Mandy Brown
Faz alguns minutos que estou parada no mesmo lugar, encarando o celular nas minhas mãos, sem conseguir pensar no que fazer.
Coma. Ela está em coma.
Eu não consigo nem chorar, de tão chocada que eu estou, então continuo aqui, respirando e apenas absorvendo as palavras que o médico falou.
Eu esqueci completamente onde eu estou ou o que eu estava fazendo, quando o número do hospital apareceu na tela do meu celular. E agora a realidade começa a me encontrar, um segundo depois do outro.
Eu deveria estar lá.
O coma foi inevitável, o médico explicou, mas ela estava consciente até pouco depois das 19 horas.
E eu não estava lá.
Aperto os olhos com força e respiro fundo mais uma vez.
Falta pouco e depois vou poder ir até lá.
As lágrimas queimam nos meus olhos fechados, e eu sinto que chorar agora só vai ser pior. Eu sei que assim que as minhas lágrimas começarem a cair, eu não vou conseguir parar de chorar. E quando isso acontecer, eu espero estar na minha casa.
Encaro o céu e suspiro, antes de começar a sair do meio das roseiras, a caminho da mansão, o lugar mais privado dessa propriedade inteira.
- Esse é um dia de merd¢, definitivamente! - Eu falo em voz alta, apenas para tirar isso da minha cabeça.
- Concordo! - Uma voz forte me responde e eu sinto todo o meu corpo tremer com o susto. Olho em volta, mas não vejo ninguém.
- Quem está aí? - Pergunto, e ouço na minha voz o medo que está fazendo o meu coração tremer. Ouço passos e me viro na direção da mansão, e é quando o vejo.
A princípio ele é apenas uma sombra, que estava escondida atrás de uma das árvores, mas depois, quando ele começa a caminhar na minha direção, a imagem dele vai se tornando cada vez mais nítida.
- Desculpe se eu te assustei. - A minha voz parece ter sumido completamente, quando encontro os olhos dele, que estão brilhando com a luz da lua.
Ele é, sem nenhuma dúvida, o homem mais lindo que eu já vi na minha vida. E eu cresci vendo muitos homens lindos, por causa do emprego da minha mãe na casa dos Walkers, mas esse homem é impressionante, de tão lindo.
- Tudo bem. - Consigo falar, mas ainda estou chocada e trêmula, diante da imagem do homem na minha frente.
Os olhos dele são brilhantes, e a cor não está nítida, por causa da escuridão, mas eu consigo ver que o rosto dele tem proporções perfeitas, o nariz parece ter sido desenhado pelas mãos de anjos, e ele está sorrindo de forma tímida para mim, como um garoto levado que foi pego aprontando.
- Fico aliviado de não ser o único passando por um dia de merd¢. - Ele fala, a voz um pouco mais baixa, mas ainda forte. - Só não tenho coragem de falar isso tão explicitamente. - Me sinto completamente envergonhada e me lembro na hora de onde eu estou.
- Me perdoe a minha falta de decoro. - Falo rápido. - Não foi a minha intenção incomodar ninguém. - Dou um passo à frente, para fugir dali, mas ele se coloca no meu caminho.
- Não me incomodou. Na verdade, você é uma grata surpresa. - Eu pisco, tentando entender. - É como um sinal do universo te encontrar aqui, agora. - Agora ele está perto e eu quase consigo ver a cor dos olhos dele. Castanhos talvez …
- Eu preciso entrar. - Falo, desviando o olhar para a Mansão que brilha atrás dele. - Tenho trabalho a fazer. - Ele suspira e o sorriso some, mas ele mantém os olhos em mim. E é como se ele conseguisse ver a minha alma.
O ar ao meu redor parece mais denso, e parece que algo está me puxando na direção dele, como se ele fosse um imã e eu um pedaço de lata velha.
- Imagino que aqui seja um lugar que as pessoas procurem privacidade? - Ele pergunta e eu deveria estar correndo até a mansão, porque, a qualquer momento, a mão da Patrícia será pedida em casamento, e eu terei que servir o champanhe.
- Eu diria que é um lugar que eu normalmente encontro privacidade. - Falo com calma. - Nunca encontrei ninguém aqui, até agora. - Ele respirou fundo e olhou ao redor, para me encarar de novo.
- Desculpe, novamente, por te atrapalhar. - Eu balancei a cabeça com força.
- Eu não deveria estar aqui, tenho responsabilidades lá dentro. - Ele respirou fundo e apertou a boca, antes de coçar a cabeça.
- Eu também tenho, mas parece que fugir daquela casa não é uma decisão exclusiva minha. - Controlo a risada de nervoso que ameaça subir pela minha garganta.
- O que me fez fugir pra cá não está naquela casa. - Explico. - É algo fora daqui.
- Brigou com o namorado? - Ele arrisca e estou sorrindo.
- Queria que fosse algo simples assim. - Explico. - Mas, não. Eu não namoro. - Ele levanta as duas sobrancelhas.
- Isso é impressionante. - Agora estou encarando ele descaradamente, observando cada pequeno movimento do seu rosto. Concluo que a expressão de surpresa é a mais bonita, depois da sorridente. - Uma moça, linda assim, não ter namorado é impressionante. - O meu rosto queima de uma vez, e agradeço por estar escuro, para que ele não veja o quanto devo ter ficado vermelha.
- Obrigada. - Falo. - É muito galante da sua parte. - Ele dá um passo à frente e se aproxima um pouco mais.
- E você está me impressionando mais a cada palavra. - Surpresa, vergonha e algo mais está borbulhando em mim agora.
- Não compreendo o que pode ser tão impressionante. - A minha voz sai mais ríspida do que eu gostaria.
Ele sorri de novo, e uma covinha surge na bochecha direita.
O meu coração dá um salto.
- Linda, corajosa, fala extremamente bem, parece ser culta … - Ele lista com os dedos. - Mas está escondida em meio as rosas ao invés de sentada naquela mesa conosco. - A realidade me serve mais uma chance de correr dali.
- Eu não devo sentar naquela mesa. E agradeço os elogios, mas preciso realmente ir. - Eu desvio dele rápido, mas não tão rápido, porque ele me segura pelo braço, me fazendo encara-lo.
Um choque percorreu o meu corpo, nascendo do toque dos dedos dele na minha pele.
- Como se chama? - Eu me forço a respirar.
- Amanda. - Falo puxando levemente o braço e ele me solta. - Mandy. - Corrijo. - Prefiro Mandy. - Ele pisca e a expressão de surpresa está ali de novo. - Sou Amanda Brown, mas todos me chamam de Mandy. Poucos sabem o meu nome.
- Entendo. - Ele fala. - Fico feliz de saber o seu nome, Amanda. - Levo 5 segundos para perceber que estou sorrindo.
- Preciso ir. - Falo e me viro, começando a correr em direção a entrada dos funcionários.
Isso foi … interessante.
Por poucos minutos esqueci completamente do desespero que eu sentia e me distraí pela beleza e pela admiração que eu vi nos olhos dele, que agora, eu tenho quase certeza que são castanhos.
O coma da mamãe, o jantar insuportável e o dia de merd¢ deixaram de me atormentar por esses poucos minutos, e ainda estou sorrindo quando alcanço a porta.
Com certeza os olhos dele são castanhos. E ele tem olhos lindos. E ele sabe o meu nome. O meu nome completo, inclusive, mesmo que eu não tenha ideia de qual o nome dele.
- Mandy. - A Becca me recebe. Ela deve ter ouvido parte do que eu discuti com o médico no telefone, antes de fugir pela porta, e vejo o medo nos olhos dela. A Becca é uma grande amiga da minha mãe. - Se precisar, eu sirvo o champanhe. - Respiro fundo e forço um sorriso.
- Não precisa. Está quase acabando agora. - Eu não tenho coragem de contar sobre o coma, ainda não.
Ela se aproxima de mim e aponta para a sala.
- Sabe… Eles estão esperando o noivo voltar do banheiro, pelo que entendi. - Assinto e encaro a mesa, com rodinhas, que abriga o balde com a garrafa de champanhe e as taças, que eu devo empurrar até lá quando for o momento certo.
- Ficarei atenta. - Respondo.
- Acho que você não entendeu. - E agora percebo o sarcasmo na voz dela. Ela se aproxima mais. - O noivo foi ao banheiro faz quase 20 minutos. - Olho para ela sentindo o choque nas minhas feições. - Só que o banheiro está vazio. - Eu tapo a boca. - Acho que ele fugiu.
Esse dia acaba de ficar pior.