Capítulo 7

1471 Palavras
Apolio A noite estava fria, mas a água morna da piscina contrastava com o vento cortante que passava pelo jardim. Meus pés estavam dentro d’água, movendo-se devagar, e Charlotte estava ao meu lado, quieta pela primeira vez desde que nos sentamos ali. Depois da confusão com Josh, ninguém mais nos procurou. Talvez estivessem ocupados demais tentando salvar a reputação da família para se preocuparem com a m***a que ele fez. Melhor assim. Charlotte jogou a cabeça para trás, encarando o céu cheio de estrelas. — Você quebrou o nariz dele? — Ela perguntou de repente, sem me olhar. Dei um pequeno sorriso, satisfeito com a lembrança. — Não que eu saiba, mas espero que sim. Ela soltou um suspiro e abraçou os próprios joelhos. — Sabe o que é mais engraçado? — O quê? — Eu sabia que ia terminar assim. Eu sempre soube. Não precisei perguntar o que ela queria dizer. Fiquei olhando para o reflexo da lua na piscina, esperando que ela falasse no próprio tempo. — Eu cresci com Josh. Desde criança, eu estava lá. Ele era meu primeiro amigo, meu primeiro beijo, minha primeira decepção… — Ela soltou uma risada curta, sem humor. — Eu deveria ter percebido antes. Ele nunca foi realmente meu, foi? Não respondi. Porque a verdade não precisava ser dita. Josh nunca pertenceu a ninguém além dele mesmo. Charlotte respirou fundo e virou-se para mim, mudando de assunto abruptamente. — E você? Ergui a sobrancelha. — O que tem eu? Ela inclinou a cabeça para o lado, me analisando. — Por que diabos você ainda está casado com Clair? Fechei os olhos por um instante. Ela realmente queria começar esse assunto agora? — Charlotte… — Não vem com desculpa. — Ela me cortou. — Não me diz que é por aparência ou por conveniência. Eu quero saber a verdade. Suspirei, mergulhando uma das mãos na água para manter minha paciência sob controle. — A verdade? — Sim. Fiquei em silêncio por um tempo antes de responder. — Eu estou preso a Clair. Charlotte franziu a testa. — Preso? Como assim? Dei de ombros, sem tirar os olhos da água. — Ainda não sei como sair disso. Ela me observou por um momento antes de continuar. — Mas você não ama Clair. — Claro que não. — Soltei uma risada seca. — E ela também não te ama, certo? Me virei para Charlotte, e por um momento, vi a sinceridade real em seus olhos. Ela não estava perguntando para me testar. Ela queria entender. Então decidi dar a resposta que ninguém nunca ouviu. — Não. — Balancei a cabeça. — Clair não me ama. — Então por que ela insiste? Suspirei. — Porque quem ela realmente quer… está longe de querer ela. Charlotte piscou, surpresa. — Você tá dizendo que… — Que Clair só está aqui porque quer provar um ponto? — Completei sua frase. — Sim. Exatamente isso. O silêncio se instalou entre nós. Charlotte puxou os próprios cabelos para trás, prendendo-os em um coque bagunçado. — Isso é ridículo. — Bem-vinda ao meu inferno. Ela ficou quieta por alguns segundos antes de falar novamente. — Então por que ninguém pode saber que o casamento é falso? Olhei para ela, vendo que a resposta já estava ali. — Porque Clair não pode sair como a rejeitada. Charlotte soltou um riso irônico. — Ah, claro. O orgulho acima de tudo. — Exato. Ela balançou a cabeça, incrédula. — Isso é patético, Apolio. — Diga algo que eu não saiba. — Por que você simplesmente não acaba com isso? Suspirei e olhei para frente, como se a resposta estivesse no fundo da piscina. — Porque Clair não facilita. Charlotte ficou em silêncio por um tempo. — Se você pudesse voltar no tempo… Virei o rosto para ela. — O que faria diferente? A pergunta me pegou desprevenido. Fiquei encarando Charlotte por um tempo, pensando. Depois de alguns segundos, apenas soltei uma risada curta e amarga. — Não teria entrado nesse carro para Las Vegas. Charlotte sorriu. — Boa escolha. E ali ficamos. Dois perdidos, olhando para a água, tentando entender como diabos nossas vidas tomaram esses rumos tão fodidos. Luísa Nova York era um caos organizado. E eu adorava isso. Quando o avião pousou e eu finalmente pisei em solo nova-iorquino, uma onda de excitação misturada com nervosismo tomou conta de mim. A cidade me recebeu com suas luzes brilhantes, seus táxis amarelos correndo pelas ruas e um som constante de buzinas e conversas apressadas. Estava finalmente aqui. Estava finalmente livre. O apartamento dos meus pais era exatamente como eu lembrava: luxuoso, enorme e impessoal. Mas agora, ele não seria apenas um lugar de passagem. Agora, era meu lar. E eu dividiria isso com Ashley, o que fazia tudo ser ainda mais perfeito. — A vista disso aqui é de cair o queixo! — Ashley exclamou, jogando sua mala no chão da sala e correndo até a varanda. A segui, e meu coração acelerou quando meus olhos encontraram a imensidão do Central Park bem à nossa frente. O apartamento era um dos dois únicos do último andar, o que nos dava privacidade e exclusividade. Minha mãe sempre teve um gosto impecável, e o espaço estava completamente mobiliado, com sofás aconchegantes, tons neutros e uma decoração minimalista. Era surreal saber que essa agora era minha realidade. — Ok, primeira coisa: — Ashley girou nos calcanhares, me encarando com animação. — Vamos arrumar nossas roupas e depois sair para explorar essa cidade inteira! — Nem dormimos direito e já quer rodar Nova York? — Ri, mas já estava animada. — Óbvio! — Ela me puxou pelo braço. — Você já esteve aqui antes, mas faz tempo! E eu sou praticamente uma turista. Não podemos perder tempo! Não discuti. A empolgação dela era contagiante. Passamos as próximas horas desfazendo as malas, dobrando roupas e organizando cada canto do apartamento. Quando terminamos, finalmente saímos para caminhar pela cidade que nunca dorme. Cada rua, cada esquina de Nova York parecia pulsar com vida. Andamos o máximo que conseguimos, parando para tirar fotos, provar comidas aleatórias e rir de tudo. Mesmo eu já tendo vindo algumas vezes, havia algo mágico em estar aqui sem horário para voltar, sem obrigações, sem ninguém para controlar o que eu fazia. — Me belisca, Lu. — Ashley sussurrou enquanto atravessávamos a Times Square. — Por quê? — Porque eu acho que isso tudo é um sonho. Sorri, segurando sua mão por impulso. — Se for, nunca me acorda. Finalizamos nosso passeio em um café pequeno e charmoso, com luzes penduradas no teto e um aroma delicioso de café moído na hora. Sentei-me com um capuccino quente nas mãos, sentindo o calor da bebida contrastar com o frio do início da noite. Tudo parecia perfeito. Até que meus olhos encontraram um rosto familiar. Apolio. Ele estava do outro lado da rua, entrando em um prédio alto de vidro. Meu coração deu um salto inesperado, e antes que eu percebesse, minha mente já estava viajando para trás no tempo. Lembrei-me do dia em que ficamos sentados no sofá. Do jeito que ele me olhava, como se tentasse entender algo sobre mim que eu mesma não sabia explicar. Lembrei-me do terraço. Do momento em que voltei e ele já tinha ido embora. Por algum motivo, aquela noite nunca saiu da minha cabeça. — Terra chamando Luísa? A voz de Ashley me trouxe de volta, e percebi que estava olhando fixamente para o prédio onde Apolio entrou. Engoli seco e voltei os olhos para minha xícara, tentando agir normalmente. — Você estava encarando aquele prédio como se ele fosse explodir. — Ashley zombou, cruzando os braços. — Tem alguma coisa que eu deveria saber? — Não é nada. — Sorri sem graça. — Só me distraí. Ashley me lançou um olhar desconfiado, mas decidiu me poupar da investigação. — Então… você tá animada para começar na faculdade? Agradeci mentalmente pela mudança de assunto e assenti rápido. — Muito! m*l posso esperar para finalmente começar minhas aulas. Isso tudo ainda parece surreal. Ashley sorriu, animada com minha empolgação. Mas então, ela fez a pergunta que eu não queria ouvir. — E se você encontrar o Josh? Meu corpo congelou. Engasguei com o café. Ashley arregalou os olhos e estendeu a mão, batendo de leve nas minhas costas. — Ai meu Deus, calma! Depois de tossir e me recompor, coloquei a xícara na mesa com força. — Podemos falar sobre isso outra hora? Ela segurou a risada. — Claro, claro… — Mas o brilho em seus olhos dizia que ela não esqueceria dessa pergunta tão cedo. Suspirei e tomei mais um gole do meu capuccino. Era apenas meu primeiro dia em Nova York. E, de alguma forma, eu já sentia que as coisas estavam prestes a se tornar muito mais complicadas.
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