17 - Eloá

1521 Palavras
Eloá Narrando A semana inteira eu lutei contra mim mesma. Desde o momento em que o advogado saiu pela porta de casa, levando meus documentos e deixando aquela sentença no ar: — Domingo você vai ao presídio — eu não tive mais paz. Eu não quero ir. Não quero nem pensar naquele lugar. Presídio. Só a palavra já me dá arrepios. Passei dias tentando juntar coragem, mas tudo que eu conseguia era chorar escondido. Chorava no banho, chorava deitada olhando pro teto, chorava baixinho pra ninguém ouvir. Também rezei. Rezei como nunca tinha rezado antes. Pedia pra Deus me livrar daquilo, pra alguma coisa acontecer e eu não precisar ir. Mas no fundo, eu sabia. Eu não tinha escolha. Foi numa dessas tardes que a dona Lindalva sentou comigo. Ela me chamou pra cozinha, com aquele jeitinho calmo dela, e apontou pra cadeira. — Senta aqui, minha filha. Sentei devagar, já sentindo o coração apertar. Ela ficou me olhando por alguns segundos, como se estivesse escolhendo bem as palavras. — Eu sei que você tá com medo. Baixei os olhos. — Eu não quero ir. — minha voz saiu baixa, quase falhando. Ela suspirou. — Eu sei. Ficamos em silêncio por um instante. — Se eu pudesse, eu iria no seu lugar — ela continuou, com a voz firme. Levantei o olhar, surpresa. — A senhora iria? Ela assentiu sem hesitar. — Iria. Sem problema nenhum. Meu peito apertou ainda mais. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela continuou: — Mas você precisa ter certeza de uma coisa. Engoli seco. — O quê? Ela me olhou fundo, séria agora. — Que toda escolha tem consequência. Senti um frio passar pelo corpo. — Eu amo meu neto — ela disse, com firmeza. — E quando o Robson gosta de alguém, ele gosta de verdade. Fiquei em silêncio, ouvindo cada palavra. — Ele cuida. Ele protege. É assim comigo, com a Amanda. Com o Fred. Ela fez uma pequena pausa. — Mas quando desobedecem, ele corrige. Meu coração disparou. — E eu tenho certeza — ela continuou — que se você não for, ou se ninguém for, mesmo lá de dentro, ele vai mandar a correção. Minhas mãos começaram a tremer. — E o Fred, os meninos, vão ter que obedecer. Porque senão, eles também são punidos. Uma lágrima desceu pelo meu rosto. — Eu não quero que ninguém se machuque por minha causa. — sussurrei. Ela segurou minha mão. — Então pensa com calma, minha filha. Não é só sobre você. Fiquei ali, em silêncio, sentindo o peso de tudo cair sobre mim. Na sexta-feira, ela me chamou pra sair. — Vamos no mercado — disse, como se fosse algo simples. Amanda tinha ido pra faculdade, então fomos só nós duas. E mais um vapor dirigindo. Entrei no carro quieta, abraçando meus próprios braços. Mas quando olhei pelo retrovisor, meu coração quase saiu pela boca. Tinha várias motos atrás do carro. Muitas. Uma atrás da outra. Como se fosse uma escolta. Engoli seco e olhei pra frente de novo, tentando fingir que tava tudo normal. Respirei fundo. Isso não é normal. Nada daquilo era. Chegamos ao mercado, e eu desci do carro meio travada. A dona Lindalva parecia tranquila, como sempre. Pegamos o carrinho e começamos a andar pelos corredores. — Vamos Pegar o que ele gosta — ela disse. Assenti em silêncio. Mas eu mäl conseguia me concentrar. Porque toda vez que eu virava, tinha alguém. Um vapor Parado, Olhando. Observando. Como se estivesse me vigiando. Meu coração acelerava cada vez que eu percebia. Fingi que não tava vendo, mas por dentro o medo só crescia. — Tá tudo bem? — dona Lindalva perguntou, percebendo meu silêncio. Forcei um sorriso. — Tá. Mas não tava. Nada tava bem. A gente terminou as compras e voltou pro carro. As motos ainda estavam lá. Nos acompanhando. O trajeto de volta pareceu mais longo. E quando finalmente chegamos na casa. Eu senti um alívio tão grande que quase chorei.bAssim que entrei, respirei fundo. Ali dentro… Eu me sentia segura. Perto da dona Lindalva. Era como se aquele fosse o único lugar onde eu podia respirar sem medo. Mas nem tudo era paz. Têm dois vapores. Que sempre estavam por perto. E eles me olhavam de um jeito. Que me causava aflição. Um olhar pesado. Frio. Como se eu fosse, nada. Ou pior. Como se eu fosse um objeto. Evitei cruzar com eles. Evitei olhar, Evitei passar perto. Mas mesmo assim. Eu sentia. E isso só aumentava meu medo. Subi pro meu quarto e fechei a porta. Encostei nela e deslizei até o chão. Domingo tá chegando. E junto com ele. Algo dentro de mim dizia que minha vida está prestes a mudar de um jeito que eu não sei, se vou conseguir voltar atrás. No sábado à noite, eu tentei ocupar minha cabeça. Se eu parasse pra pensar, eu surtava. Então quando a dona Lindalva chamou, eu fui na mesma hora. — Vem, Eloá, vamos começar as coisas de amanhã. Assenti e segui ela até a cozinha. Amanda já tava lá, com o cabelo preso e uma blusa larga, mexendo em umas panelas. — Até que enfim — ela falou, sorrindo de leve. — Vem ajudar, também. Revirei os olhos, mas acabei sorrindo também. A cozinha já tava cheia de coisa separada. Vasilhas transparentes em cima da mesa, tudo organizado. A dona Lindalva era extremamente cuidadosa com isso. — Lá não pode entrar qualquer coisa — ela explicou, enquanto mexia uma panela. — Tem que ser tudo do jeito que eles permitem. Cheguei mais perto e comecei a ajudar. O arroz já tava pronto, soltinho, ainda soltando vapor. A gente colocou com cuidado na vasilha, sem encher demais. Depois veio o feijão, bem temperado, com aquele cheiro que dava até fome. — Coloca só um pouco do caldo — dona Lindalva orientou. — Pra não vazar. Assenti e fiz exatamente como ela disse. Amanda tava cuidando da carne. Era frango refogado, bem douradinho, com cebola e tempero forte. — Ele gosta assim — ela comentou. — Bem temperado. Fiquei em silêncio, só observando. Tudo ali era pensado pra ele. Cada detalhe, Cada cuidado. A gente foi montando as marmitas com atenção. Nada podia estar fora do lugar. Depois veio o básico também. Pão, Queijo. Presunto. Amanda abriu os pacotes e foi montando direitinho. — Isso aqui é pra ele comer mais tarde — ela explicou. Pegamos as garrafas pet e colocamos suco. Tudo simples, Sem exagero. Só o que era permitido entrar. Nada além. Eu observava tudo, tentando aprender, tentando não pensar no fato de que eu estaria lá no dia seguinte. — E a sobremesa? — Amanda perguntou, me olhando. Respirei fundo. — Eu faço. A dona Lindalva sorriu. — Então faz, minha filha. Fui até a bancada e comecei. Pensei em algo simples, mas gostoso. Algo que desse um pouco de conforto. Resolvi fazer um pavê de chocolate com biscoito maisena. Separei os ingredientes. Comecei fazendo o creme. Na panela, misturei o leite condensado, o chocolate e o creme de leite, mexendo devagar até engrossar. O cheiro começou a tomar conta da cozinha. Amanda se aproximou na hora. — Meu Deus, isso tá com uma cara boa. Sorri de leve, mexendo sem parar pra não empelotar. — Calma que ainda não tá pronto. Depois preparei o leite pra molhar os biscoitos. Fui montando em uma vasilha das que iam. Camada de biscoito, Camada de creme. E assim por diante. Com cuidado, Com calma. Como se aquilo fosse mais do que uma sobremesa. Talvez fosse. Quando terminei, finalizei com uma camada generosa de creme por cima e um pouco de chocolate polvilhado. Ficou bonito, Simples. Mas no ponto. — Eu vou fazer outro pra gente — falei. Amanda abriu um sorriso na hora. — Amém. A dona Lindalva provou um pouquinho do creme ainda na panela. E fechou os olhos. — Eloá, isso aqui tá maravilhoso. Senti um calor no peito. — Sério? Ela assentiu. — Muito bom mesmo. Amanda já pegou uma colher. — Se deixar eu como isso tudo sozinha. Ri baixo. — Ainda bem que eu fiz dois. A gente terminou de organizar tudo. Colocamos as marmitas nas sacolas. Separadas. Tudo nas vasilhas transparentes, certinho, do jeito que podia entrar no presídio. Nada fora das regras. Nada que pudesse dar problema. Depois sentamos um pouco pra comer o pavê que eu fiz pra gente. Amanda deu a primeira colherada e arregalou os olhos. — Eu comeria isso todo dia, sem nem reclamar. Soltei uma risada baixa. — Exagerada. — Tô falando sério — ela insistiu. — Tu leva jeito pra isso. A dona Lindalva também comeu, satisfeita. — Fazia tempo que eu não comia uma sobremesa assim. Fiquei feliz, de verdade. Por alguns minutos. Eu esqueci. Esqueci do medo, do presídio. Do que me esperava. Ali, naquela cozinha, com elas duas. Parecia que tudo tava normal. Mas quando levantei o olhar e vi as sacolas prontas em cima da mesa. Meu coração apertou de novo. Porque aquilo ali era um lembrete. Amanhã. Eu não tenho mais como fugir.
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