Como chegamos aqui

1227 Palavras
Cristiano lutou com as forças que tinha, mas de alguma maneira tudo sempre acabava dando errado, alugou um carro para trabalhar como motorista de aplicativo... Foi assaltado, começou a trabalhar com guincho... Demitido, o caminhão ficou sem o freio e bateu em outro carro, havia tomado uma dose de conhaque e isso fez com que na delegacia tudo piorasse. O dono do caminhão pagou as despesas, mas nem mesmo quis ouvir o que de fato havia acontecido. Helen havia emprestado dinheiro, tanto para o aluguel do carro, quanto para pagar a caução da casa em que estava com a mulher e a filha, já devia para a ex-companheira mais de quinze mil reais e apesar de ela nunca cobrar, ele se torturava, viu aonde ela chegou e onde ele estava, ficava óbvio que realmente a menina estava certa e que ele precisava mudar. - Desculpa mesmo, mas não tenho a quem recorrer, sou a bostα de um cara que não tem nem como se sustentar. Ela brincava, conversava, e sempre ajudava, mas todas as empreitadas falharam, cada uma delas, vender churrasco na praça, aplicativo de transporte, guincho, artesanato... Absolutamente tudo. Estava morando próximo a região central quando conheceu um agiota, precisava do dinheiro e não queria continuar pedindo a Helen, ali começaria o seu verdadeiro inferno. Perdeu tudo, os móveis que haviam sido comprados pela ex-companheira, a moto que ela também tinha ajudado a comprar e a liberdade, pois o homem queria seu lucro. Heloísa não tinha mais do que seis anos quando o agiota propôs que ela trabalhasse pela dívida do pai. - Ela é magrinha, mas aguenta, vou pegar leve e preparar ela para os clientes. Não tem opção, estou tentando te ajudar. É isso ou vocês três vão se encontrar com Deus, meu irmão. Realmente Muralha não teve escolha, foi para o sítio que pertencia aos pais no meio da madrugada, era um lugar distante, mas acreditava que a natureza serviria de abrigo. Ficou incomunicável, afastado de tudo e por um breve período achou que poderia ser feliz. Limpou o lugar, cortou árvores, fez móveis, caçava para comer e Paula ficou grávida, não era amor, mas tinham uma vida. Se afastou de Helen, a ex-companheira era como uma luz forte demais e que sempre acabava ofuscando aquilo que ele julgava ser certo, apagou os contatos, trocou o próprio número, queria conseguir fazer as coisas certas dessa vez. Estava decidido, não aconteceu. Estava na pequena vila comprando cigarros quando foi chamado por Erick e outros dois homens. Beberam juntos, conversaram sobre muitas coisas e entre tudo, uma proposta de trabalho, uma forma de realmente poder se vingar do destino que parecia que lhe perseguia. - É como um pacto com o diαbo, não pode voltar atrás. Está vendendo a sua alma, entende isso? - Não é como se valesse muita coisa. Respondeu, mas lembrou da ex-companheira, era o tipo de coisa que ela tentaria impedir, que diria ser loucura, foi quase como se ouvisse a voz de Helen dizendo que ele deveria ir embora, mas ficou... Nunca ouviu os conselhos dela nem mesmo quando estavam juntos, certamente não ouviria agora que apenas imaginou o que ela diria. - O que está disposto a fazer para ser um de nós? - Qualquer coisa! Escolhas ruϊns, geram consequências ruϊns... E no caso dele as proporções foram devastadoras. A família que resolveu priorizar apesar do sentimento que ainda guardava em seu peito pela ex foi o preço cobrado pela Tríade. Uma organização global, mas que havia nascido em Hong Kong e o desejo de vingança alimentou a sua alma e calou a sua voz. Hoje...Muitos e muitos anos depois daquelas escolhas, o mundo havia convergido para um casamento sem amor, uma aliança instável onde era visto com desconfiança e as cicatrizes que marcavam o seu corpo. Já não havia nada que o prendesse ao mundo, nem mesmo sombra da pessoa cheia de sonhos e expectativas. Enquanto sentia a mulher que era para ele uma estranha juntar o corpo ao dele se lembrou de tudo o que fez. Estava casado com Lara, uma mulher de quem tudo o que sabia era o nome e que havia sido uma das amantes de Ivan Bianchi, um dos líderes da organização a qual a Tríade havia se unido. Detestava o cheiro do perfume doce que ela usava, os cabelos longos que eram jogados de lado em uma tentativa que ele achava patética de sedução. Odiava cada gesto de Lara, a voz, a maquiagem, os brincos, as unhas longas e sempre pintadas em um tom escuro, mas por alguma razão, quando a noite ela se deitava ao seu lado, ainda que de costas, o corpo da mulher parecia se encaixar ao dele, tentava evitar, mas todas as manhãs acordava abraçado a ela. Se levantava o mais rápido que podia, tentava se afastar, xingava internamente pelo que julgava ser uma carência. Lara também nunca quis aquele casamento, Muralha não lhe atraia, tinha o rosto cheio de marcas e cicatrizes, um dos olhos tinha uma coloração esbranquiçada, a barba grande e descuidada, as roupas quase sempre sujas, assim como as unhas que tinham uma terra preta. Cometeu um erro e foi o que a levou aquele casamento. - Você me beijou aquele dia, não diz que não gostou. Fera era o chefe daqueles homens, Lara nunca tinha olhado para ele com interesse, mas depois que ele a beijou ela pensou que talvez fosse o caminho para conseguir o que precisava, tinha sonhos, sempre teve, mas foi impedida de vive-los. O homem que a desposou ainda criança era violento, não apenas na cama, mas também no dia a dia, cansou de apanhar até perder as forças, implorar por ajuda, contudo, por muito tempo o casamento na máfia fazia da mulher uma propriedade. Ainda se lembrava da resposta de Hermes. - Não irrite o seu marido e ele não vai te bater, não é um louco. Se apanhou é porque fez alguma coisa errada, apanhou mais quando o marido descobriu que ela buscou a ajuda do homem que chefiava a organização na época. Tudo aquilo era passado, ela estava viúva quando Ivan se separou de Sara, ela não conhecia as razões da separação, mas foi chamada como governanta, deveria cuidar da casa e das duas filhas do chefe da máfia e foi em um dia em que Ivan estava dormindo na varanda da casa que ele a puxou para um beijo quente, desesperado, impetuoso, ainda podia sentir a força das mãos grandes apertando o seu quadril, o sangue ferveu de desejo, teria entregue a ele cada parte do seu corpo, mas foi quase arremessada para longe. Ela demorou para entender, mas com o tempo e as conversas soube que na verdade Fera estava sonhando com a ex-mulher quando ela se aproximou, o excesso de bebida não permitiu que Ivan distinguisse a realidade do sonho, mas antes que fossem em frente ele se desculpou. Quase gritou as desculpas, ela soube que nunca foi por ela que Ivan estava apaixonado, a chamou de “pequena” um apelido carinhoso que usava com Sara. Não foi a única vez que ele a procurou e nem a última que ela provou os lábios do chefe, mas isso resultou naquele casamento forçado. E lá estava ela, cumprindo um castigo que ela tinha certeza ter sido ideia de Sara para afastá-la de Ivan.
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