10 - Ceifador

1300 Palavras
Ceifador Narrando O camburão rodou por um tempão depois que saímos do fórum. Eu já sabia pra onde tava indo. Complexo de Bangu. Quem vive nessa vida sabe que, uma hora ou outra, o caminho pode acabar lá. O carro foi desacelerando até parar. Pela fresta da grade eu consegui ver os muros enormes, cinza, cheio de cerca de arame e torre de vigilância. — Chegamos — um policial falou lá na frente. A porta de trás abriu com aquele barulho metálico pesado. — Desce. Pulei do camburão com as mãos algemadas. Assim que meus pés tocaram o chão eu senti o peso do lugar. O ar parecia mais pesado. Mais fechado, Olhei em volta. Vários policiais penais armados. Gente entrando. Gente saindo, Preso sendo escoltado. Aquele vai e vem de quem já tá acostumado com aquilo ali. — Anda. Um agente segurou meu braço e começou a me conduzir pra dentro. Passamos por um portão gigante de ferro. Depois outro. E outro. Cada porta que fechava atrás de mim parecia um pedaço do mundo ficando pra trás. Um deles falou olhando uma prancheta. — Robson Monteiro. Outro respondeu: — Vulgo Ceifador. Ele levantou a sobrancelha. — Ah… Como se já tivesse ouvido falar. Me levaram pra uma sala pequena. Parecia um tipo de triagem. — Encosta ali. Apontou pro balcão. Fiquei parado enquanto um cara digitava num computador velho. — Nome completo. — Tu já sabe. Ele me olhou torto. — Só responde. Revirei os olhos. — Robson Monteiro. — Idade? — Trinta. — Crime? Soltei uma risada curta. — A lista é grande. Ele nem reagiu. Só digitou. Depois outro agente chegou. — Tira tudo. — Tudo o quê? — Roupa. Balancei a cabeça. — Sério? Ele cruzou os braços. — Procedimento. Suspirei, mostrei as mãos, ele abriu a algema. Tirei a camisa. Depois o resto. Eles revistaram tudo. Olharam até dentro da minha boca, Um deles falou: — Vira. Revista padrão. Humilhante. Mas quem cai no sistema já sabe que é assim. Depois jogaram um uniforme bege em cima da mesa. — Veste isso. Coloquei a roupa de preso. Tecido áspero pra Carälho. Nada confortável. Um agente colocou uma pulseira de identificação no meu braço. — Pela tua pena, tu vai ficar no regime fechado. Outro completou: — Ala de segurança máxima. Dei um sorriso de canto. — Que honra. Ele ignorou. Depois me algemaram de novo e começaram a me levar pelos corredores do presídio. O lugar era um labirinto de concreto. Barulho de ferro batendo. Grade abrindo, Grade fechando. Preso gritando lá dentro. Ecoando pelos corredores. — Olha aí quem chegou! — alguém gritou de uma cela. Outro respondeu: — Mais um pra coleção. Eu continuei andando. Cabeça erguida, Sem olhar muito pros lados. Porque dentro de cadeia tem regra também. E olhar demais pode virar problema. Chegamos em outro portão. Um agente bateu duas vezes. A porta abriu devagar. Entramos numa galeria. Cheiro forte de suor, mofo e comida velha. Um monte de cela alinhada dos dois lados. Barulho de conversa. Televisão ligada em algum canto, Um preso encostado na grade me olhou. — E aí, parceiro. Mas o agente empurrou meu ombro. — Segue. Paramos na frente de uma cela. Ele abriu a porta. — Vai ficar aqui. Olhei lá dentro. Pequena. Duas camas de concreto. Um vaso sanitário no canto. Uma pia minúscula. E um cara sentado na cama de baixo. Ele levantou o olhar quando me viu entrar. O agente tirou minhas algemas. — Boa sorte. A porta bateu atrás de mim. O barulho ecoou no corredor. Eu fiquei parado por um segundo. O cara dentro da cela me analisava em silêncio. — Tu que é o Ceifador? Ele perguntou. Eu dei um sorriso de lado. — Depende, quem quer saber? Ele riu baixo, Eu caminhei até a outra cama. Sentei. Passei a mão no rosto. Olhei pras paredes sujas da cela. Respirei fundo. — Então é isso… Murmurei pra mim mesmo. Mas dentro da minha cabeça uma coisa tava muito clara. Isso aqui não vai ser o meu fim. Nem de longe. Porque enjaulado ou não. Eu ainda sou o Ceifador. Nem deu muito tempo de eu sentar na cama da cela e organizar os pensamentos quando o barulho começou no corredor. Grade batendo. Preso gritando. Passo de agente indo e vindo. Meu parceiro de cela, que até então tava quieto me observando, levantou devagar. — Hora do rango. Eu levantei a sobrancelha. — Já? Ele deu de ombros. — Aqui dentro o relógio é outro. A gente foi até a grade da cela quando um agente passou empurrando um carrinho de metal cheio de marmita de presídio. O cheiro já vinha antes de chegar. Arroz, Feijão. E alguma coisa que parecia carne, mas que Deus sabe o que era de verdade. O agente abriu a portinhola da grade e entregou duas bandejas de plástico. — Próximo! Meu parceiro pegou uma e me entregou a outra. Olhei pra comida. Arroz meio empapado. Feijão ralo. Um pedaço de carne com cara de cozido velho. E uma colher de farofa. — Bem-vindo ao cinco estrelas de Bangu — ele falou rindo. Eu sentei na cama com a bandeja no colo. Peguei a colher de plástico. — Já vi pior. Misturei o arroz com feijão e levei à boca. O gosto era, estranho. Não era horrível. Mas também não era bom. Era comida feita pra encher barriga, não pra dar prazer. A carne tava dura, a farofa seca. Mas eu tava com fome. Então comi. — Qual é teu nome? — perguntei entre uma colherada e outra. Ele limpou a boca com o braço. — Morte. Balancei a cabeça devagar. — Nome artístico? Ele riu. — Vulgo. Depois completou: — Sub do Santo Amaro. Ah. Então o cara tinha história. — E tu? Ele perguntou, mesmo já sabendo. — Ceifador. Ele assentiu como quem confirma algo que já imaginava. Terminamos o almoço em silêncio. Depois o agente passou recolhendo as bandejas. A tarde caiu pesada dentro da cela, Calor. Ar parado. Barulho de gente conversando nas outras celas. Alguns presos jogando dominó no chão da galeria. Outros discutindo futebol. Eu fiquei sentado na cama olhando o movimento. — Primeira vez em Bangu? — Morte perguntou. — Aqui sim. Ele deu um assobio baixo. — Então presta atenção. Eu olhei pra ele. — Aqui dentro tem dois tipos de gente. Ele levantou dois dedos. — Os que colam contigo. Baixou um. — E os que viram as costas. Fez uma pausa. — E é bom descobrir rápido quem é quem. Balancei a cabeça. — Relaxa. Ele me analisou por um segundo. — Já ouvi falar de tu lá fora. — Bom ou r**m? — Depende de quem conta. Dei um sorriso de canto. A tarde foi passando devagar. O calor dentro da cela parecia que derretia o cérebro. Em algum momento alguém ligou uma televisão velha no corredor. O barulho se misturava com conversa e risada. Até que mais tarde veio o grito do agente. — Janta! Mesma rotina. Carrinho passando. Bandeja de plástico entrando pela portinhola. Peguei a minha. Olhei. Arroz de novo. Feijão mais grosso dessa vez. Um pedaço de frango cozido. E um pedaço pequeno de abóbora. — Hoje tá chique — Morte falou rindo. Sentei na cama de novo e comecei a comer. O gosto era quase o mesmo do almoço. Simples. Sem tempero direito. Mas dava pra matar a fome. Enquanto comia, fiquei pensando. Em tudo que tinha ficado lá fora. Minha vó, Amanda. O meu morro. E aquela garota. Eloá. Passei a mão no rosto. Depois levantei os olhos pra galeria. Barulho de preso. Grade. Concreto. Ali dentro o jogo era outro. E eu preciso entender rápido quem vai colar comigo. E quem vai me virar as costas.
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