Capítulo 11 — Latidos de Alerta

1608 Palavras
Isadora Os cachorros da vizinhança começaram a latir antes do sol e os rádios responderam, como se o morro inteiro tivesse combinado um alarme. Latidos de alerta. A casa acordou com botas no corredor, vozes baixas, metal batendo em coldre. Voltei do baile com o corpo leve; acordei com o ar pesado. — Reunião na sala — avisou Dona Nilda, a mão carinhosa no meu ombro, o olhar que pede calma e promete abrigo. — Teu pai já desceu. Desci com o terço que ela me deu queimando contra a pele. Na sala, Sombra estava de pé, mãos nas costas, postura de quem segura um tabuleiro que ninguém além dele enxerga inteiro. Atrás, três rostos novos: dois seguranças magros, olhar de vigia de torre, e um mais pesado, cicatriz cortando a sobrancelha. n**o Célio encostado na lateral, radio ao ombro, atento. — Bom dia. — A voz do meu pai cortou o murmúrio. — A partir de hoje, celulares conferidos quando eu mandar, rotas revistas, seguranças novos nos pontos cegos. — Ele olhou para mim apenas de raspão, como quem mede a distância de um problema. — A casa é fortaleza, não estação. Quem entra, entra direito. Quem sai, avisa. O chão sob meus pés ficou um pouco mais estreito. Pensei no baile e no instante em que alguém encostou meu antebraço no corredor — choque elétrico — e eu puxei o braço por medo de mim. Pensei no olhar por trás da máscara, no sorriso contido, no corpo que dançava com respeito. A lembrança subiu feita calor; a culpa veio atrás, mandando esfriar: eu quis o que meu pai não permite. — Telefone — Sombra estendeu a mão. Entreguei. O ícone de modo avião ainda estava aceso; eu o deixei assim a noite toda, dormindo com um segredo guardado na maré do peito. Ele desbloqueou sem pedir senha — a segurança dele é método e roteiro. Passou a tela, verificou os aplicativos de localização que ele mesmo mandou instalar. A expressão não mudou. — Modo avião? — perguntou, neutro. — Às vezes eu gosto de silêncio — respondi, também neutra. — Silêncio é luxo — ele disse, devolvendo o aparelho. — Luxo custa caro. Atrasei um segundo para guardar, e nesse segundo a memória me pegou pelo cabelo: “Olhar é convite. E convite custa caro.” Eu o ouvi menino dentro do homem; por um instante, o Caveira se revelou pai. Doeu. — Isadora, depois suba ao escritório — ele concluiu, já virando para Célio. — Quero o mapa da Rua 1 atualizado, e fecha o corredor da lavanderia quando tiver movimento externo. — Copiado — Célio assentiu. Os cachorros voltaram a latir lá fora. Latidos de alerta. Fiquei ali, parada, como quem tenta escutar se algum deles me reconhece pelo cheiro. Dona Nilda aproximou, ajeitou a barra da minha blusa como quando eu era pequena. — Come algo — sussurrou. — Coração vazio escuta demais. — Eu estou cheia — respondi, sem conseguir esconder. — Só que do lado errado. Ela percebeu o excesso e me levou para a cozinha. O café estava mais forte do que o normal — sinal de guerra fria. Bebi, queimei a língua, agradeci a ardência por me lembrar que eu ainda sentia. — Não é o baile, Isa — Nilda falou, sem rodeio. — É o que o baile acendeu em você. Isso ninguém tira. Só cuida para que não te roubem por fora. Hoje ele tá com a cabeça em outro lugar, mas o cuidado dele tem braço comprido. Assenti. O cuidado do meu pai pesa como corrente e, no mesmo gesto, vira ponte sobre abismos. Foi isso que me salvou tantas vezes, e é isso que me prende agora. Subi ao escritório dele como quem sobe numa torre onde a vista é bonita e o vento empurra. Sombra não levantou quando cheguei. O mapa da Rocinha ocupava meia parede, alfinetes novos marcando pinos que não existiam ontem. — Você não é i****a — ele começou, sem preâmbulo. — Não vai me dizer que não sabe o que está fazendo. — Sei o que estou sentindo — corrigi, sem bravata. — Sentir é barato — ele cravou. — Agir é caro. — Virou-se por inteiro. — Isadora, você é minha vida e minha fraqueza. Essas duas coisas juntas dão r**m. Por isso eu reforço a casa. E por isso eu te peço: não me testa num dia como hoje. — Eu não quero testar — falei, e as palavras vieram quentes. — Quero existir. Três horas com uma máscara, dançando sem sobrenome, não é uma traição. É fôlego. Ele fechou os olhos por um segundo. Ao abrir, havia cansaço ali. — O morro não esquece quem você é quando a música para. — Eu também não — respondi. — E é por isso que eu voltei inteira. Silêncio. Latidos ao longe. Ele passou a mão na barba, pesado. — Sabe o que mais me inquieta? — perguntou, baixo. — Tem alguém por dentro que me entrega pedaços do meu próprio teto. Ontem à noite, antes de você subir, eu recebi um recado que eu não pedi. — Ele deu meio sorriso, sem humor. — “Te vejo.” O sangue sumiu das minhas mãos. Ele não sabe quem mandou — e eu também não —, mas alguém viu. Um eco percorreu meu corpo: mensagem seca, duas palavras, cerco sem grito. — E você? — arrisquei. — Viu? — Eu vejo sempre — ele disse, e por um instante não falou como o dono do morro; falou como um homem que tem medo. — É assim que se fica vivo. Vai pro teu quarto, estuda, não sai. Célio vai rodar a casa hoje de hora em hora. Qualquer coisa, grita antes de pensar. Saí com o terço prendendo minha respiração. No corredor, encostei a testa no vidro e deixei a vista da ladeira me atravessar. O dia estava bonito demais para dentro de mim. Tainá mandou uma mensagem, curtinha, nossa senha de sempre: “Respira.” Respondi: “Respiro.” E desliguei. Modo avião de novo, por reflexo. Queria calar o mundo para ouvir meu peito. Tentei estudar. A professora Leda mandou um texto sobre cidadania e escolha; eu sublinhei “liberdade é contrato de risco” e imaginei a máscara de renda prendendo meu cabelo num melhor lugar do que qualquer grampo. A lembrança dele — o olhar que me achou — empurrou a janela para dentro. Sedução sem barulho, respeito que esquentava a pele de longe. Eu quis. E o querer, em casa, é sempre interrogado com dois agentes: culpa e medo. Bateram à porta. n**o Célio. — Só passando — ele disse, o rádio chiando no ombro. — A casa hoje é casamata. — Obrigada, Célio. — Fica viva e quieta — recomendou, e fui capaz de sorrir. Quando ele desceu, abri a gaveta para guardar a caneta e vi o envelope pardo onde Tainá deixou o primeiro convite. Minha mão foi sozinha; toquei o papel como quem toca um altar. Fechei, recolhi a mão, voltei para o caderno. O celular, no criado-mudo, vibrou. Olhei o ícone. Modo avião desligado. Não lembro de ter tocado. Talvez minha mão, tremendo, tenha roçado o atalho. Talvez a vida tenha decidido me testar como meu pai pediu que eu não o testasse. A mensagem abriu sem que eu tocasse em nada. Número desconhecido. Duas palavras, outra vez: Te vejo. O ar ficou curto. A pele arrepiou como na laje, mas agora era frio. Eu estava dentro do meu quarto, porta fechada, sem câmera, sem janela aberta, sem espelho de frente para a rua. Alguém por dentro sabia onde eu estava agora. Não era alerta genérico; era pulso. Os latidos do morro subiram de tom. Eu fiquei imóvel, telefone na mão, como se qualquer movimento confirmasse ao emissor que eu tinha lido, que eu existia exatamente onde ele dizia. Dona Nilda apareceu na porta com o prato do almoço e achou meu rosto de quem viu fantasma. — O que foi, menina? — Fantasma com chip — respondi, a voz falhando. Mostrei a tela. Ela entendeu sem entender. Apertou minha mão para firmar minha realidade. — Desliga. — A ordem dela foi mansa e imperativa, mistura rara. — E guarda o medo onde ele não te manda. A gente pensa melhor sem sirene. Desliguei. Guardei o aparelho na gaveta e sentei na cama com o prato no colo, sem fome. Minha cabeça corria mapas: quem, onde, por quê. A cozinheira nova? O segurança da escada? O motorista que nunca olha na minha direção? Eu não queria desconfiar de ninguém. Mas a mensagem não me dava escolha. — Você não é seu pai — Nilda repetiu, a voz de sempre. — Mas você herdou o faro. Usa ele para se proteger, não para se prender. Abracei as pernas. A culpa veio, sentou do meu lado e esperou. O arrepio do quase-encontro acendeu do outro lado, teimoso, lembrando que eu existia antes do medo. Entre um e outro, o morro latiu outra vez. Eu respirei até o peito parar de fazer barulho. Quando Célio bateu de novo, para a ronda, respirei com ele o que eu tinha decidido: — Eu não vou fugir de mim — falei, baixo, para o terço, para a Nilda, para a menina que dançou com máscara. — Mas eu vou aprender a casa como ele aprendeu o morro. A mensagem “Te vejo.” ficou gravada por trás dos olhos. E, como todo latido de alerta que importa, ela virou regra: alguém dentro desta casa está reportando cada passo. Eu só não sabia quem — ainda.
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