Capítulo 2
Narrado por Dandara
Eu nunca escolhi vir pra esse morro. Na real, eu nunca escolhi p***a nenhuma na vida.
Acordei com o barulho da porta batendo. Meu pai tropeçando nos próprios pés, rindo sozinho, fedendo a crack, a vômito, a sujeira. A casa tinha só quatro cômodos. dois pra dormir e outro que fingia ser sala e cozinha. O banheiro era um buraco no chão com uma cortina de plástico sujo separando do resto. A dignidade tinha sido deixada no asfalto muito antes da gente subir pra esse inferno.
Minha mãe tava deitada no sofá velho, só de calcinha, uma seringa do lado, o braço cheio de marcas. Eu parei de contar as cicatrizes quando fiz quinze anos. Agora tenho dezoito. Isso se alguém ainda lembra.
Fiquei sentada na beirada do colchão de espuma velha, abraçando meus joelhos. Tinha um gosto de sangue seco na boca. Mordi a língua enquanto dormia, ou talvez tenha sido outra coisa. Com eles, nunca se sabe.
Meu pai largou a mochila dele no chão e veio na minha direção. Trôpego. Olhar de bicho. Tremendo.
— Tem comida aí? — perguntou, cuspindo no chão.
— Só água.
— p***a! — gritou, dando um chute na panela vazia. — Nem pra servir!
Ele se afastou, resmungando. Eu respirei fundo. Toda vez que ele falava comigo sem tocar, era uma vitória. Já não tinha tantas.
O morro do Turano era quente. Quente de clima, de ódio, de tensão. Todo mundo se conhece, mas ninguém quer saber de ninguém. É cada um por si. Ou melhor, cada um pela boca que manda.
Mas ontem... ontem alguém olhou pra mim.
Marratimah. O dono do morro.
Eu ouvi falarem o nome dele desde que cheguei. Dizem que comanda tudo, que decide quem vive e quem morre. Que é respeitado até pela polícia, que entra aqui só com autorização.
Quando ele veio falar comigo, no baile... meu corpo inteiro tremeu. Não era medo. Era outra coisa. Um calor estranho. Um arrepio no meio do peito.
"Se alguém mexer contigo, me procura."
Ninguém nunca disse isso pra mim. Nunca.
Me escondi o dia inteiro hoje. Não queria sair de casa. Mas a fome venceu.
Coloquei o chinelo rasgado, amarrei o cabelo com uma liga velha de dinheiro e saí. A rua de terra seca levantava poeira a cada passo. Os barracos todos apertados, a criançada correndo, a velha da laje ouvindo rádio no último volume.
Desci até o bar da Dona Márcia. Ela sempre me dá pão dormido e suco vencido. Mas naquele dia, ela tava diferente. Olhou pra mim como se eu fosse outra pessoa.
— Te chamaram ali na laje da serralheria. O patrão quer falar contigo.
Meu estômago virou.
— Marratimah?
Ela assentiu, com um sorriso torto. Desconfiado.
Subi com as pernas bambas. A escada era de cimento, mas não tinha corrimão. Me agarrei nas paredes, sentindo os olhos da favela nas minhas costas.
Quando cheguei na laje, ele tava lá. Sentado num banco de madeira, camisa regata preta, bermuda branca, tênis caro. O cordão brilhava sob o sol do meio-dia. E o olhar... o olhar atravessava tudo.
— Senta aqui — ele disse, sem me dar escolha.
Obedeci.
— Teus pais tão vendendo teu corpo?
A pergunta me bateu como tapa.
Fiquei muda. O rosto queimando de vergonha, de raiva, de medo.
— Eu sei o que tá acontecendo. Sei que tão oferecendo você pra quem pagar pedra. Só quero saber se já aconteceu.
Demorei pra conseguir responder. A garganta fechava.
— Já tentaram... mas eu corri. Me escondi. Ele me bateu por isso. Disse que eu atrapalhei o negócio dele.
— Quem foi o cara?
— Um tal de Zóio, da Serrinha. Tava com meu pai outro dia.
Marratimah ficou em silêncio. Olhou pro horizonte. Depois puxou o celular, mandou uma mensagem.
— Ele tá morto. Agora.
Meu coração congelou.
— Cê matou por mim?
— Eu mato por quem é meu.
— Mas eu não sou sua.
Ele olhou pra mim com um sorriso perigoso.
— Ainda não.
_ fui pra casa assustada,
passei o resto do dia trancada em casa, ouvindo os gritos da minha mãe se debatendo em crise. O som do isqueiro do meu pai ligando e desligando. A solidão virando espinho dentro do peito.
Mas à noite, algo mudou.
Bateram na porta.
Abri com medo, achando que era polícia, ou pior. Mas era o Big Joel. O gigante da noite do baile.
— Traz tuas coisas. Cê vai morar num lugar melhor agora.
— Por quê?
— Porque o chefe quer. E ninguém desobedece.
Não tinha nada meu pra levar. Só uma mochila com meus vestidos surrados, uma escova de dente e três calcinhas e dois sutiã velhos uma saia nova que a vizinha tinha me dado pra eu ir no baile e uma blusa e uma sandália de salto usada.
Segui ele morro acima, passando por vielas que nunca tinha pisado. Chegamos num barraco grande, todo reformado, com ar-condicionado na janela. Entramos.
Lá dentro, tinha um quarto só pra mim. Cama arrumada, lençol limpo, sabonete novo. Nunca vi nada tão bonito.
No canto, uma cartinha escrita à mão:
"Aqui você vai ter paz. Só isso. Marratimah."
Deitei e chorei. Pela primeira vez, não era de medo.
Era de alívio eu iria conseguir sobreviver.
Na manhã seguinte, a comunidade já murmurava. Dandara, a filha dos zumbi, agora morava numa das casas do chefe. As invejosas falavam que eu dei pra subir. Os cria mais velhos comentavam que Marratimah mesmo por traz daquele rosto fechado dentro daquele peito batia um coração.
Mas eu sabia a verdade.
Ele não me tocou.
Só me deu uma casa, um teto, e um pouco de respeito.
Coisas que eu nunca tive.
E foi aí que percebi: eu não queria ser salva. Eu queria poder me salvar sozinha.
Mas talvez... só talvez... com ele me ajudando, isso fosse possível.
sei que muitos irão me criticar eu não tô ligando,
eu sei quem sou.
Não vou me deitar com ele pra pagar. vou pedir pra ele me dar um emprego.