Maya Nunes.
Acordei com a minha porta sendo quase arrombada, me assustei com aquela barulheira toda e fui devagar até a porta e respirei aliviada quando vi que era o tubarão, mas ele não estava com uma cara nada boa.
Tubarão: Abre essa p***a Maya, o p*u ta comendo aqui fora. – Me assustei ao ouvir os tiros e rapidamente abri a porta pra ele entrar junto com mais dois caras.
Maya: O que está acontecendo? – Ainda estava desnorteada pelo sono, mas já sabia que coisa boa não era.
Tubarão: Tá com o ouvido no cu você? – Falou como se fosse óbvio.
Maya: Eu estava dormindo, melhor você rever o tom que fala comigo ou te mando de volta lá pra fora. – Cruzei os braços e liguei a tela do celular vendo que já eram três horas da tarde.
Tubarão: Os policiais estão invadindo e a trocação está intensa lá e como você não chega nem perto de ser envolvida com algo e ninguém faz idéia que essa casa aqui é do Terrorista, é um ótimo lugar pra gente ficar de tocaia, espero que ninguém tenha vindo atrás da gente. – Falou aparentemente preocupado.
Fechei a porta olhando pros três desacreditada com a audácia dele, enquanto eles já iam se movimentando pela casa em busca de janelas ou lugares para ficarem.
Maya: E é assim? Vocês entram na minha casa do nada me colocando em risco de tomar um tiro e tá tudo bem? Ninguém me avisou que isso estava no contrato. – Encarei ele indignada.
Tubarão: Morena, você alugou essa casa na favela, está mesmo me fazendo essa pergunta? Você nesse momento tem que agradecer que eu entrei tranquilo, na paz, se fosse o Terrorista já tinha arrombado a porta pela demora que você teve pra abrir, fica de boa que com a gente aqui nada vai acontecer, já já os caras estão indo embora e você se livra de mim.
Maya: Ajudou muito, olha como eu estou dando pulinhos de alegria. – Fechei a cara e mandei dedo pra ele.
Sem ter muito o que fazer, fiquei na sala junto com o Tubarão garantindo que eles não iriam colocar a minha casa abaixo, ele estava na janela olhando o movimento pra vê como a situação estava. Peguei meu computador e fui tentar olhar uns e-mails do escritório, a caixinha estava cheia.
Tubarão: O que tanto você digita aí nesse treco? Esse barulho está me dando nervoso.
Maya: Só lamento por você. Estou vendo uns emails do meu escritório. – Ignorei o comentário dele. - Os barulhos estão menores, será que eles já estão indo?
Nessa hora um dos meninos que estava junto com o Tubarão saiu do banheiro e começou a falar com ele.
- Eles estão recuando, isso tá com cara de invasão de supervisão Tubarão, esses filhos da p**a estão armando pra gente. – Disse aparentemente com raiva.
Tubarão: Também pensei nisso, Thiaguinho, só que você acabou falando primeiro. Eles estavam muito tranquilos e de olho em tudo, borá logo que o Terrorista deve está puto com tudo isso. Valeu Maya, vamos indo porque nossa vida não é fácil igual a da donzela. – Revirei os olhos e nem fiz questão de responder. Acenei pra ele que deu um sorrisinho debochado e saiu batendo a porta. Desgraçado.
Ri comigo mesma.
Eu não sei por que, mas tenho a leve impressão de que já vi esse cara bem antes de vir aqui pro morro, eu só não consigo lembrar de onde. Espero sinceramente que não seja de nenhum lugar que me comprometa.
Seria até um pecado ter que me indispor com esse gato. Simplesmente odeio ter que fazer a linha da camponesa modesta, quero ver o que vou dizer quando ele me perguntar como que caralhos eu tenho um escritório sendo que falei que não tinha condições nem de alugar um apartamento no Rio de Janeiro. Parabéns Maya, você é muito inteligente.
Bufei p**a comigo mesma. Que bola fora.
Preciso sustentar a história de que herdei o escritório do meu pai quando ele morreu, o que não deixa de ser verdade. Isso realmente aconteceu só que não da forma que ele precisa saber que foi.
Particularmente quando meu pai se foi ele tinha uma boa quantia que acumulou durante os seus anos trabalhando e deixou claro em seu testamento que queria que tudo fosse deixado exclusivamente pra mim. Todos os seus bens foram passados pro meu nome. Menos a casa que ele e a minha mãe moravam e uma boa quantia pra ela ter uma vida tranquila se souber administrar.
Não que isso compense, mas com tudo isso, eu não precisaria trabalhar pelo resto da minha vida se não quisesse. Mesmo depois de falecido ele fez questão de deixar a filha que ele tanto amava sem preocupações. Quanta falta ele me faz.
Com a herança que ele me deixou eu paguei a minha tão sonhada faculdade e construi sozinha o meu próprio escritório de arquitetura, naquela época eu era jovem demais pra perceber a realidade das coisas. Eu só pensava naquilo e jurava que daquela forma eu iria preencher o vazio que havia em mim, que de algum jeito ocupar a minha mente seria a solução de todos o meus problemas.
Mas agora depois de tudo pronto e com inúmeros trabalhos pra entregar eu me encontro do mesmo jeito que estava antes de começar, perdida, e com o vazio enorme que a saudade do meu pai me deixava. Lutando pra não me afundar em uma depressão de novo, tentando me salvar sozinha.
Eu estou cansada de tudo isso, essa rotina pacata e monótona, isso não é pra mim. Eu tenho a alma livre, eu preciso viver. Me sinto como um passarinho preso na gaiola. Parece que enquanto eu não resolver essa pendência na minha vida a angústia que insiste em me maltratar vai permanecer aqui.
Parece que a morte do meu pai continua impune mesmo depois de anos, enquanto um filha da p**a qualquer que matou ele continua solto por aí como se não tivesse tirado a vida de um pai. Respirei fundo tentando não me enfiar no poço sem fundo que é esse tipo de pensamento.
Preciso de ação na minha vida, sinto falta de adrenalina correndo nas minhas veias, talvez eu devesse cometer algum tipo de crime. Ri comigo mesma. Talvez correr um pouco de perigo seja o que eu realmente preciso, que hipocrisia da minha parte.
Sai dos meus pensamentos e voltei a responder os emails que ainda faltavam, querendo ou não eu gosto do meu trabalho como arquiteta, o resultado das coisas que eu faço nesse meio realmente me deixa feliz. Mas a minha vida precisa de algo a mais.
Ainda não achei algo que seja um bom motivo pra viver e morrer, até então sinto que eu só conheci a dor, mas não preciso que sintam pena de mim. Eu vou atrás do que eu preciso e de alguma forma, vou me encontrar.
Isso é só questão de tempo.