Hoje é a grande noite de inauguração do hotel. Devo dizer que Yasmin se encontra em um estado de pura eletricidade desde que o sol nasceu. Pelas olheiras profundas disfarçadas sob os seus olhos, ficou claro que ela passou boa parte da noite em claro, consumida pela ansiedade. Mas ela não foi a única. Eu também não preguei o olho, embora por motivos completamente diferentes.
Como eu não podia continuar flutuando no desconhecido, sem saber absolutamente nada sobre esse meu novo "eu", fui obrigada a revistar cada milímetro do meu quarto em busca de respostas. Para a minha sorte, o meu velho hábito de registrar a vida em diários sobreviveu ao tempo. Encontrar aquele caderno de capa de couro foi a minha salvação.
A última anotação datava do final de 2021. Como agora estamos em 2026, percebi que passei o último ano sem escrever, mas o que estava registrado ali preencheu lacunas cruciais. Eu não tivera nenhum namorado nesse meio-tempo; estive inteiramente focada no trabalho e nos estudos. Fiquei chocada ao descobrir que me formei em Administração, em vez de Literatura ou algo ligado ao universo dos livros.
Mas a reviravolta mais bizarra foi ler sobre os meus pais. Contra todas as probabilidades, eles reataram, casaram-se novamente e agora moravam na Flórida. Meu pai continuava o mesmo homem de negócios de sempre, mas quem mudara drasticamente fora a minha mãe. Ela simplesmente abolira as implicâncias comigo. Em várias páginas, eu a descrevia como uma das minhas melhores amigas.
A realidade era avassaladora: eu pegara no sono como uma menina reprimida de dezessete anos e acordara cinco anos depois, no corpo de uma mulher de vinte e dois, com uma vida radicalmente transformada.
- Stella! Você já está pronta? - o grito de Yasmin ecoou da sala de estar, cortando meus pensamentos.
- Sim! - respondi em alto e bom som, encarando a mulher no espelho. - Acho que sim.
Era uma sensação quase transcendental usar algo que finalmente valorizasse o meu corpo, em vez dos moletons largos que eu usava para me esconder do mundo. O vestido longo de veludo premium preto era de modelo ombro a ombro, com um decote em V sutil e elegante. A peça abraçava as minhas curvas de forma escultural, e na perna direita, uma f***a audaciosa subia até o início da coxa, revelando a pele a cada passo.
Nos pés, eu calçava scarpins de salto fino pretos, que amarravam delicadamente nos meus tornozelos. Em uma das mãos, segurava uma clutch minimalista onde guardei o celular e os documentos; na outra, sustentava a misteriosa máscara veneziana rendada que usaria naquela noite.
- Anda, Stella! - Nicole bateu na porta, apressando-me.
Suspirei fundo, marchei em direção à porta e segui para a sala. Assim que cheguei ao encontro delas, puxei discretamente o tecido do vestido na altura da coxa.
- Está aparecendo muita perna quando eu caminho - resmunguei, sentindo-me subitamente exposta.
- Mas essa é a exata função da f***a, querida. O vestido está impecável - Yasmin comentou, checando a tela do celular. - Vamos, o motorista acabou de encostar.
- Nós vamos de táxi? - perguntei, acompanhando-as para fora do apartamento.
- Táxi? Por favor, Stella. Eu chamei um Uber, mas fiz questão de selecionar a categoria corporativa de luxo. Só aceito chegar em grande estilo - ela disparou, pressionando o botão do elevador.
Assim que deslizamos para o banco de trás do sedã preto blindado, o motorista deu partida em direção ao hotel. Estranhamente, à medida que nos aproximávamos do centro de Manhattan, um frio absurdo começou a serpentear pelo meu estômago. Eu m*l conseguia processar a razão daquele nervosismo.
- Yasmin... como foi mesmo que você conseguiu esses convites VIPs? - perguntei, fingindo uma curiosidade casual.
- Ela quase se jogou na frente do carro do Dimitri Ortez - Nicole respondeu por ela, lançando um olhar de severa repreensão na direção de Yasmin.
- Você enlouqueceu? - meus olhos se arregalaram em choque.
- Claro que não foi uma tentativa de suicídio! - Yasmin defendeu-se, dando de ombros com extrema naturalidade. - Eu estava na minha caminhada matinal diária quando, por mero acaso, o carro do Senhor Ortez passou. Eu me distraí olhando o automóvel e acabei pisando na faixa de pedestres sem olhar. Ele foi um cavalheiro, freou a tempo e desceu do carro insistindo em me levar ao hospital. Eu garanti que estava perfeitamente bem, que fora apenas um susto. Como ele insistiu em se redimir, acabou me oferecendo um convite exclusivo para a inauguração. Eu, claro, usei meu charme e pedi mais dois.
- Você é inacreditavelmente cara de p*u - acusei, dividida entre a incredulidade e a admiração pela audácia dela.
- Meninas, olhem aquilo ali - Nicole chamou nossa atenção.
Olhei pela janela do carro e o fôlego me faltou. A fachada do novo hotel estava monumental, banhada por uma iluminação arquitetônica deslumbrante. À frente da entrada principal, uma barreira de segurança continha uma multidão de fotógrafos e jornalistas.
- Meu Deus... - sussurrei.
- É a nossa hora de brilhar - Yasmin decretou.
Ajustamos nossas máscaras simultaneamente. Assim que as portas do veículo foram abertas pela equipe do hotel, Nicole desceu, e eu saí logo atrás. O bombardeio de flashes foi instantâneo, uma tempestade de luz branca que me obrigou a manter o queixo erguido e os olhos semicerrados para não perder o equilíbrio. Mantendo a pose aristocrática, apertei o passo e segui direto para o interior do complexo.
Ao adentrarmos o grande salão do baile, percebi que a esmagadora maioria dos presentes era de mulheres, e todas exibiam produções de altíssimo nível.
- Tudo isso é desespero para capturar a atenção do Senhor Ortez - Yasmin sibilou, revirando os olhos.
De fato, as mulheres estavam magníficas, mas muitas haviam cruzado a linha tênue entre o sexy e o exagerado, ostentando decotes profundos até o umbigo ou comprimentos milimetricamente curtos para um evento de gala. Não era difícil decifrar o enigma: quem ali não desejaria atrair os olhos de um bilionário jovem, poderoso e solteiro?
- Mulheres deveriam aprender o valor do mistério. Tentar chamar a atenção apelando tanto assim raramente termina bem - comentei, balançando a cabeça com desdém enquanto caminhávamos em direção ao grande bar de mármore translúcido.
- Quando você vir o homem pessoalmente, Stella, vai entender o motivo de toda essa histeria coletiva - Yasmin rebateu, enquanto Nicole já sinalizava para o barman, solicitando três drinques.
- Não importa o quão deslumbrante o homem seja. O amor-próprio e a postura vêm sempre em primeiro lugar - declarei, aceitando a taça de cristal que Nicole me estendeu.
Ao sorver o primeiro gole do líquido escarlate, um sabor intensamente doce e sofisticado brincou no meu paladar. A minha primeira experiência com álcool, pensei, sentindo o calor descer pela garganta.
- Bom, eu vou caçar o meu próprio milionário - Nicole anunciou, erguendo a taça antes de sair desfilando com a postura de uma modelo de passarela.
- A Nicole não estava namorando? - perguntei, virando-me para Yasmin.
- Não, Stella. Ela terminou o noivado há cinco meses. Você não se lembra do quanto ela ficou desestruturada? - Yasmin arqueou a sobrancelha, encarando-me.
- Ah, é verdade... Ela chorou horrores - disfarcei, dando uma leve batida dramática na própria testa. Que gafe terrível.
- Você anda muito esquecida ultimamente - Yasmin pontuou, o tom subitamente sério.
- É que ando totalmente consumida pela pressão de encontrar um trabalho fixo. Minha memória acabou ficando em segundo plano - forcei um sorriso amarelo, torcendo para que ela engolisse a desculpa.
- Justo. Bom, vou ver se encontro algum homem interessante para animar a minha noite - Yasmin esvaziou sua taça num único gole e deslizou em direção à pista de dança, deixando-me completamente sozinha.
Excelente. Estou abandonada em um bar, sem conhecer viva alma, sem entender nada sobre esta cidade e muito menos sobre este ano, suspirei, virando o restante do meu drinque. Solicitei outro ao barman e com um gesto decidido, retirei a máscara rendada, deixando que o ar fresco do salão tocasse o meu rosto.
Vinte minutos se passaram. Permaneci ali, isolada no balcão, observando o vaivém da elite nova-iorquina. Sempre que algum homem tentava se aproximar, vinha com piadas previsíveis ou cantadas baratas. A pior delas fora um sujeito que perguntou se eu "permitiria que ele pagasse uma bebida para mim". Por favor, estamos em um evento de gala open bar, tudo aqui já é de graça, pensei, descartando-o com um olhar gélido.
Se eu ao menos soubesse o endereço do apartamento de cor, pegaria um carro e iria embora. Tudo o que eu queria era estar no meu quarto assistindo Supernatural - que eu acabara de descobrir que já tinha chegado ao fim, deixando-me com três anos de episódios atrasados.
Entediada, comecei a girar o gelo do meu copo com o canudo, observando o redemoinho no líquido doce.
- Não está apreciando a recepção? - uma voz rouca, profunda e cirurgicamente calma ecoou logo atrás de mim.
- Eu não tenho o hábito de frequentar ambientes tão pretensiosos - respondi de imediato, sem me virar. - Além disso, minhas amigas sumiram no salão, me deixando à mercê de homens idiotas com as piores cantadas possíveis.
Girei o corpo lentamente no banco do bar para encarar o interlocutor, e a frase sarcástica que eu estava prestes a proferir morreu na minha garganta. Um agradecimento silencioso subiu aos céus por eu não ter sido grosseira.
Pessoalmente, o homem era um escândalo. A fotografia da Forbes não fazia jus à realidade. Ele exalava uma aura de poder tão densa e magnética que parecia curvar o espaço ao seu redor. Naquele milésimo de segundo, compreendi perfeitamente o desespero de cada mulher daquele salão.
- Compreendo. Parece que a sua noite não começou com os melhores auspícios - ele esboçou um meio sorriso sutil, o olhar azul-claro fixo no meu, decifrando-me por inteiro. - Eu sou Dimitri Ortez. E a senhorita seria...?