Sana's pov:
Nossos encontros se tornaram mais frequentes. Nossa ligação ficou mais forte porque foi isso o que escolhemos. Todos os dias depois da aula, eu esperava Dahyun na sala de prática instrumental com alguma peça para tocarmos juntas.
Mas as vezes eu pedia para que ela executasse alguma obra de Bethoveen para mim, porque gosto de assisti-la ao piano. As notas soam tão mais doces, tem tanta intensidade quando viajam através da sua performance para meus ouvidos. Seus movimentos ficam mais rápidas com a intensidade das músicas, e diminuem com as partes mais dramáticas e profundas.
Hoje eu estou no corredor, esperando o término de sua aula. Ela sai da sua sala alguns segundos depois, segurando algumas pastas em mãos e com uma mochila nas costas. Ela parece tão adorável com seu material e esse sorriso bonito.
— Oi. — Ela se inclina e deposita um beijo casto nos meus lábios antes de me entregar uma das pastas. — Vou precisar sair para um jantar em família hoje, mas consegui trabalhar um pouco na nossa composição.
— Você está confortável com isso? — Ela não tinha mencionado nada sobre essa reunião familiar durante o dia, por isso imagino que tenha sido algo programado de última hora.
— É só um jantar na casa da minha tia. Nada muito importante.
Escuto o que ela está dizendo, mas sei que sabe o quanto esses jantares em família tem sido desgastantes.
— Certo, mas se acontecer qualquer coisa, me mande mensagem.
Antes que ela possa responder, uma voz grita atrás de nós.
— Ei, Sana, estava te procurando.
Eu me viro e vejo Momo se aproximando. Ela não parece em nada com minha prima casual. Está com uma camisa social bem passada e seu cabelo está impecável. Seus olhos escuros voltam-se para Dahyun e, a princípio, ela parece surpresa ao vê-la do meu lado. Lentamente, seu rosto relaxa.
— É bom ver você, Dahyun. Minha prima aqui já disse que tem uma queda por você?
Dahyun sorri.
— É verdade?
— É. Um dia desses, eu entrei no quarto dela. Ela estava falando enquanto dormia, abraçando o travesseiro, chamando-o de Dahyun.
Meus olhos se arregalam e viro para ela.
— Isso não é verdade.
Momo assente com a cabeça.
— Acredite em mim, é sim.
Dahyun segura minha mão e dá uma risadinha. É bonitinho vê-la agindo assim; me faz querer beijá-la ainda mais.
— Por que você estava me procurando, Momo? — Pergunto, tentando mudar um pouco o rumo dessa conversa.
Ela olha para mim e sorri.
— Só queria te avisar que tenho uma reunião daqui a alguns minutos, o que significa que hoje vou estender meu horário aqui na faculdade. Então não me espere para o jantar.
— Tudo bem. Vou tentar sobreviver um dia sem suas iguarias culinárias — Sorrio, colocando a mão no ombro dela. — Se algo acontecer comigo, sinta-se responsabilizada.
Momo ri diante do meu comentário. Então seu telefone toca e ela pede licença para atendê-lo, deixando-me a sós com Dahyun.
— Já que você tem outros planos para hoje, vou usar esse tempo para ajudar meu primo com um de seus projetos. Você precisa que eu te acompanhe até o ponto de ônibus?
— Não. Minha mãe combinou de me buscar quando saísse do hospital. Na verdade, ela já deve estar me esperando no estacionamento.
— Certo. — Digo, colocando uma mecha de cabelo atrás da sua orelha e beijando a ponta de seu nariz. — Aproveite o seu jantar. E me mande uma mensagem quando chegar.
Eu sei que pode parecer bobagem, e sei que eu não deveria me preocupar, mas me preocupo. Dahyun me contou que vem convivendo com uma crise familiar desde o dia em que se assumiu. E que esses jantares sempre terminam com alguma espécie de discussão. Silenciosamente, eu peço para que corra tudo bem nessa reunião familiar de hoje.
— Tudo bem. Ah! Isto é para você. — Ela me entrega um pen drive, encaminha-se para a saída, e faz uma pausa, olhando mais uma vez para mim. — Assim você também pode me levar para a cama hoje. — diz, sorrindo.
— Sou mesmo uma garota de sorte.
Há uma última rodada de sorrisos antes de Dahyun se virar e caminhar em direção ao estacionamento. Eu me encosto na parede, e olho na direção dela, sentindo-me ainda mais apaixonada por ela naquele momento.
[…]
Às 23:30h, ainda estou sentada na minha cama, o notebook ligado a minha frente, trabalhando em um software de edição musical. Teoricamente, eu deveria estar dormindo, mas o sono não vem com facilidade há um bom tempo. E como amanhã é sábado e não tenho aula, resolvi embarcar de vez no meu projeto final.
Porém fico surpresa quando meu celular começa a vibrar sobre a cama. Só conheço uma pessoa que sempre está acordada a essa hora, independente de estar trabalhando ou não.
Minatozaki Tsukune, meu pai.
Não recebo notícias dele desde que me mudei para Seul há alguns meses. E mesmo que minha mãe tenha deixado claro para que ele me ligasse, não imaginei que de fato fosse fazer isso.
Fecho os olhos. Antes que possa me convencer do contrário, atendo a ligação.
— Oi, pai.
— Oi, Sana. — Ele diz. Engulo em seco. A voz é tão… familiar. Cortante, um pouco brusca e algo mais… Preocupada, talvez. — Você estava dormindo?
— Não. Estou fazendo algumas coisas para a faculdade.
Há uma longa pausa, como se ele esperasse que eu dissesse mais alguma coisa.
— Estou no teatro.
— Eu sei, pai… É, eu sei.
Morei com esse homem por dezenove anos e todos os verões depois disso. Meio que conheço a rotina. Café. Academia. Café. Trabalho. Mais trabalho. Às vezes jantar. Trabalho. E tudo de novo.
— Estou trabalhando em um novo musical. Precisei fazer alguns testes para o elenco, mas agora já posso dar andamento ao cronograma. Ele deve estrear no próximo mês. — Ele diz, quebrando o silêncio desconfortável que havia retornado. — Você pensa em passar suas férias de verão aqui em Osaka? Talvez possa assistir uma noite de espetáculo.
— Ainda não decidi. — Digo. A verdade é que eu nem mesmo tinha pensado a respeito disso. Mas talvez não seja uma ideia tão r**m. — Aviso quando tiver uma resposta.
— Certo.
Estou prestes a perguntar como ele anda… como anda a família de Bang Chan, já que meu pai é bem próximo dos pais do meu amigo. Estou prestes a perguntar como minha antiga vida anda, mas ele vai direto ao ponto. Meu pai sempre foi assim. Sem enrolação, ainda que as coisas fiquem desconfortáveis.
— Você está bem, Sana? — Ele pergunta.
Me jogo na cama. Levo um braço aos olhos, deixando o cotovelo dobrado acima deles. O tom firme em sua voz faz com que eu me sinta uma menina de novo.
— Sua mãe me contou o principal motivo de você ter se mudado para Seul. Está sendo mais fácil lidar com as coisas por aí?
— Estou tentando — digo, com a voz um pouco áspera.
— Você sabe que eu geralmente não me oponho a suas decisões, mas se as coisas estiverem complicadas por aí, talvez seja melhor voltar para casa.
Minatozaki Tsukune pode não ter sido o melhor pai do mundo. Ele trabalha demais, não é muito presente, as vezes vem com cobranças… Mas ele também fica orgulhoso com minhas conquistas, apoia minhas decisões e me aceita exatamente como sou. Ele é meu pai. E se preocupa comigo.
— Sana?
— Oi — digo, percebendo que estava divagando.
— Perguntei se você ainda está fazendo fisioterapia.
Sorrio ao ouvir isso. Sabia que ele iria perguntar. Nesse aspecto, ele e minha mãe são bem parecidos. Esfrego o nariz, sabendo que é uma pergunta importante.
— Estou — digo com um tom de voz baixo. — A mãe de uma amiga é médica, ela está cuidando do meu caso pessoalmente. Na verdade, devo ter uma alta definitiva em breve.
— Ótimo. Tenho que desligar agora, mas se precisar de alguma coisa, me ligue.
— Tudo bem.
Coloco o celular de lado e deito a cabeça sobre as mãos, pensativa.
[…]
Na madrugada, 02h45 da manhã, meu celular começa a tocar. Gemo e estendo o braço para pegá-lo.
— Alô? — Respondo com a voz sonolenta e falhando.
— Ei, Sana, é a Lisa. Sei que você disse não ter interesse na festa da Jennie, mas meio que seu primo está por aqui. E ele me pediu para te ligar. — Ela parece tão distante pelo telefone, tão longe da realidade. Queria que essa situação não fosse familiar. Porque foi uma situação assim que mudou minha vida completamente.
— O que Yuta foi fazer aí? — Pergunto, jogando as cobertas de lado e levantando da cama.
— Acho melhor você perguntar isso a ele.
— Me passa o endereço.
O fato do meu primo ter ido para essa festa quando deixou claro que não simpatizava com a anfitriã da casa me intriga. Fico me perguntando o real motivo por trás da sua atitude enquanto visto uma calça, brigo com uma camisa e arrumo os cabelos.
Tomo o cuidado de fazer o menor barulho possível enquanto saio de casa e chamo um táxi. Poderia pegar o carro de Momo emprestado, mas não pretendo cometer o mesmo erro uma segunda vez.
[…]
Quando chego ao bairro de luxo onde Jennie mora, não é muito difícil localizar sua casa. Espiando pelas janelas, vejo um grupo de pessoas da faculdade bebendo, dando uns amassos e fazendo tudo o que se espera de uma festa de universitários.
A maneira ridícula como a maioria se comporta deixa claro que essa é a última coisa que eu devia estar fazendo, mas toco a campainha mesmo assim.
Jennie abre a porta usando um dos seus vestidos de grife.
— Sana! — Ela grita, sorrindo; talvez as coisas estejam bem mais animadas do que imagino. — Que bom que você está aqui!
— Só vim pegar meu primo — Digo, olhando por cima do seu ombro. — Lisa me ligou e disse que ele estava por aqui.
Ela dá uma risadinha.
— Claro. Mas se quiser ficar um pouco, tenho certeza de que não vai se arrepender.
Jennie me guia pela casa onde todas as pessoas populares da faculdade estão se divertindo, bebendo ou se agarrando. Ainda não consigo localizar o i****a do meu primo.
Do nada, uma garota visivelmente alterada se aproxima de mim e dá um tapinha no meu ombro.
— Acho que a gente não se conhece — ela diz, com uma cerveja nas mãos. — Meu nome é Jeon Somi. E você é?
— Minatozaki Sana — respondo, abrindo meu famoso sorriso falso.
— Vamos pegar uma bebida para você, Sana — ela sugere, empurrando-me para a cozinha.
Balanço a cabeça.
— Obrigada, mas eu não bebo.
— Você não bebe?
Ela ri e toma um gole da cerveja antes de jogar a lata com desdém no chão.
— Você é engraçada. Gosto disso. Mas sabe uma coisa que eu não gosto? Não gosto de ver você brincando com os sentimentos da Dahyun. Está vendo aquele garoto ali?
Ela aponta para um garoto conversando com uma garota.
— Aquele é um dos meus amigos, Taehyung. E como ele é irmão de Dahyun, ela é bem próxima de mim. O que significa que ela também é bem importante para mim. Então fique sabendo que se você magoá-la, eu vou…
— Somi — diz um garoto, aparecendo atrás dela. — Você está bêbada.
Ele suspira com força. Então ela se vira para ele e abre um grande sorriso.
— Porque a surpresa, Taemin? Estamos numa festa. Só pessoas sem graça não bebem numa festa. Na verdade, elas nem deveriam comparecer.
Taemin sorri para mim como quem pede desculpas.
— Talvez você devesse tomar um pouco de ar fresco, Somi — ele sugere.
Ela sorri com desdém.
— E deixar você aqui com essa garota gata? Foi assim que você a chamou, não foi? A estrangeira gata? Como se você já não tivesse namorada, droga.
Ela está alterando o tom de voz e soa como uma grande babaca.
— Acho que já chega, Somi. Você está agindo como uma i****a — ele sussurra.
— Que seja, Taemin. Talvez você também esteja precisando de uma bebida. Acho que só assim para você deixar de ser tão sem graça.
Ela vai para o outro lado da sala, onde há um grupo de pessoas bebendo. Taemin passa as mãos nos cabelos, constrangido.
— Desculpe. Ela não é sempre assim. Só quando bebe.
— Não tem problema. Às vezes o álcool consegue transformar as melhores pessoas em babacas.
Ele franze a testa.
— Exatamente. Enfim, eu gosto da maneira como você trata Dahyun.
— Ela é especial. — Digo, querendo estar com ela e não nessa festa.
— Ela é. Mas, na verdade, vim aqui dizer que Yuta está quase totalmente embriagado na cozinha.
Meus olhos focam a cozinha, e vejo Yuta largado em uma das cadeiras. Seu cabelo está meio bagunçado, a camisa coberta de manchas de bebida, e eu nunca vi alguém tão desolado em uma festa.
Passo pela multidão de corpos na sala de estar e agarro Yuta pelo braço, arrastando-o dali para me assegurar de que ele não vá perder a cabeça completamente. De início meu primo parece surpreso ao me ver, em seguida seu rosto suaviza.
— Você não contou para Momo sobre isso, né? — Ele pergunta com a voz um pouco arrastada. — Ela não pode saber, Sana. Vamos acabar discutindo se…
— Eu não contei. Agora posso saber o que você está fazendo aqui? — Questiono. — Pensei que não gostasse de andar com essas pessoas.
— E não gosto. Mas gosto do Sicheng. E lugares como esses são as únicas chances que eu tenho de encontrá-lo.
Passo a mão nos cabelos e respiro fundo.
— Esse Sicheng é o garoto com quem você estava tendo um lance?
— Exato. Um amigo me mandou uma mensagem dizendo que ele estaria aqui. — Ele precisa de um bom esforço para focar a visão, mas, quando consegue, murmura: — Achei que seria uma boa oportunidade para conversarmos.
— Yuta, você tem certeza de que quer continuar fazendo isso? — Pergunto, sabendo que seguir por esse caminho não é uma boa ideia.
Ele se vira para mim, e pela duração de um respiro parece totalmente sóbrio — nesse mesmo instante somos atingidos pela consciência de nossa situação absurda, incompreensível. Então ele fecha os olhos e começa a chorar silenciosamente. Nem preciso dizer o quanto vê-lo assim parte o meu coração. Preciso segurar seu braço para que ele não tropece e caia no chão. Yuta controla-se de novo, então, sem aviso, ele para e me encara.
— Ele disse não para mim! Dong Sicheng me rejeitou! — Ele grita. E agradeço pela música alta e pelo fato das pessoas estarem embriagadas demais para ver seu vexame. — Mas agora eu… eu vou partir para coisas melhores. Eu sou uma pessoa popular, afinal.
— Tá bom, Sr. Popular. Vamos embora — murmuro, apoiando seu corpo enquanto andamos pela casa.
Quando estamos saindo, algumas pessoas que estão na cozinha começam a gritar. Então todas saem correndo para a sala, onde um garoto está sendo jogado em cima da mesa de centro. Outro garoto voa para cima do que está caído e começa a esmurrá-lo sem parar, golpeando várias vezes enquanto todos gritam, incluindo Yuta.
— Acaba com ele, Taehyung! — Ele grita para o garoto envolvido naquilo.
Levo alguns segundos para perceber que é o irmão de Dahyun que está dando os murros e levando outros no rosto.
— Chama minha irmã assim de novo! Anda, repete, seu babaca! — Taehyung diz, atingindo a mandíbula do rapaz. Taemin vai correndo até lá e tira Taehyung de cima dele.
Seus olhos estão descontrolados de raiva, e ele olha para Taemin uma vez antes de se afastar, fervilhando de ódio. Respiro fundo, puxando Yuta e finalmente conseguindo sair dessa casa.
Que noite maravilhosa.