Capítulo 27

1546 Palavras
Na manhã seguinte, ela acordou antes dele e foi para casa antes de seu tio ou Célio acordarem. Deitou para voltar a dormir, logo Antônio a acordou dizendo que iam viajar, em breve, só os dois, para recomeçar. Ele estava percebendo as mudanças de personalidade dela, e não estava gostando. Ela concordou, ficou tentando agir normalmente. Ele não disse muita coisa, mas sabia que ela havia passado a noite fora. A maior preocupação dele era: ela estar envolvida com alguém, querendo ir mais além propositalmente, e ele tinha razão. Era como se fosse tudo previsível, os seus passos, seguindo o caminho da mãe e indo para o círculo inquebrável, de gerar um bebê que herdaria o dom. Ela inventou que precisava ir à farmácia só para ir até a cidade. Ia explodir se não conseguisse conversar com alguém. Ela tentou ligar várias vezes para Aisha de um orelhão, não conseguiu. Foi na casa da Tassiane. A mãe dela a atendeu com espanto, perguntou se ela estava bem. Rebeca falou que sim, ficou a olhando, esperando algo. Perguntou, sem jeito: — A Tassiane tá aí? A mãe dela falou toda estranha: — Não, ela dormiu na casa do Felipe. Vocês marcaram algo? Juntas? Rebeca respondeu sem jeito: — Não, eu estava passando por aqui perto, resolvi vir conversar um pouco. Então acho que vou embora, outro dia eu volto. Ela disse que era para ela ligar e perguntar se a Tassiane ia para casa. Rebeca disse que não tinha celular, mas que tudo bem, não era nada importante. A mãe de Tassiane ligou avisando, falou para ela ficar que logo a Tassiane ia chegar. Rebeca ficou sentada na sala assistindo. Quando a Tassiane entrou, deu-lhe um frio na barriga, um medo, uma insegurança. Ela se aproximou super receptiva, a abraçou, falou que não queria ser chata nem reclamar da visita repentina, mas quis saber se tinha acontecido alguma coisa para ela estar lá do nada assim. Rebeca respondeu: — Não, tá tudo bem, eu só pensei em passar ver você, faz tempo, né? Tassiane sorriu, falou desconfiada. — Faz. Rebeca falou exultante. — O Neto me disse que vocês vão participar da formatura. Tassiane falou sem jeito: — É, eu e o Felipe decidimos participar, é algo que não volta, o colegial é muito marcante pra quase todo mundo. Desculpa, isso foi bem estranho de se dizer, já que você parou de estudar por minha causa. Rebeca que não tinha importância, que já havia ficado para trás. Tassiane falou levantando: — Eu tenho uma coisa guardada pra te dar, faz tempo. Espera aí um pouco! A mãe dela foi atrás no quarto. Pôde ouvir que estavam falando baixinho. Entendeu a mãe dela dizendo que ninguém aparecia assim sem querer algo. Falou o nome do Felipe também. Fecharam a porta até. Ficou se sentindo m*l. Percebeu que não era bem-vinda lá. Quando a Tassiane voltou, estava com um colar nas mãos. Tinha um pingente de borboleta. Ela falou se aproximando para colocar em Rebeca: — Não é tão legal quanto aquele colar da amizade, mas pra mim vai ter o mesmo significado. Esse colar eu ganhei da minha avó que já faleceu e ele é como você, uma joia rara que voa. — Eu quero te dar porque sei que você vai cuidar dele, mais até do que eu. Rebeca olhou para o pingente. Ela disse que sentia muito por tudo o que aconteceu, pediu desculpas. Falou constrangida pelo olhar da mãe dela, que a encarava do canto da sala: — Isso já passou, eu não posso aceitar esse colar, é lindo, mas é coisa da sua família. Tassiane insistiu muito, disse que era o pedido de desculpas. Rebeca aceitou o presente. Conversaram um pouco. Tassiane estava animada com a formatura, disse que o Felipe e ela tinham planos de irem morar juntos logo. Quando perguntou do Neto, Rebeca ficou vermelha de vergonha, imaginando que ela sabia. Falou desconcertada: — O que tem ele? Tassiane respondeu rindo: — Ele não conversa mais muito comigo, fala mais com o Felipe. Porque você tá nervosa? Vocês estão finalmente juntos né? Toda sem jeito, Rebeca perguntou se ele tinha falado alguma coisa, dela. Tassiane falou rindo: — Não, nada de especial. Porque? Você gosta dele, né? Rebeca assentiu. Tassiane disse que ela podia falar, se quisesse, sobre o Neto. Foram para a calçada. Rebeca contou que tinham ficado algumas vezes, mas que não sabia se era certo tudo aquilo. Tassiane perguntou se tinham feito alguma coisa além de beijar. Rebeca falou que não. Tassiane foi gentil, a aconselhou a se prevenir, falou afirmando que com certeza ela não sabia nada daquilo, mas que ia acontecer e seria bom se fosse com alguém que gostasse dela de verdade, também que fosse recíproco. Rebeca perguntou como foi a primeira vez dela. Tassiane falou rindo: — Foi horrível, mas é normal, dói mesmo, demora um pouco pra começar ter prazer. Eu queria perder, mas depois percebi que nem tanto. E olha só, faça por você, nunca porque ele quer. — Tem que se cuidar, usar camisinha. Eu achava que nunca ia acontecer comigo, de engravidar. Homem fala qualquer coisa pra se divertir, são poucos os que realmente pensam em se cuidar. — O Saulo era mais velho que eu, mas a cabeça era de um menino, já o Felipe é muito mais pé no chão, muito bom pra mim, me respeita, sabe? Sem ele eu não teria conseguido superar a perda. Continuaram conversando. O Felipe chegou de carro. Rebeca falou que precisava ir embora. Ele se aproximou, beijou-a no rosto e abraçou, foi simpático como sempre, disse que não se viam a muito tempo. Rebeca concordou que fazia muito tempo. Falou que ele também tinha mudado, só a Tassiane estava igualzinha, na verdade mais bonita. Tassiane falou rindo, marcando território: — É o amor que faz isso, o Fe agora só anda na linha e me mantém junto. Somos os bonzinhos da turma! E você tá linda, o Neto tem sorte de você ter olhos pra ele, porque é óbvio que você é muita areia pro caminhãozinho dele. Vamos marcar de sair juntos qualquer dia, de casal, vai ser muito legal. Rebeca ficou envergonhada. Tassiane continuou falando: — O Neto não te contou, amor? Eles estão juntos, a gente já suspeitava que rolava um love ali, né? m*l posso esperar pra ver vocês juntos. — É muito bom. Namorar com amigo, já que são tão íntimos. Igual a nós, além de namorados, amigos, esses são os melhores casais, sabia, Beca? Ele também ficou sem jeito vendo que ela estava totalmente desconfortável, falou que o Neto não tinha dito nada, mas que ele já imaginava. Deu tchau e entrou para dentro. Rebeca prometeu voltar mais vezes. Aproveitou que estava na cidade e foi procurar umas coisas para comprar: lingeries. Ficou perdida na loja, achando que não ia conseguir usar nada tão pequeno ou transparente. Como eram mais baratas, pegou para se arriscar, calcinhas minúsculas mais sexys fio-dental. Deu uma olhada rápida nos produtos de s*x shop, ficou imaginando ao ver as próteses, como um negócio tão grande entrava na mulher. Depois foi a uma loja de celulares só para olhar, mas não podia comprar enquanto não decidisse qual plano ia seguir: ir embora com o tio, ir embora sozinha ou procurar a família. Nunca teve medo da morte mesmo, era a única certeza que tinha consigo: um dia iria morrer. Só voltou para casa depois do almoço. Foi fazer faxina, lavar roupa, colocou a lingerie nova para secar escondido. Sabia que o Neto ia estar fora fazendo aula na autoescola. Antônio estava em casa, ficou a rodeando, puxando assunto. Ela contou que tinha ido na casa da Tassiane. Ele perguntou se ela queria ficar morando lá, já que tinha amigos. F Ela falou incomodada: — E vocês se importam com o que eu quero? Ele respondeu chateado: — Eu me importo, se não me importasse não estaria cuidando de você até hoje, tudo o que faço é pelo seu bem, pra te ver vivendo o mais normal possível. Quer ter uma família sua um dia? Não vai conseguir ajudando os outros, você precisa parar! Consegue me prometer isso? Ela falou de costas para ele, enquanto lavava louça: — E a minha madrinha? Falou alguma coisa? — Porque ela parou de me ligar? Fala a verdade. Ele disse que ela tinha a vida dela, e não podia estar perto. Rebeca virou-se para ele e falou brava: — Ela não pode ou não quer falar comigo? Faz meses que a gente não conversa. Porque, estando longe ou não, eu vou ajudar alguém e posso morrer por isso. — Não é justo, e não existe família de dois, você nem deve ser meu tio de verdade! Sabe o que vai acontecer quando eu for maior de idade? Falta pouco, né? — Faz anos que parei de contar quantos anos eu tinha e acho que a sua intenção era essa, me deixar perdida aqui no meio do nada, escondida no lixo. Não sou mais criança e já posso tomar minhas próprias decisões. Se ela não me quer perto, vai ter que falar olhando pra mim. — Se é que ela realmente existe, vai ver você pagava alguém, pra fingir.
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