Beatriz
Eu tinhas tantas coisas pra começar a preparar, mas as únicas coisas que passavam na minha cabeça eram as palavras da minha mãe. Sobre todas as coisas que já aconteceram na minha vida, antes mesmo de eu nascer, sobre o meu avô, sobre as mentiras que me cercaram a vida toda, o meu casamento que é o grande problema.
Joca não é o certo na história, mas eu não sou a errada, de todas as coisas ruins que aconteceram na minha vida, eu sou a vítima e não a culpada, não tenho culpa do sangue que carrego em minhas veias, do sangue nas mãos da minha família e das coisas que me foi escondido. Eu sou responsável por apenas uma coisa, pelo amor que eu escolhi viver, assim como minha mãe foi responsável por escolher amar o meu pai e se casar com ele, mas o sangue do meu tio não está nas mãos dela e sim do seu pai, foi ele quem quis acabar com tudo isso. Não foi uma consequência da escolha que ela fez, não é como se alguém pudesse ter o poder de decidir o que é certo ou errado na vida de outro alguém.
— No que você está pensando? — ouço a voz do Joca perguntar. Eu nem percebi que ele estava em casa já.
— Oi, eu nem te ouvi chegar. — falei e me coloquei de pé, lhe dei um beijo rápido e ele ficou me olhando com aqueles olhos brilhantes tentando desvendar os meus pensamentos.
— Vai me contar? — ele perguntou e afastou delicadamente meu corpo do dele.
— Te contar o que? — perguntei.
— No que você estava pensando quendo eu cheguei, era como se não estivesse aqui. — ele disse.
E acho que realmente eu não estava. Joca não sabe sobre a minha briga com a minha mãe, eu não quero que ele se sinta culpado por tudo isso, não mais do que ele já se sente normalmente.
— Nosso casamento. — odeio mentir, mas é o que eu faço.
— Hm. No que exatamente? — ele pegunta e tira o seu paletó, depois tira a gravata e a única coisa que eu consigo ficar é o quanto ele fica gato quando está sério e se despindo.
— O quanto você vai chorar quando me ver entrar. — falei e ele deu uma risada irônica.
— Por que você acha que eu vou chora? — ele perguntou e começou a desabotoar a camisa.
— Ah porque você vai, se não derramar nenhuma lágrima, eu não me caso. — falei rindo e caminhei até ele. Comecei a ajudar ele a abrir os botões da sua camisa.
— Você sabe que eu consigo abrir sozinho, né? — ele perguntou com aquele olhar.
O mesmo olhar que ele me olhou na balada, quando nos vimos na primeira vez.
— Eu sei, mas nós dois sabemos que eu faço isso melhor que você. — falei e beijei seu pescoço. Ele soltou uma risada.
— Eu vou tomar banho, estou cansado. — ele disse afastando o meu corpo levemente.
Ele pegou o seu paletó e foi pro nosso quarto. Fiquei olhando aquele bela b***a dentro da calça social passar pela nossa sala de jantar e depois cruzar o corredor em direção ao nosso quarto. Ainda bem que esse homem é meu, porque eu percebi que eu mataria pra ter ele na minha vida.
Ouço o meu celular tocar, então vou até ele e atendo sem olhar o nome.
Ligação on
— Alô? — falei
— ...... — ninguém disse nada, mas havia uma respiração.
— Mãe? — perguntei.
— Não querida, mas você chegou perto. — A voz masculina disse.
— Quem está falando? — perguntei um pouco assustada. — Alô?
— Não se preocupe, em breve você saberá. — a voz disse.
Ligação off
A pessoa do outro lado pois fim na ligação. Tudo em mim estava arrepiado. O número estava como desconhecido. Mas eu sabia que não podia ser coincidência, ou um desconhecido ligando errado. Ele parecia saber quem eu era, o que me deixou ainda mais com medo. Uma parte de mim queria correr para dentro do banheiro e contar pro Joca o que acabou de acontecer e ver ele entrar dentro de um carro e ir atrás do hacker que trabalha pra ele e fazer ele achar esse número, mas outra parte de mim resolveu deixar isso pra amanhã, eu não quero estragar a noite dele e muito menos a minha que já foi meio estragada pelos meus pensamentos a 20 minutos atrás quando eu ainda estava sozinha nesse apartamento.
Fui fazer o nosso jantar. Joca saiu do banho e vestiu uma calça do pijama, as vezes ele acho que ele é inimigo da camiseta, ou ele está usando uma camisa social ou então não está usando nada, eu ainda tenho tantas coisas pra desvendar sobre ele, parece uma mapa antigo que foi perdido e que em algum lugar esconde algo muito valioso.
— Está tudo bem mesmo? — Joca perguntou me encarando. Ele estava com o corpo debruçado em cima do balcão de mármore da nossa cozinha.
— Está tudo bem querido. Estou com a cabeça cheia de coisas, apenas isso. E agora tem a minha procura por um emprego, só isso. — falei e ele fez uma cara feia.
— Você sabe que não precisa trabalhar. — ele disse e roubou o brócolis do escorredor de verduras.
— Eu levei 4 pra me formar em uma faculdade João, fiz um intercâmbio, tive que aprender a lidar com pessoas e fazer contas em inglês, não nasci pra ser a esposa troféu. — falei e ele caiu na risada.
— Tudo bem, você quer um emprego, eu posso te dar um, na empresa da família. — ele disse com o seu tom de deboche.
— Você acha que tenho cara de mulher de escritório de droga João Carlos? — perguntei e revirei os olhos. Ele continuou rindo.
— Não vou te colocar pra trabalhar no nosso escritório, até porque... — ele começou a dizer e deu a volta no balcão.
— Até por que? — perguntei e senti o calor do seu corpo próximo ao meu.
Ele colocou o meu cabelo de lado, suas duas foram para o meu quadril, eu senti a sua respiração no meu pescoço. Tudo em mim arrepiou. Ele sabe como me fazer perder o ar.
— Até porque seria impossível a gente trabalhar um minuto sequer... — ele disse baixo no meu ouvido e colocou sua mão por dentro da minha calça.
— Querido, é hora do jantar e no caso a comida não sou eu. — falei e afastei o seu corpo do meu e virei pra olhar pra ele.
Ele estava com aquele olhar malicioso de novo, mas um sorriso de lado logo surgiu em seu rosto, então eu fiquei na ponta do pé e dei um beijo na ponta do seu nariz.
— Vá lavar as mãos e me ajude a colocar a mesa. — falei e depois dei um beijo no seu ombro voltando a ficar na minha altura normal.
Ele não disse nada, apenas fez o que eu pedi. Desde quando eu fui embora, ele tem estado muito compreensivo e calmo, na verdade desde o seu acidente, mas depois que a sua memória voltou, eu não achei que ele ficaria assim, achei que ele voltaria ser o antigo João Carlos, aonde apenas as escolhas dele valem. Mas agora eu vejo que ele está se esforçando tanto quando eu para que as coisas sejam diferentes para nós dois. Chega de disputa de força, razão ou poder, queremos uma coisa em comum, amar e ser amados e acho que também não sermos como os nossos pais, acho que esse com certeza é o que mais pesa para ambos.
Depois que colocamos a mesa do jantar, nos sentamos, ele me pediu pra falar sobre as coisas do casamento, eu disse a ele que eu ainda ia me encontrar com a mãe dele, mas que eu ainda preferia fazer isso depois da minha formatura, mas que tínhamos algumas coisas em mente.
— Eu queria que você pudesse escolher as coisas comigo. — falei.
— Difícil, você sabe como ele anda pegando no meu pé... — Joca disse encarando o prato.
— Podemos fazer isso em casa, quando você não estiver tão cansado. — falei.
— Tudo bem, você traz as coisas que você mais gostar e escolhemos juntos, mas eu quero participar da prova da comida, essa data aí ninguém tira de mim. — ele disse rindo.
Fiquei olhando pra ele, enquanto ele mexia na comida e fala sobre os doces e o bolo do nosso casamento.
— O que foi? Por que está me olhando assim? — ele perguntou franzindo a testa.
— Porque você está tão animado quanto eu e isso é o que torna tudo mais especial. — falei.
Ele encarou o preto em silêncio, mas eu pude ver um grande sorriso surgir no seu rosto. E de alguma forma eu entendi o que ele quis dizer, mesmo sem usar palavras.
Depois do jantar ele lavou a louça e eu guardei, depois fomos fazer o que mais gostamos de fazer juntos a noite.
Sexo?
Também!
Mas maratonar série que quase sempre nunca terminamos, ele é bom em descobrir e eu sou boa em dormir na maioria dos episódios. Enfim o nosso equilíbrio.