Marjorie Collins
Assim que deixo o ateliê, sinto os olhares me seguindo como se ainda estivesse no centro daquele palco, onde a minha ruína acabou de ser encenada sem aviso prévio, sem roteiro e, principalmente, sem qualquer dignidade.
Mesmo de costas, eu sei.
Sei que estão me observando.
Sei que estão cochichando.
Sei que, naquele exato momento, eu deixei de ser uma noiva para me tornar uma história, daquelas que as pessoas contam com um meio sorriso no canto dos lábios.
Por um segundo, um único segundo, eu penso em correr.
Em desaparecer.
Em não ter que enfrentar mais nada hoje.
Mas eu não faço.
Porque pessoas como eu não têm o luxo de desabar.
Nós temos plateia demais para isso.
Então eu continuo andando como se nada disso fosse capaz de me atingir, porque, se eu parar agora, se eu hesitar por um segundo sequer, eu perco muito mais do que a dignidade.
E se tem algo que eu aprendi ao longo da minha vida inteira, é que a humilhação só se torna completa quando você se curva diante dela.
E eu nunca me curvo.
Nem quando estou quebrando por dentro.
Quando meus saltos finalmente encontram o concreto movimentado de uma das ruas mais movimentadas de Nova York, o ar frio bate contra o meu rosto como um choque de realidade.
Drake ainda está ali.
Encostado no carro esportivo que ele tanto gosta, como se aquele pedaço de metal fosse uma extensão da própria identidade dele.
Mas o olhar, o olhar não tem nada de vaidade.
Tem peso.
Eu caminho até ele, sem pressa.
Como se cada passo fosse pensado para impedir que qualquer rachadura interna se tornasse visível.
— Quer comer alguma coisa? — ele pergunta, com uma cautela que me irrita.
Eu n**o com a cabeça.
— Não. Eu vou pra casa. — digo, com a voz firme.
Ele solta um suspiro pesado, passando a mão pelos cabelos.
— Marjorie, se quiser conversar...
— Drake. — eu corto, antes que ele termine. — Eu estou bem. Seu irmão não está me quebrando como você pensa.
A mentira sai firme.
Mas por dentro, está doendo. Só que admitir a dor, seria dar forma a ela, e eu não posso me dar esse luxo agora.
Ele me encara como quem não acredita, mas ainda assim respeita.
— Quer que eu te leve?
— Não. Meu carro está ali.
Aponto com um leve movimento de cabeça.
Ele assente.
Mas não vai embora.
Algo no jeito como ele permanece parado me faz perceber que aquilo ainda não acabou.
— Eu sei que não é um bom momento... — ele começa, hesitante, como se cada palavra precisasse ser escolhida para não piorar o que já está destruído. — Mas eu preciso te falar uma coisa.
Meu estômago se contrai no mesmo instante.
Como se alguma parte de mim, aquela que já foi machucada vezes o suficiente, estivesse se preparando para o próximo golpe antes mesmo dele acontecer.
Eu respiro fundo, mas o ar não preenche completamente os meus pulmões.
— Pode falar — digo, seca, mantendo o olhar fixo nele. — Nada vai ser pior do que isso.
— O conselho se reuniu hoje de manhã... — ele começa, evitando meu olhar por um segundo, e isso, só isso, já é suficiente para fazer meu estômago se contrair. — E eles chegaram a uma decisão.
O silêncio entre nós dura tempo demais.
Tempo suficiente para que alguma coisa dentro de mim... se prepare.
— Que decisão? — minha voz sai aflita.
Ele respira fundo.
— Você não faz mais parte da diretoria.
O impacto vem como um soco.
— Como assim? — minha voz sai mais alta do que eu gostaria, traindo o controle que eu vinha sustentando com esforço.
Drake passa a mão pelo rosto, claramente desconfortável.
— Eu não tenho certeza se o Douglas tem algo a ver com isso...
Eu solto uma risada sem humor.
— Claro que tem. — minha voz endurece, cada palavra saindo mais afiada do que a anterior. — Agora que eu não vou mais ser a futura esposa dele, ele resolveu me tirar do caminho nos negócios também.
Dou um pequeno passo à frente.
— Mas ele esquece de uma coisa — continuo, mais fria agora. — Eu tenho participação naquela empresa.
O silêncio de Drake não me tranquiliza.
Pelo contrário.
Só confirma que aquilo é maior do que eu estou enxergando.
Ele suspira.
— Eu conversei com meu pai. Foi uma conversa difícil, mas eu consegui manter você na empresa.
Por um segundo, algo dentro de mim se agarra nisso.
— Só que... — ele continua.
E é nesse “só que” que tudo desmorona de vez.
— No RH. Como chefe do setor.
E ali está bem diante de mim... A queda.
Não anunciada, apenas executada.
Diretora.
Eu era diretora.
E, em questão de minutos, me transformaram em alguém que precisa aceitar o que sobrou.
Eu fico em silêncio por um segundo.
Dois.
Sentindo o gosto metálico subir pela garganta enquanto cada peça da minha vida parece ser reposicionada sem o meu consentimento.
— Ah... que lindo — murmuro por fim, deixando um sorriso frio surgir nos meus lábios. — Que promoção maravilhosa.
Drake abaixa o olhar.
— Eu sei que não é justo.
— Não. — respondo, firme. — A vida nunca foi justa. — faço uma pausa. — E eu já sou especialista nisso.
Ajusto a bolsa no braço, como se estivesse apenas reorganizando a rotina e não tentando manter o controle sobre algo que claramente já não está mais nas minhas mãos.
Levanto o olhar novamente.
Firme.
— Mas quer saber? — continuo, com uma calma perigosa. — Que se f**a. Eu vou pra casa, tomar um vinho... e depois falar com o meu pai.
Inclino levemente a cabeça.
— A minha família também tem direitos. Eles não podem simplesmente decidir me apagar assim.
Drake não responde imediatamente.
E esse silêncio me irritam mais do que qualquer palavra.
— Marjorie... — ele hesita. — Essa decisão de tirar você da diretoria não foi apenas do Douglas.
Meu corpo fica imóvel.
— Então partiu de mais quem?
Ele abaixa o olhar por um momento e responde:
— Foi o seu pai... na verdade, ele não só concordou, ele sugeriu.
Por um segundo, eu escuto só aquela frase, ecoando dentro de mim.
Meu pai... meu sangue... o homem que deveria me proteger, estava ajudando a tirar tudo de mim.
Sinto o ar escapar dos meus pulmões de uma vez, como se algo tivesse sido arrancado de dentro do meu peito sem aviso.
— Meu pai? — repito, mas minha voz já não carrega a mesma firmeza de antes.
Drake apenas acena.
E é aí que a realidade se encaixa.
Não foi apenas o Douglas, mas meu próprio sangue também.
Por um instante, algo dentro de mim ameaça ceder, mas me recuso a deixar isso acontecer agora.
Então eu ergo o queixo.
Reconstruindo a postura como quem recolhe os próprios pedaços espalhados pelo chão.
— Depois eu falo com você — digo, firme outra vez, mesmo que por dentro tudo esteja se reorganizando à força. — Eu preciso ir agora.
Ele me observa com atenção.
Como se estivesse tentando avaliar o quanto eu realmente estou segurando.
— Se precisar de qualquer coisa...
— Eu sei — interrompo, mais suave dessa vez. — Obrigada.
Ele ainda hesita por um segundo.
Depois entra no carro.
E vai embora.
E, por um instante, eu fico ali.
Imóvel.
Tentando entender como, em questão de minutos, eu deixei de perder apenas um casamento e comecei a perder todo o resto.
É quando as primeiras gotas de chuva começam a cair sobre mim.
Me puxando de volta para realidade.
Eu fecho os olhos por um segundo.
Respiro fundo.
E então me movo.
Em direção ao carro.
Porque agora, isso não é mais sobre ele.
É sobre descobrir até onde a minha própria família está disposta a me derrubar.
E o que eu vou fazer quando descobrir.
Continua...