Capítulo 23 — O Jeito Diferente Dele

868 Palavras
Nos dias seguintes, Sarah começou a perceber que não era apenas a presença de Gabriel que incomodava. Era o jeito. No início, tudo parecia sutil demais para ser nomeado. Pequenos gestos, pausas específicas antes de responder, a forma como ele se movia pela casa sem fazer barulho desnecessário. Nada disso, isoladamente, significava muito. Mas, juntos, criavam uma diferença difícil de ignorar. Gabriel não reagia como as outras pessoas. E isso ficava mais evidente a cada dia. Naquela tarde, Sarah chegou em casa mais cedo por causa de uma aula cancelada. O silêncio da casa a recebeu como sempre, familiar e previsível. Deixou a mochila sobre a cadeira e caminhou até a cozinha, esperando encontrar o espaço vazio. Não estava. Gabriel estava ali, encostado na bancada, mexendo em algo no celular. Ao ouvir os passos dela, levantou o olhar com a mesma atenção calma de sempre. — Você chegou mais cedo — disse. Sarah assentiu, colocando a mochila no chão. — Cancelaram uma aula. Ele guardou o celular sem pressa, como se aquele detalhe tivesse importância suficiente para encerrar o que estava fazendo. — Quer comer alguma coisa? A pergunta veio simples, direta, sem insistência. Sarah hesitou por um segundo. Não estava acostumada a alguém oferecer algo sem expectativa por trás. — Não precisa — respondeu. Gabriel inclinou levemente a cabeça, observando. — Eu sei. E, ainda assim, abriu a geladeira. Aquilo a fez franzir a testa quase imperceptivelmente. Não havia imposição no gesto, mas também não havia indiferença. Era como se ele entendesse a recusa dela, mas não a tratasse como definitiva. — Tem pão ou posso fazer algo rápido — disse ele, já pegando alguns itens. Sarah permaneceu parada por um instante, sem saber exatamente por que aquilo a incomodava. Não era invasivo. Não era exagerado. Era… constante. — Pão está bom — disse, por fim. Gabriel assentiu e começou a preparar sem pressa, com movimentos organizados, quase econômicos. Não havia bagunça desnecessária, nem pressa. Tudo parecia feito com atenção, como se até tarefas simples merecessem algum tipo de cuidado. Sarah puxou a cadeira e sentou, observando sem querer admitir que estava observando. — Você sempre faz isso? — perguntou. Ele olhou para ela por um instante. — Isso o quê? — Ignorar quando alguém diz que não precisa. Um canto quase imperceptível do rosto dele se moveu. — Eu não ignorei. Sarah ergueu uma sobrancelha, sustentando o olhar. — Ignorou sim. Gabriel apoiou o prato na mesa à frente dela antes de responder. — Eu considerei… e decidi fazer mesmo assim. A resposta veio tranquila. Sem defesa. Sem confronto. Sarah desviou o olhar para o prato, tentando esconder a reação imediata. Não estava acostumada a respostas que não tentavam ganhar a discussão. Aquilo não parecia disputa. Parecia decisão. — Você sempre decide assim? — perguntou, antes de perceber que estava prolongando a conversa. — Nem sempre — respondeu ele. — Só quando acho que vale a pena. O silêncio que veio depois não era desconfortável, mas também não era neutro. Havia algo ali que Sarah ainda não sabia como classificar. Ela pegou o pão, mordeu devagar e tentou se concentrar no gosto, no gesto, em qualquer coisa que não fosse a forma como ele permanecia presente no espaço sem precisar dizer mais nada. Gabriel não voltou ao celular. Não se afastou. Apenas ficou ali, apoiado na bancada, como se não tivesse pressa de sair, mas também não precisasse ocupar o silêncio com palavras. Aquilo era diferente. Muito diferente. Na maioria das vezes, as pessoas falavam demais para preencher o vazio. Ou ignoravam completamente, criando uma distância clara. Gabriel não fazia nenhuma das duas coisas. Ele permanecia. E aquilo, aos poucos, começava a desorganizar a forma como Sarah entendia as interações. — Você sempre foi assim? — perguntou ela, sem planejar. Ele olhou para ela com atenção leve. — Assim como? Sarah hesitou. — Calmo. Gabriel demorou um segundo antes de responder. — Nem sempre. A resposta veio sem explicação adicional. E, de forma estranha, isso pareceu suficiente. Sarah assentiu levemente, mesmo sem entender por que aquela resposta curta parecia carregar mais do que dizia. Havia algo nele que não era imediato, não era fácil de ler completamente. Era como se parte dele estivesse sempre um pouco fora de alcance. E isso prendia. Mais do que deveria. Quando terminou de comer, levantou-se e levou o prato até a pia. — Obrigada — disse, sem olhar diretamente para ele. — De nada. Simples. Direto. Mas, novamente, sem vazio. Sarah subiu para o quarto logo depois, tentando organizar a própria reação. Sentou-se na cama e ficou olhando para as mãos por alguns segundos, como se pudesse encontrar alguma resposta ali. Não havia nada de extraordinário no que tinha acontecido. Nenhuma conversa profunda. Nenhum momento marcante. Ainda assim… aquilo tinha peso. Ela percebeu que o problema não era o que Gabriel fazia. Era como ele fazia. A atenção. A calma. A ausência de pressa. Tudo isso criava uma sensação nova, uma espécie de estabilidade que ela não sabia como lidar. Porque estabilidade, para ela, sempre significou ausência. Mas com ele… parecia significar presença. E essa diferença, pequena e silenciosa, começava a ocupar mais espaço do que ela gostaria de admitir.
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