Capítulo 7. Cuida de mim

492 Palavras
Mattheo não se lembrava da última vez em que havia se deitado sem um turbilhão de pensamentos queimando sua mente. Mas naquela madrugada, o corpo finalmente cedeu ao peso da exaustão, e ele adormeceu na poltrona, ainda diante das brasas da lareira. O sonho veio rápido, mais intenso do que nunca. Ele se viu em uma sala escura, paredes de pedra úmida, o chão manchado de algo que lembrava sangue. O ar era pesado, sufocante, mas ela estava ali. A moça. Sempre ela Dessa vez, não tinha o olhar distante nem o choro silencioso de antes. Estava sorridente. Um sorriso suave, quase tímido, mas que irradiava calor de uma forma que Mattheo jamais havia sentido. Era estranho, reconfortante… perigoso. Ele tentou falar, mas percebeu um gosto metálico na boca. Somente então notou os próprios ferimentos — cortes no rosto, um filete de sangue descendo pela têmpora, um hematoma na mandíbula. Feridas que não sabia de onde vinham, mas que doíam como se fossem reais. Ela se aproximou sem hesitar. Pequena, delicada, mas com uma determinação que o desarmou por completo. Seus olhos escuros refletiam preocupação, e não medo. Nunca medo. — Mattheo… — disse suavemente, com aquela mesma voz que o chamara dias atrás. Ele ficou imóvel, encarando-a com intensidade, tentando entender. Por que sorria? Por que estava ali ? A mão dela tocou seu rosto com delicadeza. Quente. Real. O polegar deslizou pela linha do corte em sua têmpora, e o simples gesto queimou como uma carícia que ele não sabia como lidar. — Você vai ficar bem… Eu vou cuidar de você, como sempre cuidei— murmurou baixo, quase sussurrando Ela aproximou o rosto, cuidando dos ferimentos dele como se fosse natural, como se tivesse feito isso muitas vezes antes. Mattheo, incapaz de reagir, apenas a observava. A rigidez que sempre carregava nos ombros parecia ceder sob aquele toque, contra sua própria v*****e. A cada movimento dela, os cortes pareciam menos dolorosos, como se a dor fosse sugada pelo cuidado dela. Mas, mesmo sorrindo, seus olhos continuavam sérios, cheios de algo que ele não conseguia decifrar. Preocupação… mas também um aviso, ou, talvez um pedido.. E então, tão rápido quanto veio, ela começou a se desfazer diante dele. A mão que tocava seu rosto desapareceu, o calor sumindo. — Espere! — Mattheo avançou um passo, a voz grave reverberando pelas paredes de pedra. — Não vá! Mas o sorriso dela foi a última coisa que restou antes de tudo se dissolver em névoa. Mattheo acordou de súbito, ofegante, o coração disparado. Sua mão subiu instintivamente ao rosto… e, por um instante, jurou sentir o calor do toque dela ainda gravado na pele. Ele fechou os olhos, os punhos cerrados. Aquilo não era apenas um sonho. Era um encontro ou seria talvez uma visão? E cada vez mais, tinha certeza de que aquela estava ligada ao seu destino de uma forma que ainda não compreendia, mas, faria de tudo para compreender.
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