Manu
Já passava algumas horas que esperávamos, com meu irmão jogado numa maca, de repente ele começa a tossir, se contorcer e vomitar sangue, me deixando desesperada. Um médico e uma enfermeira aparecem e levam ele pra uma sala e um tempo depois ele volta pra dar informação sobre o estado do meu irmão e eu tive muito medo dele dizer que ele está morto.
— Como meu irmão está doutor? — Pergunto tentando segurar o nervosismo.
— O paciente teve uma hemorragia, devido ao espancamento que sofreu, mas não temos como ter certeza da gravidade. Precisamos fazer exames que infelizmente não estão disponíveis no momento. Eu aconselho a vocês levarem ele para outro hospital urgente, de preferência particular, já que o caso parece grave.
— Eu não tenho condições para fazer isso, doutor. Eu falo desesperada sem saber o que fazer.
Eu não queria deixar o meu irmão morrer, ele é a única família que eu tenho.
— Manu, por favor, me deixe te ajudar. — Julio fala com aquele jeito prestativo dele.
Eu sento numa cadeira e cubro meu rosto com as mãos tentando não mostrar meu desespero. Nesse momento Safira entra no hospital, um pouco atordoada, porque Júlio tinha chamado ela.
— Amiga, como você está? — Eu não consegui responder, apenas Júlio conta os detalhes e diz que pode ajudar e que eu estou sendo, orgulhosa.
— Pelo amor de Deus, Manu. Isso não é hora de ser orgulhosa ou humilde, aceite. Julio só quer te ajudar, pensa no seu irmão. Não é você que diz que ele é sua única família?
Ela me encurrala, me julgando e eu tenho vontade de sair correndo, enquanto Julio me olha com aquela cara de bom moço, mas eu não confio mais nele, no fundo eu sabia que ele ia cobrar e como ele ia fazer isso.
— Tudo bem, Júlio, eu vou aceitar, mas eu vou lhe pagar e você vai aceitar o dinheiro como pagamento. — Ele me olha desconfiado e Safira nos encara sem entender.
— Tudo bem, Manu. — Ele responde quase sussurrando.
Providenciamos a transferência dele e o levamos para uma clínica particular. Depois de duas horas de exames, um médico se aproxima e diz:
— Ele está com um órgão perfurado, mas vai precisar de uma cirurgia para controlar a hemorragia, por enquanto ele está estável e o quanto antes fizer a cirurgia melhor. — Eu fico aliviada com a situação, mas preocupada porque sei que vai ser bem caro.
— Eu vou resolver tudo, Manu, você pode ficar aliviada. — Ele fala e eu apenas fico olhando sem conseguir responder nada.
***
Depois de seis horas Arthur já tinha sido operado e o médico disse que ele precisava fazer repouso absoluto, mas que ia ficar bem.
Depois de passar a noite no hospital, deixei Arthur na UTI, já que ele ainda ia ficar algumas horas lá e resolvi ir em casa, descansar um pouco, tomar um banho e pensar no que eu ia fazer com a minha vida.
E quando vou saindo encontro Júlio na recepção do hospital e parecia que ele estava me esperando e quando me vê levanta e vem falar comigo.
— Manu, eu posso falar com você?
— Julio, eu estou muito cansada, exausta mesmo, não tenho o que conversar com você agora.
— Manu, eu posso te levar pra casa e no caminho nós conversamos.
— Não Julio, eu…
— Por favor, Manu, é só uma carona.
Eu quis protestar, mas confesso que eu estou exausta mesmo e até minha casa é um pouco longe. Assenti com a cabeça e seguimos até o estacionamento em silêncio, mas no caminho ele começa a falar.
— Manu desculpa, por ontem, acho que perdi a cabeça, eu sempre gostei de você e acabei passando dos limites.
— Julio, eu não quero falar sobre isso.
— Não quero que o que aconteceu ou não aconteceu atrapalhe nossa relação, amizade…
É sério que ele acha que temos alguma coisa mesmo e o fato dele quase me estuprar, não alterou a nossa amizade?
Naquele momento eu tive tanta vontade de gritar e dizer o quanto ele era um idiot@ e que nunca mais ele ia encostar em mim, mas lembrei do meu irmão e que ele está naquele hospital por conta dele. Eu tive que aprender desde cedo a ser mais racional e essa é uma hora que eu tenho que esquecer tudo de rüim que estava passando na minha cabeça e o como eu estou me sentindo m*l.
— Como eu te disse antes, Julio, eu estou exausta e agora não consigo pensar direito, preciso dormir, Julio. E sobre o que você fez para o meu irmão, eu juro que eu vou pagar, o mais rápido possível.
— Não precisa se preocupar com isso, somos amigos e sei que depois que tudo isso passar você vai me desculpar e vai me dar uma nova chance. Eu juro que vou fazer diferente, eu prometo, Manu.
O idota vem se aproximando e tenta me beijar, e eu tenho vontade de cuspir na cara dele, mas apenas viro o rosto e saio do carro sem falar nada.
Entro em casa e o sangue do meu irmão está derramado no chão da sala e fecho os olhos e lembro do Arthur, quase morto naquele chão, totalmente espancado e por muito pouco eu não sou uma pessoa totalmente sozinha, sem ninguém no mundo.
Tento enxugar as lagrimas e quando olho para o sofá lembro que por muito pouco eu não perdi minha virgindade daquele jeito… Na verdade eu acho que ia ser estupro, porque eu não queria mais e ele ia até o fim se meu irmão não tivesse entrado daquele jeito.
Tudo aquilo passa na minha mente, e meu corpo desmorona e eu arriei no chão, e não consegui segurar as lágrimas e choro compulsivamente, até meu cansaço me vencer e eu adormecer ali deitada no chão.
Acordo algumas horas depois, vou limpar a sala e em seguida tomar um banho, faço um lanche e vou me arrumar para voltar pro hospital.
Quando eu chego lá, meu irmão está num quarto e encontro um dos homens que bateram nele eu fico em estado de choque, olho para o meu irmão que está aparentemente dormindo ou morto, eu não consigo identificar.
Me aproximo dele e com as mãos muito trêmulas tento colocar em sua testa e o homem não tira os olhos de mim de um jeito cínico, com um sorriso diabólico nos lábios.
— Tenha medo não gata, eu ainda não matei seu irmãozinho. — Ele diz com um jeito diabólico e sarcástico, que me dá nojo e medo ao mesmo tempo.
Passo a mão nele, que tá quente e respirando e olho pra o homem e pergunto:
— O que você quer com ele? Veio se certificar que ele estava morto?
— Meu chefe quer o dinheiro que ele deve e não queremos ele morto ainda. Vim na verdade dar um recado a você… Vou te dar duas semanas para conseguir o meu dinheiro se não ele morre e você também, gatinha.
Ele levanta e antes de sair dá um tapa no meu irmão que grita de dor e quando vê o cara, ele entra em pânico.
Eu vou pra cima do meu irmão e chamo a enfermeira que tenta ajudá-lo e é preciso dar um sedativo a ele para acalmá-lo. Algum tempo depois, eu vejo que ele está dormindo e eu fico ao seu lado, segurando sua mão e olhando e pensando em tudo que aconteceu na últimas 24 horas.
Uma vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, toma conta de mim e penso no que a Safira me disse:
“— Amiga, faça esse dia ser inesquecível.”
Definitivamente, eu jamais vou esquecer esse dia!
***
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