O momento em que um ciclo se fecha

2410 Palavras
O cheiro de álcool inunda minhas narinas. Reclamo, franzo a testa e deixo escapar um lamento leve. Aperto os olhos com força e, quando os abro, a luz branca incomoda e machuca um pouco, mas consigo abrir os olhos por completo. — Graças a Deus você acordou, Bárbara, você está bem? O rosto de Miranda aparece em meu campo de visão e eu levo meu tempo para responder. — Estou bem? Não, não estou. Mas estarei — Mas agora mesmo, estou quebrada, estou sangrando pela ferida. Sinto-me como uma roupa jogada debaixo da cama em um quarto desolado. Sinto-me deslocada. Sinto-me esquecida — Estou bem... — Respondo por fim — — Acho que não ter tomado café da manhã me afetou mais do que deveria. — Isso, e os nervos de ter conhecido o senhor Reed. Fico em silêncio. O médico me examina com uma pequena lanterna enquanto sugere algumas recomendações e alguns exames devido ao meu desmaio, alegando que posso estar anêmica. Eu não falo, finjo interesse e que estou ouvindo porque não estou anêmica, estou com meu coração partido e isso, em alguns casos, causa o desmaio que tive. Quando estava deprimida, tive muitos desses e não estava anêmica, estava lutando com um leve quadro de desnutrição, mas superei isso. “Se consegui lidar com tudo isso estando grávida, posso lidar com isso. Eu sei. Só preciso processar tudo.” — Bárbara, há alguém para quem você possa ligar para vir buscá-la ou que esteja esperando lá fora? Nego, forçando um sorriso. — Não se preocupe, pegarei um táxi para o meu apartamento, Miranda. Levanto da maca para me sentar, agradecendo ao médico por oferecer sua mão. Ajeito minha saia e decido perguntar algo a ela que sei que vai ser amargo na minha boca. — E C... o senhor Reed? — Engulo em seco — Ele disse algo sobre mim? — Ele te carregou e te deixou aqui — Ela responde relaxada, sem imaginar o motivo da minha pergunta. Não digo nada, ela se aproxima para que o médico, que está anotando algumas coisas em uma folha, não nos ouça. — Ele fez muito ao te carregar, Bárbara. O senhor Reed não tem contato físico com seus funcionários. — Fui eu que desmaiei em seus braços, não ele que decidiu ter contato físico comigo, Miranda — Sussurro. A gerente de recursos humanos, que tem sido meu único guia neste dia, ri baixinho e se aproxima do médico para pegar as instruções que ele deixou por escrito. Agradeço com um leve sorriso quando ela me entrega. — Vamos, te acompanho para pegar um táxi. Nós duas saímos da enfermaria e apesar de ela estar falando muito animada, indicando onde estamos e o que é cada escritório que deixamos para trás, eu não falo. Estou imersa em meus próprios pensamentos, assimilando tudo o que aconteceu. Ainda sinto em meus braços suas mãos me segurando. A ardência que elas deixaram em minha pele, o que causaram e a marca que deixaram como se fosse ferro quente, que queimou e me deixou com a ardência lancinante. Uma dor que levará tempo para acalmar em mim. — Acho que o senhor Reed agiu bem em pedir que você fosse para casa hoje, Bárbara... — Ele não me pediu, ele me expulsou. — Suponho. Você estava muito agitada, mas eu entendo. Você veio de outra cidade por esse emprego, veio de ter o melhor chefe do mundo para um chefe um pouco... — Desafiador, sim. Eu sei. — Vá para casa, descanse e volte amanhã mais relaxada, com mais energia e pronta para mostrar ao senhor Reed que ele está errado. Você é uma profissional e tenho certeza de que deixará isso claro com o seu desempenho. De acordo com as palavras de Aarón, você aprende rápido e se adapta bem a qualquer situação, então eu acredito e confio que amanhã você dará o melhor de si — É impossível não mostrar um sorriso leve, porque apesar dessa loucura amarga, ela está vendo a situação de sua perspectiva, o que me dá um pouco de ânimo. Mas apenas um pouco, pelo menos o suficiente para sorrir em resposta — Gostaria de te acompanhar em casa, ou te levar eu mesma no meu carro, mas ainda estou em horário de trabalho e depois da reprimenda do senhor Reed na enfermaria, eu não quero que... — Volte tranquila para o seu escritório — Apresso-me a dizer com doçura — Esperarei aqui pelo táxi, Miranda. E obrigada por ter estado comigo. — Prometi ao Aarón que não te deixaria sozinha, e espero que, eventualmente, consigamos ser mais do que colegas de trabalho. Não sei por que faço isso, talvez esteja muito sentimental, mas de qualquer forma a abraço, apesar de m*l conhecê-la, e me despeço prometendo voltar amanhã para dar o meu melhor, embora seja mentira. Eu virei amanhã, mas para apresentar minha renúncia e desculpas por não poder continuar. Isso está acima de mim e não me sinto pronta para enfrentar. Ainda tenho muitas perguntas em minha cabeça. Miranda vai embora, entrando novamente no prédio. Eu fico em pé, esperando um táxi passar para ir para casa. Sei que deveria levantar a mão, ficar de olho nos carros esperando que um táxi passe por mim, mas não o faço. Eu apenas seguro minha bolsa com força enquanto fico olhando para um ponto inexistente, sem saber o que fazer. Penso em Caroline, é impossível não me perguntar se ela sabia, se sempre soube. Sei que não devo culpá-la, porque fui eu mesma que estabeleci uma distância entre nós duas, embora ela não quisesse. Fui eu quem pegou o lápis e desenhou a linha, fui eu quem a fez prometer que não falaria sobre ele, que não o mencionaria nem sequer falasse da minha existência ou do meu filho para Cedric. Eu fiz isso, porque quando somos jovens achamos que sabemos muitas coisas, achamos que sabemos de tudo, e eu, uma jovem apaixonada, uma romântica incurável, acreditei que ele ia me lembrar. Eu me concentrei na minha saúde mental, sim, mas nunca deixei de esperar aquela ligação da mãe dele ou pelo menos a dele, porque dentro do meu e******o coração, eu acreditei nos Reed, eu acreditei como uma tola que Wanda me ligaria, que me procuraria para me apresentar a ele como prometeu, mas eu era apenas uma jovem que achava que sabia tudo, e, no final, não sei de nada. Levanto minha mão para disfarçadamente enxugar minhas lágrimas. Não quero que alguém da empresa me rotule como Bárbara, a chorona. Já tive o suficiente desmaiando na presidência. Tenho certeza de que, à tarde, todos saberão que a novata desmaiou por causa do medo que seu chefe causou. Respiro fundo, ergo minha cabeça e decido atravessar a rua, pois agora que me lembro, preciso pegar o táxi do outro lado e não deste. Atravesso o mais rápido possível e quando paro na calçada, viro para começar a procurar um táxi. O som de um carro chama minha atenção, vejo-o parar em frente à empresa. É um carro esportivo branco, e uma mulher de corpo esbelto sai dele usando um vestido justo vermelho, cabelos ondulados e óculos escuros. Fico olhando para ela, porque sinceramente, ela chama a atenção. Ela dá a volta no carro e quando percebo quem sai para recebê-la, paraliso. É ele, Cedric. Ele tira um par de óculos do bolso do paletó e o coloca com os olhos fixos na mulher. Quando ela chega, eles se beijam imediatamente, ele coloca as mãos em volta do pescoço dela e a beija nos lábios, e ela não o rejeita. Passam apenas alguns segundos, ela se afasta, entregando as chaves do carro para ele, e como um verdadeiro cavalheiro, ele se aproxima para abrir a porta do passageiro, fecha-a e, em seguida, dá a volta no carro e se aproxima da outra porta para abri-la e entrar. Inesperadamente, ele vira na minha direção e olha para mim através dos óculos, e imediatamente desvio o olhar. Sinto o peso do olhar dele sobre mim, mas não olho para trás. Aperto os dentes com força, fingindo olhar os carros passando e quando ouço o som do motor acelerando à medida que ele avança e respiro aliviada. Começo a andar o mais rápido que posso, caminho sem olhar para os lados, sem me importar em esbarrar nas pessoas com meu corpo, sem me importar em ser notada com lágrimas escorrendo dos meus olhos em cascata. Caminho sem olhar para trás, sem pensar na distância, sem pensar nos meus pés com esses saltos altos. Caminho até chegar a esse prédio que não vejo há cinco anos, entro no elevador e aperto o botão do andar, sem importar-me se estão me olhando de forma estranha, e quando finalmente chego em frente a essa porta, fico em pé, sentindo os batimentos do meu coração baterem fortes no meu peito. Com mão trêmula, procuro minha carteira, abro e, do bolso fechado que nunca tive coragem de abrir até agora, tiro a pequena chave da porta sem saber se cometerei uma loucura, um crime ou um assassinato do meu próprio coração. Insiro a chave, giro-a lentamente e ao ouvir o som do trinco sendo liberado, estremeço. Abro a porta, guardo a chave que uma vez pedi para a minha mãe e guardei para esquecer. Até hoje. Fecho a porta atrás de mim e olho ao redor como se nada tivesse acontecido. Tudo está exatamente como deixei no dia do nosso casamento. — Também esqueceu o nosso lar, Cedric... Me aproximo lentamente e olho para a foto que tiramos no Natal, ambos fantasiados de rena. Não tenho coragem de pegá-la, deixo-a como está. Sinto-me sem ar e sei que minha mãe vai brigar comigo por ter vindo até aqui, mas preciso fazer isso. Eu preciso ver isso, ver o que era a nossa vida, o que vivemos e que já não existe, porque eu, dentro de mim, preciso fechar esse maldito ciclo que há cinco malditos anos tem me torturado por dentro. Eu preciso acabar com isso porque todas as noites eu esperei por ele, para que me ligasse, me procurasse, lembrasse de mim! Em dois passos chego à foto que tiramos na primeira vez que nos vimos nesse bar. Ele a tirou, depois me enviou algum tempo depois. Quando começamos a contar nossa história de amor através de fotos, foi a primeira que penduramos na parede. Eu a seguro com força, toco-a e vejo o quanto ele mudou. Aquela doçura no sorriso não está mais lá, aquele brilho nos olhos não está mais lá. Ele não me abraça mais. — Você nunca me procurou, Cedric... Você nunca se lembrou de mim, Cedric! — Grito, cheia de dor. Jogo o quadro com força, e o vidro se quebra ao bater no chão. A foto fica de cabeça para baixo, revelando a letra dele e a nota que ele mesmo escreveu antes de colocá-la no quadro. “No dia em que conheci o amor da minha vida, minha futura esposa e mãe dos meus filhos.” Nego, levando minhas mãos à boca e como se uma chama que queima e me consome, me torno cinzas. Meu julgamento se nubla e começo a jogar cada fotografia da parede com dor, com raiva, com uma ira descontrolada, deixando sair tudo o que estava retido por tantos anos, o que nunca pude gritar ou expressar por estar grávida. — Tudo foi mentira! Tudo isso foi uma vil mentira! — Grito — Você não me procurou! Você não se lembrou de mim! Você não me ama mais! A impotência me cega, os sentimentos à flor da pele fazem estragos em mim, fazendo-me destruir tudo a meu passo. Cada lembrança, cada objeto com significado, cada presente que ele me deu para decorar nosso lar, todos e cada um deles eu destruo. Ele comprou o apartamento, mas ele é tanto meu quanto dele, e justo agora, tenho todo o maldito direito de destruir cada uma das coisas que nos ataram em algum momento, porque sou sua esposa. Eu sou sua esposa! Termino no chão, chorando com minha mão em meu peito, desabafando em meio a um choro dilacerante que me queima, dói e me mata lentamente. E assim permaneço até que não haja mais nada pelo que chorar, até que não haja lágrimas para deixar sair. Sem me mover, sem falar, fico pensando em tudo o que aconteceu, o que Wanda e Ryan Reed fizeram comigo, nos danos que me causaram e nas intenções por trás de suas falsas promessas. Com a cabeça de lado, olhando cada quadro no chão, uns quebrados e outros não, fico pensando em tudo o que me fizeram e um sorriso carente de felicidade se desenha em meus lábios. Para Wanda e Ryan Reed, eu sempre fui a vilã que queria prender seu filho por dinheiro. Eles me viram como uma garota ambiciosa, uma camponesa do Tennessee que só queria garantir seu futuro. Eles apenas fingiram me amar, me aceitar e me dar essa bênção, e tudo bem. Agora mesmo acabei de superar isso. Eu aceitarei agora, com prazer, ser a vilã de sua história perfeita da alta sociedade, mas apenas para que possam contar no momento apropriado em qual capítulo eles próprios me criaram. Respiro fundo, levanto-me do chão para sair daqui. E sentindo uma força que anteriormente não havia sentido, abro a porta, a fecho novamente, assim como acabo de fechar um ciclo em minha vida. Giro a chave e com a cabeça erguida, avanço pelo corredor, sem olhar para trás, sem chorar, sem me sentir miserável. Entro no elevador e deixo o ar sair. Agora mesmo, sinto esse incômodo no peito quando tomo uma decisão que sei que me quebrará em mil pedaços, mas que no fundo sei que é o melhor. Assim me sinto. Vai me doer vê-lo todos os dias, mas não pretendo mais chorar, não pretendo mais ficar com perguntas sem respostas, com a história pela metade. Infelizmente, aprendi da pior maneira que, às vezes, ser boa não é motivo para ser amada, apenas para ser usada conforme a vontade deles, e os Reed fizeram isso. Eles fizeram chorar os olhos que só queriam ver seu filho feliz. Mentiram para mim olhando em meu rosto, me enganaram como a uma criança boba apenas por minha fraqueza, que era o meu amor por ele. Mas, não mais. Eles pagarão por cada lágrima derramada.
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