Neto quis chamar os amigos deles, da época da escola. Disse que foi um m*l-entendido e que, com certeza, Tassiane tinha se arrependido. Já haviam passado semanas. Rebeca deixou que ele decidisse, já que a casa era dele.
Ele mandou mensagem convidando os quatro. Aceitaram ir, menos Saulo, que tinha se mudado de cidade e realmente terminado com Tassiane. Rebeca ficou muito ansiosa para ver Felipe, cheia de expectativas, pelo beijo, as carícias que rolaram.
Vestiu uma calça jeans agarrada, camiseta baby look preta, coturno, passou lápis nos olhos e deixou o cabelo solto meio ondulado.
Quando eles chegaram já tinha bastante gente na festa, ela estava na sala, em pé, assistindo o pessoal jogar videogame. Felipe deu tchau de longe. Débora foi falar com Rebeca. Tassiane não olhou na cara dela e foi para fora segurando Felipe pela mão. Débora logo falou que eles estavam juntos. Rebeca respondeu, surpresa, com espanto:
— Juntos? Como assim?
Neto se aproximou, falou oi para Débora, com beijo no rosto e um abraço. O que fez Rebeca quase entortar os olhos de tanto revirar.
Ela o cumprimentou e falou para Rebeca:
— Então, depois que o Saulo e ela terminaram, ela ficou muito m*l, triste, e ele, como um bom amigo, foi dar o ombro e ela deu foi outra coisa. Isso chega a ser nojento, porque ela tá grávida e eles eram amigos, o Saulo e ele.
Neto falou rindo, surpreso:
— É sério? O Felipe tá namorando com a Tassiane?
Débora começou a contar tudo. Falou que odiou a forma como Tassiane tratou Rebeca na escola, disse que acreditava nela, mas que tinha pena de Tassiane porque ela estava passando por um momento difícil.
Rebeca ficou muito séria e incomodada com tudo. Nunca tinha sentido tanto ciúme e frustração. Foi para a cozinha se sentindo inferiorizada. Júlio estava lá com Aisha a ficante dele. Ela falou com Rebeca, segurando na mão dela:
— Nossa, você tá pálida. O que foi, gatinha? Tá se sentindo bem?
Rebeca falou, encostada no balcão, de cabeça baixa:
— Eu acho que preciso beber. Como sou i****a.
Aisha falou, surpresa, rindo:
— Mas você não bebe, né? Olha, eu não sei o que aconteceu, mas na sua idade, quando algo dava errado e eu ficava bêbada, tudo só ficava pior. Se quiser conversar, pode falar comigo!
Júlio deu um copo com vodca pura para Rebeca. Falou que era um pouco forte e a instruiu a virar um gole grande. Ela tomou, começou a tossir sentindo a garganta arder, ficou vermelha. Eles deram muita risada.
Ele explicou que era necessário misturar com refrigerante ou suco, mas que aquilo foi só para ela ficar esperta. Fizeram um drink novo, melhor e grande.
Neto chegou na cozinha bem na hora, que ela estava bebendo, tomou o copo da mão dela, foi grosso, dando ordem, questionando por que ela estava bebendo. Rebeca falou bem calma, provocando:
— Você não é meu dono. Quando você quer, fica bebendo. Só porque sou mulher eu não posso?
Aisha botou lenha, bateu palmas, deu o copo dela para Rebeca e perguntou se ela era feminista. Rebeca respondeu, bebendo só para afrontá-lo:
— Nem sei o que significa isso, pra ser sincera. Mas acho que todos devem ter os mesmos direitos! — Sorriu com afronta, tomou um gole grande.
Neto estava perto, falou a encarando bravo.
— Rebeca, para vai! Eu bebo porque gosto, você nem curte.
Júlio começou a fazer brincadeira, dizendo que ele estava com ciúme da namoradinha. Neto falou “credo”, disse que só se preocupava porque Rebeca nunca tinha bebido antes e era capaz de começar a chorar, ficar paranóica, passar vergonha como sempre fazia.
Aquilo a deixou mais chateada ainda. Aquele olhar de julgamento, desdém e deboche, ela conhecia muito bem. Saiu da cozinha com o copo, foi ao banheiro, jogou fora e foi para o quarto de Neto. Deitou na cama se odiando, se comparando com as outras. Ficou pensando em Tassiane e Felipe. Débora e Neto.
Um tempo depois, Neto entrou lá, deitou ao lado dela e falou que eles já tinham ido embora. Rebeca continuou quieta, olhando para o teto. Ele continuou falando:
— Por que você faz isso? Fica me irritando. Eu não gosto de brigar com você, Rebeca. Achei que ia ser legal a festa pra gente se divertir.
— Foi só aquele cara, o****o chegar. Que você ficou diferente, querendo chamar a atenção.
— Se pintou igual uma palhaça, pra ele te notar. Tenho pena de você sabe. Iludida.
Ela sentou, ficando de costas para ele. Estava se sentindo m*l por ter bebido, permaneceu calada. Ele falou mais bravo:
— Para de me ignorar. Tá bravinha por causa dele, né? Você acha que eu não sei, eu via a forma que vocês se olhavam.
— Tá assim porque fez as coisas com ele e agora viu que ele nunca quis ter nada sério com você?
— Transou com ele, né? Enquanto matavam aula juntos?
Rebeca gritou com ele:
— Não fala assim comigo! Você não sabe de nada e para de me tratar como uma coitada, uma i****a. Não é porque você não gosta de mim que ninguém nunca vai gostar.
— Você, melhor do que qualquer um, deveria saber que eu não sou como elas. Eu nunca, iria me perder com um qualquer, atoa.
— Eu não te conheço mais.
Levantou da cama bruscamente. Ele a puxou pelo braço, tentando conversar.
— Beca, você não fala mais nada comigo. Me falaram que você e ele estavam ficando, você foi sozinha na casa dele.
Ela se soltou com dificuldade, por ele ser maior e mais forte. Gritou com ele, chorando de raiva:
— O que você quer? Tá me machucando!
— Eu não falo? Você que nunca quer me ouvir, tudo é sempre sobre você. Seu egoísta mimado!
Ele a soltou, mas falou acariciando os braços dela, parado na sua frente, que sentia muito por tudo. Rebeca ficou de cabeça baixa, chorando, sentindo-se muito m*l por ter bebido. Ele se aproximou, abraçou-a, pediu desculpas a beijando no pescoço, rosto. Estavam muito próximos e ele a beijou a boca. Seus lábios estavam gelados. Foi um beijinho suave que ele mesmo deu e se afastou, esperando uma reação.
Rebeca falou triste, confusa:
— Não, Neto. Porque fez isso?
Ficou surpresa, decepcionada e com raiva, mais do que já estava. Ele falou que não era para ela ir embora, que devia dormir com ele, como sempre fizeram. Ficou tentando se desculpar, dizendo que não queria brigar com ela, mas que estava confuso.
Ela saiu super nervosa. Ele foi atrás, mas sem segurá-la. Ela foi para casa, esbarrou em um cara na frente do portão, quando ele perguntou se ela estava bem, ela se virou e respondeu hostil.
— Vai se f***r babaca. Não é da sua conta.
Aisha estava ao lado, falou rindo muito.
— Ela levou chifre, Noah. Acabei de fazê-la tomar o primeiro porre.
Noah começou rir, falou a acompanhando com o olhar.
— Essa menina é doida pra c****e né? Outro dia eu vim na oficina, buscar uma peça, falei bom dia, perguntei pelo Célio.
— Ela nem me olhou, respondeu cheia de marra. Que era pra eu aguardar lá fora.
Aisha falou que ela era diferente mesmo, e jamais iria se arreganhar forçando simpatia para ninguém.
Neto saiu logo atrás, acompanhou Rebeca sem falar mais nada. Quando a alcançou, ele perguntou se podia ficar. Rebeca respondeu irritada:
— Não, e acho melhor a gente se afastar. Você tá ficando igual ao seu primo. Eu não quero mais sua amizade.
— Hoje você me magoou muito, falando aquelas coisas e agindo feito um louco. Vai embora e para de me procurar. Eu não quero mais ser sua amiga!
— Não te conheço mais.
Ele ficou triste e foi embora irritado. Voltou curtir a festa, bebeu muito mais, perdeu a linha.
No dia seguinte, Rebeca ficou deitada, não saiu do quarto para nada, Antônio voltou no horário de almoço, a chamou para comer peixe. Ficou preocupado, foi ver o que ela tinha. Quando ela contou que tinha bebido na noite anterior, ele se sentiu aliviado. Novamente a alertou sobre as amizades, dizendo que ela deveria evitar se apegar, ter carinho, ou qualquer outra coisa.
Por causa do seu dom e os riscos. Rebeca perguntou se os dois tinham mesmo que ficar morando ali, mais um ano. Ele respondeu pensativo:
— Você sabe que aqui é melhor, querida, é mais seguro pra você.
— Quando fizer dezoito anos, podemos nos mudar. Muitas coisas vão mudar. Você está crescendo.
Ela falou que, às vezes, dava vontade de ir embora, largar tudo. Antônio perguntou se ela tinha brigado com Neto de novo e se gostava dele de uma forma diferente, mais que amigos. Rebeca respondeu séria:
— Não, tio. Nem como amigo não estou gostando mais. Agora que ele só anda com o primo, mudou muito, virou um chato arrogante.
— Ele me despreza, essa é a verdade. Porque é rico, mimado.
Antônio ficou rindo, ela falou que não queria ser mais amiga dele, e de ninguém. Passou o resto do fim de semana na cama, e ouviu a festa ainda acontecendo na casa de Neto.
Na segunda-feira, Rebeca foi trabalhar cedo, na oficina. Neto apareceu por lá à tarde com Júlio, para mexer em um carro que era pra ser dele. Rebeca não falou com eles, ficou quieta trabalhando cabisbaixa. Neto ficou olhando sério para ela, sentindo muita culpa.
À noite, foi chamá-la, falou com o tio dela. Ela saiu para fora e perguntou ríspida o que ele queria. Foram andar para longe da casa dela, ela estava com receio do tio ouvir algo sobre o beijo.
Ele começou a falar que tinha bebido muito, ficado com raiva do Felipe por ter usado brincado com ela e que por isso agiu daquela forma. Rebeca respondeu séria o olhando fixamente nos olhos:
— Não adianta lamentar, sabe? É nítido que a gente já se perdeu e faz tempo. Crescemos juntos, mas hoje nem sei mais quem você é, porque as coisas que disse e fez não entram na minha cabeça.
— Doeu, Neto, muito! Eu sempre confiei em você pra tudo. Como você pode me tratar daquele jeito? Eu nem beijei direito ainda e você veio perguntar, afirmar, que eu estava transando com o Felipe.
— Esse seu primo fica colocando coisas na sua cabeça. Eu não sei que tipo de meninas você tá convivendo lá, mas eu ainda sou a mesma.
Começou a chorar sutilmente, foi limpando as lágrimas. Ele perguntou se ela estava brava por causa do beijo. Ela falou, chateada:
— Você realmente não entende. A gente não tem mais nada pra conversar e, apesar de não ter feito nada com o Felipe, eu estava gostando dele de uma maneira diferente, porque ele não ficava me tratando como coitada, nem me colocando pra baixo, e nunca me faltou com respeito, diferente de você.
Todo nervosinho, ele falou enciumado:
— É, Rebeca, tá bom... e cadê ele então? Sua tonta, ele só queria te comer e ia te chutar.
— Você é muito ingênua mesmo.
Ela não respondeu mais nada. Deixou-o falando sozinho, saiu andando e voltou para casa, decidida a não ter mais amizade com ninguém.
Logo chegou o Natal e o Réveillon. Rebeca passou sozinha em casa com o tio, enquanto Neto estava curtindo bastante.
Nos anos anteriores, sempre iam para a casa de Célio, mas dessa vez não foram. Antônio fez um jantar diferente no Natal. No Réveillon, nem isso fizeram, por preguiça mesmo, datas não eram importantes para eles.
Estava muito calor e Rebeca estava sem sono, sentindo-se nostálgica e chateada, por perceber que não significava nada para Neto. Ela saiu para andar lá fora na rua. Logo iam começar os fogos. Havia bastante gente na casa de Célio. Passou por lá, viu os carros e andou mais um pouco em direção à cidade.
Foi surpreendida por Neto de carro. Ele reduziu e falou, andando ao lado dela devagar:
— Oii, Beca.
— Pra onde você vai? Eu te vi pela câmera. Posso te levar?
— Está tarde pra andar sozinha.
Rebeca falou que só estava andando à toa e que logo ia voltar para casa. Ele perguntou se ela não queria dirigir, dar uma volta, ou ir comer na casa dele. Disse que Célio nem ia sentir falta do carro. Ela falou indiferente que preferia ficar sozinha. Ele respondeu, parando o carro:
— E se eu ficar quieto? Não quero voltar pra lá e você sabe que eu odeio essas reuniões de família. Por favor!
Sem falar nada, Rebeca entrou no carro. Foram para mais perto da cidade. Ele a chamou para sair do carro e ver os fogos. Deitaram em cima do capô, com a cabeça no para-brisa, um ao lado do outro, olhando para o céu. Ficaram até os fogos acabarem.
Rebeca se sentou e falou que queria ir embora. Ele respondeu reflexivo:
— Feliz ano novo.
— A gente pode ficar só mais um pouco?
Ela balançou a cabeça que sim e voltou a deitar. Neto estava olhando para ela sério, reflexivo. Rebeca fez o mesmo. Ficaram por muito tempo lá, só se olhando em silêncio.
O primo dele ligou querendo saber onde ele tinha ido. Foram embora sem conversar e pararam de conversar de vez. Ele não tentou se desculpar, e isso só fez ela achar, que a amizade deles não tinha mais importância pra ele.
Às vezes, Rebeca o via lá na oficina, ela passou a ficar só no centro de reciclagem, para o evitar e simplesmente o ignorava. Passou as férias toda sozinha e só observando, ouvindo eles se divertindo com festas na piscina, indo sempre passear de noite.
Ela estava deprimida, muito introspectiva, e solitária.
Antônio comentou que Neto havia tomado várias multas correndo, tirando rachas, perguntou se ela ainda sonhava em ter um Mustang, Rebeca disse que não. Garantiu que havia perdido todos os interesses em comum, com Neto.
Quando o primo dele foi embora, Neto começou a ficar mais tempo na reciclagem. Quase não ajudava, só ficava enrolando, conversando com todos e rodeando Rebeca. Um dia, para puxar assunto, perguntou se ela tinha visto o que aconteceu com Tassiane. Rebeca falou indiferente:
— Não, como eu poderia ver alguma coisa? A única coisa que vejo todos os dias são montanhas de lixo!
Ele respondeu sério:
— Ela não vai poder voltar pra escola porque pode perder o bebê. Ela só pode ficar deitada, eu não sei bem. Foi internada essa semana, parece grave.
Rebeca ficou parada, sem reação, olhando para ele por alguns instantes, não falou nada. Nem conseguiu pensar nas mágoas, ficou triste, com pena, querendo ajudar.
Passou a noite acordada pensando em Tassiane e decidiu ir vê-la. Se alguém podia ajudar, esse alguém era ela, a curando.