Beatriz respirou fundo, ainda nervosa, mas sentindo uma segurança que há muito tempo não conhecia. Olhou nos olhos de Bruno e disse, com firmeza:
— Tá… eu confio em você. Vamos fazer isso.
O sorriso de Bruno iluminou o rosto dele, mas ele manteve a calma, segurando a mão dela com delicadeza.
— Perfeito. Não vamos perder tempo. Hoje mesmo vamos ao cartório.
Pouco depois, estavam no carro, indo em silêncio para o cartório. Beatriz sentia o coração disparado, misturando medo, alívio e algo novo, quente, que crescia dentro dela — a sensação de estar finalmente segura nos braços de alguém que a amava de verdade.
No cartório, enquanto assinavam os papéis, Bruno segurava sua mão firme. Cada assinatura, cada passo dado, representava a liberdade que Beatriz estava conquistando. Não havia luxos, nem festas, nem olhares curiosos. Só eles dois, e a promessa de um futuro seguro, longe de Caio e de todo o controle que ele exercia.
— Pronto — disse Bruno, sorrindo para ela — Agora você é minha esposa.
Beatriz sorriu, emocionada, sentindo-se mais leve do que em anos.
— E eu sou sua — respondeu ela, a voz embargada, mas cheia de coragem.
O próximo desafio era enfrentar a família de Caio. Bruno não deixou que ela ficasse ansiosa; a envolveu com o braço e falou baixinho:
— Vamos juntos, Bia. Eu estou com você, ninguém vai te machucar.
Chegando à casa da mãe dela, Beatriz respirou fundo. Ela sabia que a conversa seria difícil, mas Bruno estava ao seu lado, e isso bastava. Com firmeza, eles entraram e anunciaram:
— A partir de hoje, Beatriz é minha esposa. E ela vai morar comigo.
A mãe dela arregalou os olhos, surpresa e indignada, mas Beatriz, pela primeira vez, não se sentiu intimidada. Havia alguém ao seu lado que a protegia, que a amava e que não permitiria que ninguém a manipulasse.
Bruno apertou levemente a mão dela, e Beatriz sorriu, sentindo uma mistura de alívio, gratidão e algo novo, que ainda não sabia nomear. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentia-se verdadeiramente livre.
E Bruno, ao olhar para ela, soube que aquele era só o começo — o começo de um amor que ele guardava há anos, silencioso, intenso, e agora, finalmente, poderia florescer.
Beatriz e Bruno estavam no quarto, colocando as roupas na mala, quando a porta se abriu de repente.
— Bia, eu quero falar com você — disse a mãe, séria.
— Pode falar, mãe.
— A sós.
Beatriz parou o que estava fazendo e respondeu, firme:
— Não. O que a senhora tiver que falar, fala na frente do Bruno. Ele é meu marido.
Bruno permaneceu em silêncio, dobrando as roupas e colocando na mala, atento a cada palavra.
A mãe respirou fundo, indignada:
— Você trocou o Caio… um homem rico, que ia te dar um futuro, por ele?
Beatriz soltou uma risada curta, sem humor.
— Um homem rico que espancava a própria noiva. E a senhora preferiu isso. Preferiu que sua filha casasse com um agressor, desde que tivesse dinheiro.
— Não fala assim comigo, Bia!
— Como a senhora quer que eu fale, mãe? — a voz dela começou a tremer, mas não recuou — Eu cheguei em casa com o rosto vermelho. Cheguei com o corpo machucado. Com hematomas no peito, nos braços. E a senhora nunca percebeu. Ou fingiu que não percebeu, porque estava ocupada demais com a sua própria vida.
— Com certeza você fez alguma coisa pra provocar ele — disse a mãe, fria.
Beatriz sentiu o estômago revirar.
— Ele falava a mesma coisa — respondeu, com os olhos marejados — Depois de me encher de socos, dizia que eu provoquei. Igual a senhora tá dizendo agora.
A mãe tentou se justificar:
— Eu só queria que você tivesse um futuro bom…
— Um futuro onde eu apanho? — Beatriz interrompeu — Onde eu sou forçada a emagrecer, controlada, humilhada? Onde eu chego na lua de mel pra ser estuprada, mãe? Porque era isso que ia acontecer.
O silêncio pesou no quarto.
— Depois — continuou Beatriz, com a voz firme e dolorida — ele ia fazer o que sempre fazia: jogar maquiagem cara em cima de mim e dizer “cobre os hematomas pra ninguém ver”. É isso que a senhora queria pra sua filha?
— Eu queria que você ficasse com alguém que pudesse te dar tudo…
— Eu já estou com alguém bom — Beatriz respondeu, olhando para Bruno — Dinheiro não é tudo na vida.
— Ah, Bia… aquele seu trabalho na lanchonete… — a mãe debochou.
Bruno finalmente falou, calmo e firme:
— Isso acabou. Ela é minha esposa agora. Não precisa mais trabalhar lá. Eu cuido dela.
— Quem você pensa que é? — a mãe disparou.
Bruno riu, sem humor:
— Pra senhora, dinheiro é tudo, né? Dá pra ver pelo jeito que fala comigo… e pelo jeito que tentou vender a própria filha.
Beatriz deu um passo à frente.
— Basta, mãe. Eu vou embora. Se um dia a senhora quiser me ver, eu passo um endereço. Mas só em local público. Do jeito que a senhora está obcecada por dinheiro, é capaz de me vender até casada.
— Filha, como você pode dizer uma coisa dessas?
— Porque é verdade — Beatriz respondeu, seca — Quanto é a proposta agora? Os 200 mil viraram quanto?
A mãe ficou em silêncio.
Beatriz riu, incrédula.
— Fala, mãe. Quanto?
— Quinhentos… — murmurou.
Bruno soltou uma risada amarga:
— Você tá vendendo sua filha por quinhentos mil.
— Eu preciso desse dinheiro, Bia… por favor…
Beatriz sentiu o coração apertar, mas manteve a postura.
— Então casa com ele, mãe. Aguenta o que eu aguentei. Assim a senhora ganha o dinheiro que quer.
A mãe começou a chorar.
— Porque quando ele me espancar até eu não conseguir levantar da cama — continuou Beatriz — a senhora não vai usar esse dinheiro pra me salvar. Vai comprar carro, roupa, luxo… e eu vou continuar presa nas mãos daquele monstro.
Ela respirou fundo.
— Eu não vou pra mão dele pra senhora ter dinheiro na conta. Se eu tiver que trabalhar dia e noite, eu trabalho. Dinheiro não compra paz. Não compra dignidade. Não compra felicidade.
Beatriz fechou a mala.
— Eu vou embora agora. E não volto.
Bruno segurou a mão dela, firme.
E pela primeira vez na vida, Beatriz saiu daquela casa não como filha obediente —
mas como uma mulher livre.