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2217 Palavras
Dahyun's pov: As tardes de segunda passaram a ser a coisa de que eu menos gosto no mundo. Eu entendo que preciso continuar com a terapia até que me sinta realmente bem, mas parte de mim não consegue acreditar que isso de fato esteja me ajudando. Porém minha mãe ainda insiste que preciso comparecer às consultas com a psicóloga. Então não tenho muitas opções. O nome da Dra. Yoo me faz lembrar das inúmeras sessões que tivemos no último ano. Seu consultório tem três paredes na cor branca, e uma na cor azul-clara. Seus móveis são todos de madeira polida clara, incluindo o sofá de tom pastel que fica encostado numa das paredes. Aposto que ela aprendeu durante seu curso de psicologia que o azul, supostamente, é uma cor calmante, quase sempre usada para que as pessoas se sintam em paz. Já eu só consigo me lembrar do Período Azul de Picasso, que foi um período muito deprimente para ele, apesar de algumas de suas maiores obras terem surgido nessa época sombria. Esse é o lado bom de se ter uma amiga cursando arte, você acaba aprendendo algumas coisas. — No que você está pensando, Dahyun? — Pergunta a Dra. Yoo com seu tom de voz calmo. Ela é uma mulher nova, provavelmente uns 30 anos. Idade o suficiente para ser terapeuta e consideravelmente nova para eu não me sentir confortável o bastante. Realmente eu não entendo por que minha mãe escolhera justamente ela para tentar me entender, quando nem eu consigo fazer isso. A Dr. Yoo não fala muito. Quando fala, ela sempre me pergunta o que eu estou pensando, sentindo e qual é o meu estado atual. — Picasso — respondo, olhando para o notebook sobre sua mesa. — Picasso? — Ela pergunta. — Em 1901, Picasso passou por um período onde ele usava apenas azuis e alguns tons de verde nos seus quadros. Dizem que durante essa época ele estava muito deprimido, mas também foi durante ela que surgiram alguns de seus melhores quadros. — Humm — ela diz, encostando uma de suas canetas nos lábios. — E por que pensou em Picasso agora? — Estava lembrando de uma amiga. Mas principalmente por causa do seu consultório. — Do meu consultório? — Sim. Ele é deprimente e entediante. — Você acha isso por causa do consultório em si ou por causa do seu estado mental atual? Não respondo, não sei a resposta. Talvez eu estivesse passando pelo meu próprio Período Azul. — Você está deprimida, Dahyun? Não respondo. Faço o papel de paciente angustiada. Ela não parece se importar. […] Na terça de manhã, chego na faculdade uma hora antes da minha primeira aula, o que significa que não tive a ilustre companhia de Sana no ônibus. Tenho pensando mais nela do que deveria. Toda vez que estou na sua companhia, ou mesmo quando ela me manda uma mensagem, sinto um frio na barriga. Seguindo pelo campus, fico surpresa ao ver Chaeyoung sentada em um dos bancos, pensativa. Ela está assim há alguns dias. Vendo minha amiga ali, olhando para o nada, eu sei que há alguma coisa que ela não está me contado. — Espero que você saiba que pode conversar comigo. — Digo quando me aproximo. Ela olha para mim, surpresa, mas não diz nada. Algumas coisas no mundo são péssimas, e ver a sua melhor amiga triste tinha que ser uma das piores. — Posso sentar com você? — Pergunto. Ela bate no espaço ao seu lado no banco antes de dizer: — A infelicidade adora companhia. — Chaeng… — Eu sei, eu sei — ela diz, ainda olhando para a frente, os dedos tamborilando sem parar na calça. — Não adianta ficar sofrendo tentando resolver todas as pendências financeiras da sua família quando isso não é possível. Eu sei exatamente do que ela está falando: da tentativa de sair do negativo dos seus pais. Eles enfrentaram dificuldades financeiras nos anos anteriores, e Chaeyoung sempre se culpa por causa da faculdade ser em tempo diurno e ela não conseguir arrumar um emprego para auxiliar sua família nessa questão. Coloco minha mão sobre a dela, sem saber o que dizer. — Já tivemos essa conversa antes, Chaeng. Ela assente com a cabeça. — Eu sei. Mas isso não deixa de ser uma droga. Eles só têm uma filha, e essa filha não está ajudando como deveria. Eles merecem mais e é por minha culpa que as coisas continuam difíceis na minha casa. — Não é verdade. Nada disso é culpa sua. — É claro que é. Se não fosse por mim, as questões financeiras dos meus pais seriam mais tranquilas. Eu deveria ter arrumado um emprego, assim eles não teriam passado por um inferno nos últimos anos. É por minha causa que a vida deles é essa bagunça. — Chaeng, você sabe que isso não é verdade. Seus pais estão orgulhosos por você ter ingressado numa faculdade de renome. Eles sempre deixam isso bem claro quando vou na sua casa. — Eu sei disso, Dah. Eles me dão total apoio, mas eu preciso fazer mais… Ela não diz mais nada, mas eu sei que ela não vai parar de se culpar até concluir o seu curso e ingressar numa boa carreira profissional. Nós duas ficamos lá sentadas, pensando na sorte que nos foi dada. Não sei como é que ela consegue ter essa personalidade tão divertida, tão cheia de vida. Como consegue me apoiar em tantos momentos, sendo que lida com suas próprias questões pessoais todos os dias. Estamos em silêncio. Está tudo silencioso de uma maneira bem confortável. Após um tempo, ela levanta-se do banco com as mãos esticadas acima do corpo enquanto boceja. — Obrigada por ter ficado um tempo comigo, estava mesmo precisando. — Obrigada por precisar. Pelo jeito eu também estava precisando. — Digo enquanto me levanto e a acompanho pelo campus da faculdade. — A propósito, vou pensar em algo para fazermos no fim de semana. Você nem pense em recusar. — Não vou. — Ela diz, sorrindo. — Passar um tempo com minha amiga igualmente problemática é uma das coisas que mais gosto na vida. É a minha vez de sorrir. […] Sana e eu passamos a aula de História da Música inteira discutindo sobre nosso projeto final. Precisei reunir todas as minhas forças para não pensar nas questões familiares de Chaeyoung e no fato de que as vezes ainda me deparo com alguma situação desnecessária pelos corredores. Mas como sempre, Sana facilita tudo. Ela tem a incrível capacidade de melhorar meu humor. — Você devia começar a trabalhar nas ideias que teve para nossa composição — falo, saindo da sala depois da nossa última aula.. — Certo. Quer fazer isso agora? Podemos aproveitar que não temos aula pela tarde e irmos até a biblioteca. Ergo a sobrancelha. — Eu já comecei a trabalhar com base nas minhas ideias. Quero transmitir a importância da música e como ela é capaz de mudar vidas. Preciso que você comece a fazer sua parte também para que a gente possa decidir quais serão as adaptações necessárias para criarmos a composição para o projeto final. — Então a gente se encontra na biblioteca em uma hora? — Ela pergunta. — Tem um piano lá e posso levar meu violino. — Sana — respondo, sorrindo. — Por que você é sempre tão insistente? — Não sei — ela diz, passando a mão por seus fios castanhos. — Talvez seja mais uma das minhas magníficas características. Ela ri de suas palavras — e de mim, que estou revirando os olhos. — E então, podemos nos encontrar em mais ou menos uma hora? — Está bem. — Certo, encontro marcado — ela diz, afastando-se. Mordo o lábio inferior e tento conter um sorriso bobo que se faz presente. Encontro marcado. — Você me parece bem — diz Somi atrás de mim, fazendo meu sorriso desaparecer. — Obrigada — murmuro, me afastando. Somi me segue a passos rápidos, claramente querendo arruinar meu dia que estava relativamente agradável até alguns minutos atrás. — Escute, eu não queria ter que dizer isso, mas ouvi que Sana está ficando com Jung Eunbi. Achei que você devia saber. — Por que você tem tanto interesse na Sana, Somi? — Falo, revirando os olhos. Dá para perceber que ela está com ciúmes da minha amizade com Sana. E isso é irritante, para dizer o mínimo. Somi se aproxima de mim, com seus olhos dourados demonstrando interesse, como se tivesse o direito de estar preocupada comigo. — Não quero que você se magoe. — Nossa, mas como você é atenciosa. Seu namorado deve ser um cara de sorte por tê-la ao lado dele. Antes que ela possa responder, Taemin aparece pelo corredor e põe os braços na cintura de Somi. Ele se veste de forma casual: calças jeans, camisa e jaqueta. — Oi, garotas! E aí? Somi para de me olhar e sorri para o namorado. — Tudo bem? Estava aqui vendo como Dahyun está. Taemin sorri para mim. — Ela é uma graça, não é? Por falar nisso… o que está rolando entre você e a garota de Osaka, hein, Dahyun? Ela é uma gata. Somi ri nervosamente. — Duvido que namorar seja uma prioridade para ela agora, Taemin. Além disso, ouvi falar que a novata está ficando com Eunbi. Minha nossa! Como essa garota consegue ser tão irritante?! Abro um sorrisinho falso para Taemin. — Sana e eu somos só amigas. Somi suspira, aliviada. O que também me irrita. — Hum. Só estou dizendo que se fosse eu, e estivesse solteiro, aceitaria receber atenção de Minatozaki Sana. Além disso, ela olha para você de um jeito diferente. Ele sorri, colocando o braço nos ombros de uma Somi irritada e se afasta, guiando-a pelo corredor. Mas será mesmo verdade? Sana me olha mesmo de um jeito diferente? […] Depois de ir para casa e dormir por quase duas horas, acordo assustada e atrasada. Calço meus tênis e vou para a biblioteca. Sana está sentada no degrau mais alto da entrada, com o estojo do violino no colo. Com a cabeça curvada e um feixe de luz da tarde se projetando pela escadaria, os cabelos castanho-claros dela parecem quase loiros. Ela ergue as mãos ao me ver e abre o maior sorriso. — Olha só quem enfim apareceu. Cheguei a pensar que você tivesse se esquecido do nosso compromisso. Que bom que eu estava errada. Abro um sorriso tenso. — Desculpe. Ela se levanta, aproximando-se e me observa com um olhar atencioso. — Você está bem? Não. Eu não consingo parar de pensar em Chaeyoung. E como se isso não fosse suficiente ainda tive que cruzar com Somi pela faculdade. Se tem uma coisa que aprendi convivendo com crises de ansiedade no último ano é que pequenos detalhes podem se transformar em gatilhos. Minhas emoções estão à flor da pele e eu não sei como evitar. — Sim, vamos mergulhar na música — respondo, dando um sorrisinho. Ela franze a testa e passa a mão nos cabelos. — Tem algo de errado. — Sana… — "A paciência faz contra as ofensas o mesmo que as roupas fazem contra o frio; pois, se vestires mais roupas conforme o inverno aumenta, tal frio não te poderá afetar. De modo semelhante, a paciência deve crescer em relação às grandes ofensas; tais injúrias não poderão afetar a tua mente." - Leonardo da Vinci — Você procurou Leonardo da Vinci no Google? — Pergunto, mexendo no botão da camisa. — Sim, no celular, enquanto esperava você. Imaginei que se os renascentistas sabiam tocar instrumentos e combater a peste n***a, eu podia muito bem fazer uma busca no Google enquanto esperava minha parceira de trabalho. — Entendi. Enfim, vamos entrar e começar logo nosso projeto final. — Precisa de um abraço? — Não, Sana. Eu não preciso de um abraço. Principalmente porque um abraço dela vai me fazer chorar. Ela fecha os olhos e coloca os dedos nas têmporas. — O que foi agora? — Pergunto. — Não está sentindo? Estou puxando você para um abraço com minhas habilidades mentais de Jedi. — Bem, não está funcionando — respondo. — Certo — Sana diz antes de me puxar para perto e me envolver com os braços. — Vamos usar dos métodos tradicionais então. Me sinto um pouco boba por não querer me desvencilhar do seu abraço, mas a verdade é que ela é a primeira pessoa que parece realmente entender o que eu estou passando. Tento dizer a ela que eu estou bem, mas ela me censura. Diz que está tudo bem não se sentir bem. Explica que é normal se sentir triste às vezes, não sentir nada além de dor. Ficamos abraçadas por mais tempo, ela sussurrando em meus cabelos que só não posso permitir que essas emoções venham a me sufocar. Nós estamos vestidas com casacos e camisas por baixo, mas esse breve contato é o suficiente para que eu saiba como é senti-la. Não consegui perceber isso da primeira vez que Sana me abraçou, dado meu estado emocional. Mas de alguma maneira, ela é quente e fria ao mesmo tempo, provoca a mesma sensação que o sol traz ao nascer numa floresta congelada.
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