Capítulo 22 — Mensagem na Batida

1448 Palavras
Lucas Voltei devagar, costela lembrando a vírgula da esquina baixa. Rafa quis saber se eu estava inteiro; respondi que sim e deixei o resto para o dia. Agora era noite — e a noite tinha sintaxe. “Calçada e linha do meio”, “sem atalhos”, “conduta vira senha”. Eu repetia as três como quem evita pensar no nome que não tem. Água primeiro no bolso da cabeça. No acesso da laje, n**o Célio plantado como sempre. Ele não perguntou do roxo; o morro economiza pergunta que já tem resposta. — Boa noite. — Mostrei as mãos por reflexo. — Mapa na cabeça. — Sem inventar novo, hoje. — Ele riscou, mínimo. — Sem inventar. Passei. O bar tinha cheiro de limão espremido e fritura antiga; o paredão respirava manso. No palco, Caio testava o corte: uma mão no fone, outra no peito, sinal mudo de “respira”. Fiquei no ponto combinado, lateral da Pipa Azul, onde a lâmpada fria insiste em piscar e o corredor desenha sombra suficiente para a gente caber no modo sussurro. Não desci para o meio, não forcei visão. Esperar é verbo que eu treino com impaciência contida. Rafa se encostou na mureta, companheiro de silêncio. — Se vier, vem com regra — ele disse, sem olhar pra mim. — Se não vier, eu aprendo regra mesmo assim. — Boa resposta. A música abriu a noite com marola. Nada de arrombar porta — Caio não é desse tipo. Ele costura primeira sequência e, sem peso de anúncio, solta no microfone, voz limpa: — Dora respira. Quem não sabe ouviu poesia. Eu ouvi recado. Não foi convite. Foi compasso. O corpo quis andar; a cabeça sentou em cima. Não desci. Pedi água no bar. O bartender sorriu com aquele canto que entende obsessões saudáveis. — Veio pelo código. — Vim pelo silêncio entre as notas. — Bom lugar pra esperar. Bebi mais dois goles e me afastei, voltando para a lateral. A batida deu lugar a uma voz familiar e antiga, e a laje vibrou no mesmo ritmo. Duas figuras se moviam rapidamente, disputando a viela de serviço, mas Célio as controlou com um gesto discreto, sem precisar gritar. Foi quando senti um toque discreto no ombro. Tainá. Cheiro de laje e verniz barato fazendo o serviço da coragem. — Boa noite, surfista — ela disse, sem doçura nem faca. Profissional. — Boa noite, âncora. — Recado. — Ela ajustou a alça da bolsa como quem disfarça o envelope. — Hoje, duas músicas. E nada de nome. — Olhou de cima a baixo meu jeito de esperar. — E nada de cena. — Nada de cena — confirmei. A cintura reclamou do movimento; eu guardei a dor junto com o sarcasmo. — E nada de mão — ela completou, severa. — Mão visível. Água primeiro. Sem manchete. Um quase-sorriso pousou nos lábios dela. — Tá aprendendo. — Bastou isso. Tainá some do mesmo jeito que chegou: sem rastro. Ela é o tipo de pessoa que as portas lembram abrir. Fiquei onde estava, com o coração tentando subir degraus que o corpo não recebeu permissão para subir. Duas músicas. Eu contei a primeira inteira na batida do dedo no corrimão: quatro compassos, respiro, quatro, respiro. O mundo cabia nos intervalos. Apareceu um boné conhecido perto do bar. Não era o da esquina didática da outra noite; era Rafa, de volta com copos plásticos. Me entregou um, apontou com o queixo para o corredor. — Modo sussurro — ele disse. — Modo sussurro. No meio da segunda música, um leve movimento surgiu do lado oposto, perto daquela pintura desbotada da Pipa. Era ela. Sem máscara. Isso me atingiu com força, dividindo meu peito: metade alívio, metade perigo iminente. O cabelo estava preso e ela usava um batom discreto, o tipo de beleza que não chama a atenção quando a situação pede discrição – ou pode custar a vida. Tainá se aproximou, parando a um braço de distância, como um ímã que define o limite da maré. Não havia necessidade de palavras. Havia apenas pequenas verdades suspensas no ar. — Boa noite — saiu baixo, que nem o recorte do Caio. — Boa noite. — Hoje, duas músicas — ela mesma repetiu, confirmando a regra que me foi dada. — E nada de nome. — E nada de mão — devolvi, lembrando de educar meu corpo. — E nada de correr se o mundo ficar estreito. — Eu sei sair certo. — E sei ficar certo, pensei. Silêncio de meio compasso. A laje era uma respiração coletiva atrás da nossa conversa. — Doeram? — ela perguntou, o olho fazendo mapa do roxo que talvez dava pra ver mesmo de camisa preta. — Mais no orgulho. — Sorri curto. — Mas eu ouvi o recado. — Qual? — “Se te quiserem vivo, te deixam aprender regra.” — A frase de Célio não saiu como lamúria; saiu como manual. Ela assentiu, quase orgulhosa. — Então vive. — Não foi ordem. Não foi pedido. Foi parceria. A contagem de "duas músicas" se estendeu, maleável ao desejo. Caio agiu sem pressa, sem alardes, conduzindo a transição da mesma forma casual com que se trocaria uma camisa no escuro. Tainá recuou minimamente, mantendo o limite. Já ela — a mulher anônima — encurtou a distância, ficando meio centímetro mais próxima, mas sem tocá-lo. Sua mão permanecia visível ao lado da coxa, o corpo firme e alinhado. — Eu estive… — comecei e parei, aparando o verbo. — Eu também — ela completou, sem me deixar tropeçar no clichê. Querer e esperar são dois rios que dão no mesmo mar se a gente não constrói barragem. — Se o teu pai… — mordi a prudência. — Meu pai sabe de mais coisas do que eu gostaria. — Não fugiu. — E de menos do que ele acha. Hoje, ele sabe onde eu estou. — Olhou para o chão, depois para mim. — Por isso são duas músicas. Concordei. A regra não era antiamor; era antipesadelo. E nada de nome era o jeito de deixar os monstros do lado de fora da frase. — Posso te dar algo que não pesa? — perguntei. — Pode. Levantei o copo um pouco. — Água. Primeiro. Ela sorriu como quem aceita flores certas no velório errado. Bebeu um gole, devolveu o copo, não os olhos. — Obrigada. — De nada. O segundo refrão chegou como janela. Não encostamos. Ainda assim, o corpo sentiu aquela velha vontade de assinar a página com boca. Tainá pigarreou, a senha silenciosa de sempre. Eu recuei meio passo. Ela também. — Quando? — escapei. — Quando couber. — Ela sorriu de novo, mais contida. — Quando não virar prejuízo. — Eu espero. — Eu não fujo. Duas músicas acabam mais rápido quando a gente quer três. Caio costurou a saída. Tainá encostou o ombro no meu, recado final: — Ela vai. Eu levo. Você fica. — Sem julgamento; logística. — Eu fico — confirmei, sem transformar isso em teatro. Ela me deu aquele meio sorriso que já virou juramento. Não havia nome; havia reconhecimento. Virou com Tainá, e a imagem das duas indo lado a lado me deu uma paz que não combina com o asfalto — paz de quem sabe que âncoras existem. Fiquei onde prometi. Rafa encostou de novo, me entregou outra água. — Como foi? — Foi regra — respondi. — E foi bom. — Então foi muito. Célio passou pela lateral, rápido e certo como sempre. Não precisou falar. Deu um nó de queixo: “deu”. A tradução simultânea no meu peito: você não estragou o lugar. Por aqui, isso é medalha. Antes de ir, olhei o palco. Caio levantou um mínimo de mão, sinal de quem fez o que prometeu. Respondi com um aceno curto. Sem cena. Desci devagar, mais inteiro do que quando subi. A regra tinha me segurado. A esperança não virou pressa. No fundo do bolso, minha mão fechou no nada como quem segura alguma coisa: era só compasso. E compasso, aqui, vale mais que história. No carro, Rafa ligou o motor sem pergunta grande. — Dia de vitória? — ele cutucou. — Dia de regra — respondi, sorrindo. Enquanto a ladeira escorria de volta para baixo, tracei mentalmente no espelho do banheiro as regras para o dia seguinte: "Código não é um convite. Duas músicas, e apenas isso. Silêncio total equivale ao respeito máximo." A cidade me deu o seu "até logo" no rugido distante de uma moto. Respondi em pensamento: "sem drama, sem cena." Esperar é a parte mais árdua, mas é justamente por isso que é a mais bela.
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