Dahyun's pov:
Quando a aula de prática instrumental termina, olho para Sana, que está a poucos metros de distância. A turma se retira rapidamente, mas faço questão de permanecer sentada ao piano, afinal pretendo tocar a Sonata n° 5 com minha parceira de trabalho. Nós havíamos conversado sobre isso na hora do almoço e decidimos praticar o dueto ao fim da última aula do dia.
— Então, podemos fazer isso, Dahyun? — Sana pergunta, aproximando-se. Seus olhos encontram os meus e ela sorri. — Sabe, não quero levar outra broca hoje.
— Sana — respondo, suspirando. — Você está tentando me irritar de novo?
Na verdade, ela não está. Eu gosto disso nela.
— Mas se você está tão interessada assim nesse dueto, tudo bem. — Digo, tentando conter o sorriso em meu rosto.
Repouso as mãos sobre as teclas frias do piano enquanto respiro fundo. Parte de mim quer impressioná-la. Quer que ela saiba do que sou capaz.
Ao meu lado, Sana afina o violino com maneirismos que já me parecem estranhamente familiares. Então ela o posiciona sob o queixo. Meu coração acelera no peito e, quando ela olha para mim, o ritmo cresce, transformando-se em fogo.
Fazemos a contagem regressiva, então a música parece fluir dos instrumentos para a sala, como uma correnteza inundando a nós duas. A parte mais grave da melodia é uma simples repetição, algo que me vem naturalmente. Eu já havia tocado dueto com outros professores antes, mas com ela é diferente.
Sana desliza o arco sobre as cordas e com a mão esquerda sustenta o violino como se este fosse sua amante, e, quando olha para o lado, encontra meu olhar. Não o desvio, eu não posso. No fundo, eu me sinto cem por cento bem por estar presa em seus olhos.
Ela esboça um sorriso enquanto toca. Isso me faz sorrir.
Meus olhos se afastam dos dela, desviando-se para as teclas do piano. A tonalidade rosada em meu rosto me causa um enorme constrangimento. Mantenho os olhos abaixados, focando no movimento das minhas mãos sobre as teclas. Então me entrego, acompanhando o seu ritmo.
A exuberância dos acordes me dá a sensação de algo muito distante que de repente está próximo de novo, e sou sufocada pela sensação de um jeito que me faz tentar sorver a melodia, respirá-la.
Quando a música termina, afasto os dedos do teclado e fecho os olhos, absorvendo o silêncio.
— Eu sabia que os boatos sobre suas habilidades no piano eram reais — Sana comenta, transportando-me de volta a realidade.
É impossível segurar o sorriso quando olho por cima do ombro.
Ela abre um sorriso gentil, que se estende até estreitar os olhos. Em uma fração de segundo, a sala de aula e todos os meus problemas desaparecem e somos apenas nós duas.
Sana facilita tudo. Com ela, é fácil não me importar com coisas prejudiciais.
[…]
Para o jantar de hoje, Taehyung convidou os irmãos Jeon para tentar evitar que meu pai saia da sala zangado e revire os olhos para mim de decepção. Minha mãe preparou um dos seus pratos preferidos: Japchae.
Antigamente, toda vez que Somi e Jungkook nos visitavam, Somi sempre terminava indo para o meu quarto enquanto os garotos jogavam videogame. Nós duas conversávamos sobre minha música e a arte dela. Agora é extremamente constrangedor vê-la sentada a alguns centímetros de mim.
Faço o que posso para não olhar para Somi, mas consigo sentir seu olhar em mim.
Que coisa mais constrangedora.
Por que ela achou que não teria nenhum problema jantar na minha casa?
— Então, meu estágio na PKM Gallery está indo bem — Somi diz, servindo-se de sua bebida. — Vou ser oficialmente contratada a partir da próxima primavera.
Meu pai alegra-se como se fosse o sucesso do próprio filho.
— Não acredito. Isso é verdade?
Somi assente com a cabeça. Ela vai estar trabalhando para uma importante galeria, e eu tenho certeza de que Jungkook já está preocupado com a diferença de status entre ele e a irmã, pois ao que parece ele ainda não conseguiu nenhuma oportunidade profissional de peso. Mesmo assim, ele sorri, como se estivesse tão orgulhoso quanto meu pai.
Mesmo que Somi não tivesse conseguido essa oportunidade por causa do estágio, tenho certeza de que ela teria conseguido por algum outro motivo. Somi é a melhor aluna do seu departamento e será a oradora. Ela e Taehyung estão em um nível bem parecido no meio acadêmico — Taehyung talvez até seja melhor do que Somi, na verdade —, mas no mundo profissional eles estão em áreas de atuação bem diferentes.
— Bem, acho isso maravilhoso, Somi. Você trabalhou duro por isso e merece todo sucesso — diz minha mãe.
Somi sorri e agradece.
De vez em quando, eu consigo sentir ela me encarando, mas eu m*l esboço alguma reação.
[…]
Depois do jantar, vou para o meu quarto e me jogo na cama. Meu desejo era apenas relaxar. Mas estou com os olhos bem abertos por causa do inconveniente de ter um dos meus problemas na sala de estar.
Sento-me na cama, olhando para as partituras sobre minha mesinha.
Eu odeio me sentir assim. Odeio o fato de que sua presença ainda me incomode tanto. Odeio que todos estejam conversando felizes na sala de estar enquanto eu estou aqui sentada na cama, pensando demais em tudo.
Somi abre a porta do meu quarto e fica parada no batente.
— Oi — ela diz.
Ela está com as mãos nos bolsos da calça jeans e se balança para a frente e para trás.
— Desculpe por ter vindo hoje, mas Taehyung insistiu para que eu e Jungkook viéssemos. Não queria que nada parecesse estranho, então achei melhor vir.
— Mas foi estranho. Está sendo estranho.
Ela suspira.
— A gente devia conversar.
— Sobre o quê?
— Sobre nós — ela diz timidamente.
Sinto uma tensão no pescoço e enterro as palmas das mãos nas laterais do colchão.
— Você disse que tinha terminado com seu namorado porque ele não conseguia te entender. Disse que a vida de vocês estava tomando rumos diferentes.
— E é verdade…
Ela baixa a cabeça como alguém que sabe o quanto está errada nessa história.
— Você não mencionou que voltaria para ele na menor oportunidade.
— Dahyun…
— Você entrou no meu quarto e me disse que Taemin tratava você com indiferença. Depois disse que sempre tinha gostado de mim. Passou as mãos no meu cabelo e me chamou de bonita. Você tocou em mim, beijou meu pescoço, minha barriga. E na semana seguinte eu te encontrei com seu namorado na faculdade.
— Eu não estava no meu melhor naquela noite — ela sussurra, ainda sem olhar para mim.
— Você disse que se importava comigo. Disse que não se importava com o que os outros pensavam. Era tudo um monte de mentira só para me levar para a cama?
— Não. É claro que eu me importo com você, Dahyun. Não tenho orgulho do que fiz, e nunca foi minha intenção magoar você.
— Somi, nós dormimos juntas. Depois, durante semanas, você fingiu que nunca tinha transado comigo e voltou com o Taemin. Isso sem contar sua atitude mais recente. Você é de fato a pessoa com o pior caráter que eu já conheci.
Ela não responde. Odeio o fato de ela colocar a culpa na situação em que se encontrava. Odeio o fato de ter permitido que ela me usasse. Odeio o fato de que ela pode andar pelo campus sem que ninguém saiba a verdade a respeito do que aconteceu entre a gente.
"Não é justo."
— E essa história entre você e Minatozaki Sana? — Ela pergunta do nada. — Vocês estão juntas ou algo assim?
Não respondo porque ela não tem o direito de me fazer essa pergunta.
Somi e eu estamos em situações completamente diferentes, apesar de nós duas termos compartilhado algo em comum. Ninguém olha para ela com repulsa na faculdade. Ninguém faz comentários homofóbicos ao seu respeito. Ela é praticamente como uma deusa na KArts.
— Desculpe — ela murmura, balançando a cabeça. — Tem alguma coisa nela da qual eu não gosto. Você não devia andar com ela. Não quero que se magoe.
Dou uma risadinha.
— Pode ir, Somi. E parabéns pelo emprego na PKM Gallery. Você vai ser uma excelente curadora de arte.
Depois que ela sai, eu me levanto, calço meus tênis e visto um casaco. Então desço as escadas e saio de casa pela porta dos fundos. Eu não estou raciocinando direito a ponto de ficar trancada no meu quarto ou encarar meus pais na sala de estar.
O frescor do ar de maio roça em minha pele enquanto caminho pelas ruas do meu bairro, mas não dou muita importância. Pego um atalho até o Yongsan Park, esperando encontrar um pouco de paz em meio ao turbilhão de emoções que estou sentindo. Porém muitas lembranças me invadem no momento em que chego ao bosque.
Em menos de um segundo, eu estou apoiando a cabeça em uma árvore. Sinto minhas mãos suando e meus olhos lacrimejando. Todas essas mudanças na minha vida mexem demais comigo. Todas as coisas antigas que haviam sido tiradas de mim. Não consigo respirar. Não consigo nem dar mais um passo. Eu me curvo, chorando.
O ar enche meus pulmões, mas eu não consigo expirar rápido o suficiente, então acabo soluçando com as lágrimas. Estou certa de que será apenas uma questão de tempo até que meu corpo desabe no gramado úmido. Meus joelhos começam a provar que minha previsão de desmaio está certa, mas, antes que eu possa cair, escuto uma voz ao longe.
— Ei, você está bem? — Uma voz suave e feminina sussurra enquanto se aproxima de mim.
Estremeço por dentro quando escuto seus passos. Vejo suas mãos se estendendo para mim e dou um salto de susto, sem querer que ela me toque. Ela deve ter notado minha reação e recua.
— Sinto muito — ela se desculpa, e eu dobro mais meus joelhos, aproximando-me do chão.
Quando encaro seu rosto, tudo congela. O mundo fica em silêncio, e eu estou olhando para os olhos castanhos que fazem o brilho das estrelas parecerem sem graça.
É Sana, e não posso evitar um pequeno suspiro.
— Não vou tocar em você, Dahyun — ela diz. — Não vou te machucar. — Há algo tão sincero em suas palavras que quase acredito nela. Ela faz questão de manter uma boa distância, mas ao mesmo tempo parece estar bem perto. Gosto de como parece próxima.
Eu posso sentir o cheiro suave de seu perfume, o que agrada os meus sentidos, me fazendo querer respirar mais fundo. Passo a mão na boca. Quando me acalmo um pouco, volto a ficar de pé.
Meus olhos voltam-se para o chão e a observo quando ela se levanta também. E me sinto uma i****a por estar assim na frente dela.
— Você está bem? — Ela questiona, mas a forma como a pergunta saíra de sua boca faz parecer mais uma afirmação.
Assinto com a cabeça, mas ainda sinto as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
— Estou bem.
Ela franze a testa e coloca a mão nos bolsos.
— Desculpa. Não tenho um lenço nem nada do tipo.
As lágrimas caem com mais força, provavelmente de vergonha.
Sana se aproxima, e eu dou um passo para trás. Ela vê minha reação e um forte sentimento de culpa toma conta daqueles olhos castanhos.
— Não vou machucar você, lembra?
Sua voz sai trêmula, com uma ternura que quase me faz querer olhar fundo em seus olhos, imaginando que posso ver a eternidade. Esta garota me faz sentir a eternidade, algo que nunca soube que podia ser sentido.
Ouvimos as respirações uma da outra, e ela não se mexe até que minha respiração volte ao normal.
— Está tudo bem… — ela repete ao se aproximar e deslizar os polegares delicadamente por meu rosto. Eu quase posso ver a gentileza da sua alma através do seu corpo.
— Estou bem… — respondo, ainda sentindo as pernas bambas. É exaustivo ter essas crises. É exaustivo me sentir assim. Esforço-me para não chorar mais, porém, quando ela me olha e inclina a cabeça para a esquerda, estreitando os olhos, sinto uma onda de emoção me invadindo de novo.
— Tudo bem, Dah — ela sussurra.
Choro aos soluços contra seu corpo por alguns bons minutos, entregando-me à tristeza. Ela não se mexe. Não se cansa do meu colapso emocional. Apenas fica lá, e me acolhe em seus braços.
E em silêncio, agradeço por ter sido ela a pessoa na qual pude me apoiar.