Ceifador Narrando
Quando eu bati o olho nela de perto. Püta que pariu.
Ela tava ainda mais linda do que eu lembrava. Sem exagero nenhum.
O cabelão cacheado solto, caindo pelos ombros, bem cuidado, dava pra ver que ela tinha perdido um tempinho arrumando aquilo ali, do jeito que chama atenção sem esforço.
Magrinha, Delicada.
E aquela roupa simples que ela tava usando, diferente daquela madrugada, que ela tava toda largada, assustada, agora dava pra ver melhor o corpo dela.
Nada exagerado, Mas na medida certa. Bonita pra Carälho.
Fiquei olhando ela sem pressa, analisando mesmo.
E ela? Travada.
Sentada na minha frente, tremendo, desviando o olhar, evitando me encarar.
Com medo.
Dava pra ver de longe.
Mas ela tava ali, ela veio.
E era só isso que eu queria ver.
Que ela ia obedecer.
Que ela ia aparecer quando eu mandasse.
Fiquei quieto, só olhando ela tirar as coisas da sacola.
Ela falou da minha vó.
Falou que tinha mandado umas coisas pra mim.
Falou da comida.
Da sobremesa que ela mesma fez. Eu só escutando, e olhando. Cada detalhe.
Cada movimento.
Até que eu resolvi falar.
— Quer dizer que você fez sobremesa pra mim?
Ela nem me olhou direito, só balançou a cabeça confirmando.
Aí que eu reparei melhor.
Olhos grandes, brilhantes.
Boca carnuda.
Nariz pequeno, certinho.
Pörra…
Parecia até um anjo. Mas aquele tipo de anjo inocente, tá ligado?
Que não faz ideia do mundo que caiu. Abri a vasilha da sobremesa.
E na mesma hora meu estômago roncou alto.
Ela soltou na hora, sem pensar:
— Vai comer primeiro a sobremesa?
Mas assim que percebeu, abaixou a cabeça, toda sem graça.
Eu dei um leve sorriso de lado.
— Levanta a cabeça.
Ela demorou um segundo, mas levantou.
Os olhos ainda meio inseguros.
— Me encara quando falar comigo.
Ela engoliu seco e assentiu.
— Sim.
Fiquei olhando mais um pouco.
Depois falei:
— Sim, eu vou começar pela sobremesa.
Peguei a colher.
— Pra ver se é gostosa igual alguém que fez.
Na hora ela ficou vermelha.
De verdade. Até o pescoço entregou.
Respiração dela ficou descompassada.
Dava pra ver o nervosismo.
Quase ri.
— Respira — falei, de boa. — Senão tu vai acabar tendo um troço aqui mesmo.
Ela puxou o ar devagar e balançou a cabeça.
— Tá…
Peguei a primeira colherada.
Levei na boca.
E… Carälho.
— Püta que pariu.
Falei sem nem pensar.
O gosto era bom demais.
Doce na medida, Cremoso. Perfeito.
— Isso aqui tá bom pra Carälho.
Ela me olhou meio surpresa.
Eu não parei, Fui comendo.
Uma colher atrás da outra.
Sem vergonha nenhuma.
E quanto mais eu comia, mais eu queria.
— Tu mandou bem demais nisso aqui — falei, entre uma colherada e outra.
Ela só ficou me olhando, meio sem saber como reagir.
Quando vi. Já tinha acabado tudo. Raspei a vasilha sem dó.
Passei a colher até não sobrar nada.
Encostei na mesa e soltei:
— Bom pra Carälho.
Olhei pra ela.
— Na próxima semana faz de novo.
Ela assentiu na hora.
— Faço.
Sem discutir.
Sem questionar.
Do jeito que tem que ser.
Depois comecei a mexer nas outras vasilhas.
Misturei tudo ali mesmo e comecei a comer.
A fome bateu forte.
Aqui dentro a comida é uma mërda.
Então a comida de casa, bem temperada. é luxo.
Dei uma garfada no frango.
Pare na hora.
— Esse frango aqui…
Olhei pra ela.
— Foi a Amanda que fez, né?
Ela levantou o olhar, e pela primeira vez. Sorriu.
— Foi sim.
E naquele momento, eu travei um pouco. Porque o sorriso dela. Era bonito pra Carälho.
Não era forçado, não era por medo. Era leve. Natural.
E isso me pegou desprevenido, foi só falar na minha irmã, e ela sorriu.
Fiquei olhando mais tempo do que devia. Observando mesmo.
Cada detalhe. A forma que o rosto dela mudava quando sorria. A forma que os olhos dela brilhavam.
E uma parada estranha bateu aqui dentro. Uma sensação que eu não tô acostumado.
Nunca fui de reparar assim em ninguém. Nunca fiquei encarando sorriso de mulher.
Nunca fiquei analisando detalhe.
Mas aqui, eu tô. E nem percebi quando isso começou.
Balancei a cabeça de leve, voltando pra realidade.
Continuei comendo.
Mas de vez em quando. Eu olhava pra ela, ela desviava
Sempre.
Como se não tivesse coragem de sustentar meu olhar.
E isso só me fazia querer olhar mais.
Talvez seja porque aqui dentro não tem pörra nenhuma pra fazer.
Ou talvez, Sei lá.
Só sei que essa mina.
Sentada na minha frente. Tremendo, com medo, mas ainda assim aqui.
Tava mexendo comigo de um jeito que eu não tô acostumado.
E isso. Pode dar problema.
Eu terminei de comer mais uma garfada, olhando pra ela.
Ela tava quietinha demais.
Só respondendo quando precisava.
E isso já começou a me incomodar.
— Tu é assim com todo mundo, ou só Comigo?
Ela levantou o olhar rápido, meio assustada.
— Eu… desculpa…
Fiz um gesto com a mão.
— Para com isso. Fala normal.
Ela assentiu.
— Tá…
Apoiei os braços na mesa, encarando ela.
— Tu saiu de casa esses dias?
Ela negou na hora.
— Não, só saí com a sua avó e com a Amanda.
Assenti devagar.
— Só com elas?
— Só.
Dei uma leve inclinada pra frente.
— E papo com vapor? Tá de conversinha com alguém?
Ela arregalou os olhos, negando rápido.
— Não! Não, eu não falo com ninguém.
A voz saiu até meio atropelada.
— Só com a Amanda e com a dona Lindalva.
Fiquei olhando ela por uns segundos. Tentando ver se tinha mentira ali.
Mas não tinha.
Ela tava sendo direta.
Limpa.
Do jeito que eu gosto.
— Gostei do que eu tô vendo.
Ela não respondeu, só ficou quieta. Ela engoliu seco.
Vi o desconforto.
Mas não falei mais nada sobre isso.
Olhei pra ela de novo.
— Quantos anos tu tem?
— Dezoito.
Assenti, Fiquei analisando ela.
Muito nova.
Balancei a cabeça devagar.
— Sempre quietinha assim?
Ela deu de ombros, meio sem jeito.
— Eu, sempre fui mais na minha.
Fiquei em silêncio por um momento.
Depois falei direto:
— Eu não fui atrás de tu à toa não.
Ela me olhou, confusa.
— Eu fui atrás do que era meu.
A expressão dela mudou.
— Sua mãe que mandou tu pra mim como pagamento.
Ela respirou fundo.
E aí veio.
— Filipa não é minha mãe.
Olhei pra ela, esperando continuar.
— Ela é minha madrasta.
A voz dela saiu mais firme agora.
— Ela sempre me odiou, só me suportava por causa do meu pai.
Fiquei quieto, ouvindo.
Ela respirou fundo de novo, como se tivesse criando coragem.
— Eu sei que você não gosta que falem sobre suas decisões.
Levantei levemente a sobrancelha. Mas deixei ela continuar.
— Mas eu acho um absurdo.
Ela falou, direto.
Sem gaguejar.
— Eu pagar por uma dívida que é dela.
Aquele jeito quietinho tinha sumido por um segundo.
Agora tinha revolta ali.
— Meu pai pegou o dinheiro pro tratamento dela. — ela continuou. — E pra comprar a casa.
Os olhos dela começaram a brilhar, segurando emoção.
— Por que eu tenho que pagar?
Fiquei olhando ela, Sem pressa. Sem expressão.
Deixando ela sentir o peso da pergunta que fez.
O silêncio ficou pesado entre a gente. Inclinei um pouco o corpo pra frente.
— Se tu quiser.
Falei baixo.
— Eu posso cobrar dela.
Ela ficou me olhando, sem entender.
— A casa eu já tomei.
Falei tranquilo.
— Já voltou pra mim. É minha.
Parei por um segundo.
Segurando o olhar dela.
— Igual você.
Vi na hora o corpo dela travar.
O olhar prender no meu. Falei firme.
— Eloá. Você é minha.
O silêncio caiu pesado de novo. Ela não respondeu.
Mas eu vi. O impacto.
O medo.
E também…
A realidade começando a entrar na cabeça dela.
Inclinei de novo pra trás, como se não fosse nada.
— Entendeu?
Ela demorou um pouco.
Mas assentiu devagar. Sem força, Sem escolha.
E eu só fiquei olhando.
Porque agora. Ela tá começando a entender o lugar dela.