13 - Ceifador

1374 Palavras
Ceifador Narrando O dia começou igual aos outros aqui dentro. Barulho de grade. Gente gritando no corredor. Preso discutindo por besteira. Eu tava sentado na cama da cela quando um agente apareceu na frente da grade. — Ceifador. Levantei a cabeça devagar. — Levanta aí. Visita. Meu parceiro de cela, o Morte, olhou pra mim com a sobrancelha levantada. — Já começou bem. Eu levantei da cama, estiquei os ombros e fui até a grade. O agente abriu e fez sinal, eu estendi as mãos e me algemaram. — Bora. Saí da cela com dois agentes me escoltando pelo corredor. A gente passou por várias galerias até chegar numa sala pequena que eles usam pra visita de advogado. Assim que entrei, vi ele sentado na mesa. Terno, Pasta cheia de papel. Cara de quem dorme pouco. Meu advogado. Ele levantou quando me viu. — Robson. Eu puxei a cadeira e sentei. — Fala logo. Ele abriu a pasta. — Eu já consegui acesso ao processo. Cruzei os braços. — E aí? Ele respirou fundo. — A condenação inicial foi de vinte e cinco anos em regime fechado. Revirei os olhos. — Já sei disso. Ele levantou um dedo. — Mas calma. Isso é a sentença inicial. Ainda tem recurso. — Então trabalha nisso. Ele assentiu. — É exatamente o que eu vou fazer. Folheou alguns papéis. — Vamos tentar reduzir essa pena com base em alguns pontos do processo. Eu fiquei olhando pra cara dele. — Quanto tu acha que consegue cortar? Ele pensou antes de responder. — Se tudo correr bem, dá pra reduzir alguns anos. Balancei a cabeça devagar. — Alguns anos ainda é muito tempo. Ele encostou na cadeira. — Por isso você precisa me ajudar. Franzi a testa. — Como? Ele apontou discretamente pra mim. — Bom comportamento. Eu soltei uma risada curta. — Tá de sacänagem. — Não. Ele ficou sério. — Aqui dentro isso conta muito. Se você mantiver bom comportamento, evita punições e participa das atividades que o presídio oferece. Eu interrompi. — Que atividades? Ele deu de ombros. — Trabalho interno, estudo, essas coisas. Bufei. — Eu não nasci pra isso. Ele continuou mesmo assim. — Isso pode ajudar em duas coisas importantes. Levantou um dedo. — Redução de pena. Depois levantou o segundo. — E também pode antecipar uma nova audiência. Isso chamou minha atenção. Inclinei um pouco pra frente na cadeira. — Como assim? — Se o juiz entender que você tá colaborando com o sistema, existe a possibilidade de revisão de alguns pontos da pena. Fiquei em silêncio alguns segundos pensando. Não porque eu queria ser preso exemplar. Mas porque qualquer coisa que me tire daqui antes já é vantagem. Passei a mão no queixo. — Então tu faz teu trabalho lá fora, e eu faço o mínimo aqui dentro. Ele assentiu. — Exatamente. Encostei na cadeira. — Beleza. Depois lembrei de uma coisa. — Preciso mandar um recado. Ele pegou a caneta na hora. — Pode falar. — Pro Fred. Ele começou a anotar. — Diz pra ele que eu quero que a Eloá venha me ver. Ele levantou os olhos. — Só ela? — Só ela. Falei firme. — Não manda mais ninguém. Ele escreveu. — Entendi. — Nem Amanda. Nem minha vó. Nem ninguém. Ele anotou tudo. — Apenas Eloá. Assenti. — Isso. Mandei ele anotar mais algumas coisas, pra passar pro Fred. Não confiar em mãos ninguém, só nele. Ele fechou a pasta depois. Fred sempre foi meu braço direito. Se tem alguém que consegue manter as coisas funcionando lá fora, é ele. O advogado se levantou. — Vou trabalhar nesses recursos o mais rápido possível. Levantei também. — Faz isso. Olhei bem nos olhos dele. — Porque eu não pretendo passar muito tempo nesse inferno não. Ele deu um leve sorriso. — Eu sei. O agente bateu na porta da sala. — Acabou o horário. Os dois vieram até mim. — Mãos pra trás. Coloquei as mãos atrás do corpo enquanto eles colocavam a algema. Depois me levaram de volta pelos corredores. Grade abrindo. Grade fechando. Barulho de metal ecoando por todo lado. A gente passou por outras galerias cheias de preso olhando. Alguns cochichavam quando me viam passar. Quando chegamos na minha, o agente abriu a porta da cela. — Entra. Entrei. Morte tava sentado na cama. — E aí? Ele perguntou. — Boas notícias? Eu sentei de novo na minha cama e passei a mão no rosto. — Mais ou menos. Ele inclinou a cabeça. — Explica. Olhei pro teto de concreto da cela. — O advogado tá tentando mexer na minha pena. Depois virei pra ele. — Mas uma coisa é certa. Cruzei os braços. — Eu não vou ficar vinte e cinco anos preso aqui dentro. Ele deu um sorriso de canto. — E como tu pretende evitar isso? Deitei na cama e encarei o teto. — Ainda tô pensando. Mas uma coisa já tava decidida na minha cabeça. Eu vou sair daqui, de um jeito ou de outro. A tarde no presídio é a pior parte do dia. Depois do almoço parece que o tempo para. O calor fica pesado dentro da cela, o ar não circula direito e o barulho da galeria vai ficando cada vez mais irritante. Preso conversando alto. Gente discutindo. Grade batendo. Eu tava sentado na beira da cama olhando pro corredor quando começou aquela movimentação diferente. Agente andando de um lado pro outro. Portão abrindo. Gente gritando. — Hoje é dia de visita — Morte falou, esticando as pernas na cama de cima. Eu olhei pra ele. — Aqui dentro? Ele soltou uma risada curta. — Onde mais seria? Encostei na parede e fiquei observando. Alguns presos começaram a se arrumar. Trocando de camisa, passando água no rosto, tentando ficar com uma aparência menos ferrada possível. Outros já estavam na grade, olhando ansiosos pro corredor. Eu sabia que aquilo não era pra mim ainda. O advogado já tinha avisado. Primeira visita de familiar só a partir da próxima semana. Mesmo assim fiquei pensando. Tomara que Eloá venha. Porque eu mandei o recado bem claro pro Fred. Só ela e ninguém mais. Se ela resolver criar problema, vai ser ruïm pra ela. Passei a mão no queixo pensando nisso. Porque uma coisa é certa. Eu não gosto de repetir ordem. E se ela achar que pode me desobedecer, eu vou ter que mandar dar um corretivo nela pra aprender. Nem aqui de dentro não dá pra perder o respeito. Morte perguntou. — Tua família vem? Balancei a cabeça. — Ainda não. Só, Semana que vem. Ele ficou olhando a movimentação da galeria. Alguns presos já estavam sendo chamados pra área de visita. Morte soltou um suspiro. — Minha família nunca ligou pra mim. Olhei pra ele. — Nem antes? Ele deu de ombros. — Muito menos agora. Depois riu de leve. — A única família que eu tenho é a do tráfico. Fiquei quieto. Ele continuou. — Mas aqui dentro ninguém pode vir fazer visita. Porque se vier, acaba ficando. Demorei um segundo pra entender. Depois soltei uma risada. — Ah, companhia de cela? Ele apontou pra mim. — Exatamente. A gente riu. Porque no fundo era verdade. Os cara tudo com ficha füdida, igual a nossa. Eu me levantei e fui até a grade olhar o corredor. Preso sendo chamado. Agente gritando nome. Família entrando na área de visita. Voltei pra minha cama e sentei. — Eu tenho minha vó. — falei. Passei a mão no rosto. — Tenho minha irmã também. Morte assentiu. — Então tá suave. Balancei a cabeça devagar. — Mas eu não quero que elas venham não. Ele franziu a testa. — Por quê? Olhei pro chão por um instante. — Porque eu não quero que elas me vejam aqui. Aquela frase saiu mais pesada do que eu queria. Aqui dentro todo mundo vira outra coisa. Outra versão de si mesmo. E eu não queria que minha vó ou Amanda vissem isso. Fiquei em silêncio alguns segundos. Depois dei um sorriso de canto. — Mas semana que vem eu vou receber uma visita aí. Morte levantou a sobrancelha. — Mulher? — Sim. Cruzei os braços e encostei na parede. — Já tô até ansioso.
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