia ser a melhor maneira de abordar o assunto da minha família e pedir para que ela vá comigo até Austin para conhecê-los. A porta do elevador se abre e então seguimos em silêncio para fora passando pelo hall, cumprimentando alguns funcionários ali presente, assim que passamos pela entrada o porteiro nos oferece um guarda chuva que eu educadamente n**o ao ver Joseph se aproximar com dois guarda chuvas abertos, ele estende um para mim e eu o pego rápidamente.
- Bom dia senhoritas. - diz educado com um sorriso simpático.
- Bom dia, Josey. - diz Jade retribuindo o sorriso enquanto caminhamos para o veículo estacionado.
- Bom dia, como foi seu final de semana? - pergunto e ele abre a porta do carro e em seguida segura o guarda chuva para que possamos entrar sem nos molhar.
- Foi bom senhorita, espero que o seu tenha sido ótimo. - responde educado antes de fechar a porta.
Olho para a minha namorada que estava concentrada em olhar pela janela, a deixo quieta até que cheguemos ao nosso destino, a noite conversariamos sobre essa ligação e tudo o que ela representa. Não demorou muito para chegarmos ao nosso destino, observo a fachada retrô do prédio da Ralph's Coffee e não me surpreendo ao ver algumas pessoas sentadas em algumas mesas lá fora que tinham um sombreiro enorme em cada uma que evitava que a chuva molhasse as pessoas ali, a frente está sempre organizada, elegante e limpa quanto o local por dentro, saio do veículo olhando em volta, enquanto Jade que saiu primeiro segura o guarda chuva.
- O café é por minha conta. - digo para Joseph e ele assente.
- Obrigada. - agradece sorrindo e Jade manda um beijo no ar para ele que sorrir em resposta.
Seguimos para dentro enquanto eu observo Joseph se sentar em uma das mesas vazias, se eu não estivesse aqui para uma reunião com a empresária de Jade com toda certeza ficaríamos ali com ele.
Joseph é um senhor de sessenta e cinco anos muito adorável.
Muito mesmo.
Ele trabalha comigo desde que montei minha empresa de arquitetura e construção civil, eu havia acabado de me formar e estava a procura de um bom prédio para dar início ao meu sonho, ele era um taxista que tive sorte de conhecer, e em meio á uma conversa casual eu falei sobre o meu objetivo e ele se ofereceu para me mostrar a cidade e todos os prédios que conhecia. Ele foi muito agradável durante todo o trajeto naquele dia e não mediu esforços para me ajudar, então eu o ofereci um emprego como meu motorista particular e ele aceitou, desde então ele se tornou um amigo.
Um bom amigo, além de um ótimo funcionário.
O jeito tranquilo de ser dele me lembra um pouco o jeito calmo e paciente do meu avô.
Acho que é por isso que nos demos tão bem logo de cara.
Entro no local com Jade que segura minha mão após fechar o guarda chuva, enquanto eu observo o local que mais parece um daqueles casarão meio mansão chiques e antigos, todo o local aqui é repleto de móveis retrô, vidraçarias com diversos doces sendo exibidos, louças caras, pinturas que deixam o lugar ainda mais elegante e a decoração cuidadosa para fazer com que todos se sintam confortáveis e dentro de uma máquina do tempo, pelo menos é assim que me sinto em um lugar que me lembra uma confeitaria do tempo em que as pessoas andavam de terno vinte e três horas por dia e as mulheres eram obrigadas a usar espartilhos que sufocam, fora os vestidos quentes, nada confortáveis. Vejo uma das funcionárias se aproximar e após um breve diálogo explicando que temos uma mesa reservada no segundo andar, ela nos guiou até lá de maneira educada enquanto anotava nossos pedidos. Assim que passamos pela entrada eu vejo Kate a agente de Jade acompanhada de um homem vestido de maneira casual, porém elegante, os dois conversavam de maneira tão animada sobre algo que nem perceberam nossa presença.
- Bom dia. - diz Jade e os dois se viram para nos olhar.
- Bom dia querida. - diz Kate se levantando para abraçar Jade e em seguida me olha. - Bom dia. - diz sorrindo apertando minha mão.
- Bom dia. - digo sorrindo de maneira contida vendo Jade se sentar.
- Deixa eu apresentar vocês. - diz Kate enquanto eu me sento ao lado de Jade. - Jade e Ariel, este é o Maurice, representante da Vogue. - apresenta e nos o cumprimentamos com apertos de mãos. - Maurice esta é a Jade Ferraraccio, a modelo mais badalada da nossa agência e essa ao seu lado é a sua namorada, Ariel Muzania uma das melhores arquitetas de New York. - completa e eu sorrio de maneira contida olhando para o homem.
- É um prazer conhecê-las, confesso que estou animado por conhecer uma jovem tão talentosa nas passarelas e por finalmente ter a oportunidade de te dizer o quanto eu adorei a repaginada que você deu no nosso prédio. - diz alternando seu olhar de Jade para mim.
- Ela é talentosa mesmo. - digo olhando para Jade que sorrir. - Sobre a reforma do prédio foi um prazer, mas não imaginei que me reconheceria, eu geralmente evito os holofotes. - completo e ele sorrir.
- Um casal harmonioso, enquanto você os evita, ela os atraí, afinal equilíbrio é tudo né. - brinca nos fazendo rir.
- Você não imagina o quanto ela tenta fugir deles. - diz Jade me olhando e eu sorrio.
- Já pediram algo? - pergunta Kate e nós asentimos. - Então podemos dar início a reunião. - diz animada juntando as palmas das mãos.
- Fiquem á vontade, esqueçam que estou aqui. - digo e Jade toca minha mão por debaixo da mesa.
Entrelaço nossos dedos e fico em silêncio para que eles possam conversar á vontade sobre a loira ao meu lado sair na capa da revista, agradecendo mentalmente quando a garçonete trás nossos pedidos. Tomo café em silêncio, enquanto eles conversam sobre todos os detalhes a serem resolvidos, não sei por quanto tempo eles estão falando, mas noto que a chuva lá fora já cessou, mas isso não foi o suficiente para fazer o sol dar o ar da sua graça.
________________ Continua _______________