Eloá Narrando
Assim que cheguei em casa, senti aquele alívio estranho de estar de volta, mas ao mesmo tempo carregando tudo que tinha acontecido lá dentro. Dona Lindalva já tava me esperando na sala, sentada, como se não tivesse saído dali desde que eu fui. Assim que me viu, levantou na hora.
— Como foi, minha filha?
Ela perguntou, vindo na minha direção.
— E ele? Como tá?
Respirei fundo, tentando organizar as palavras.
— Ele tá bem, na medida do possível.
Entreguei a bolsa pra ela, junto com a sacola com as roupas sujas dele.
— Trouxe isso.
Ela pegou na mesma hora.
— Deixa comigo, vou botar na área.
Assenti e não falei mais nada. Eu só queria um banho.
Subi direto pro quarto, tirei a roupa e entrei debaixo do chuveiro. A água quente caiu sobre o meu corpo, e eu fechei os olhos na mesma hora, tentando relaxar, tentando esquecer.
Mas não consegui.
Porque veio tudo de novo.
Os lábios dele, O beijo.
A mão firme na minha cintura, no meu rosto. A voz dele perto do meu ouvido.
Eu podia sentir como se ainda estivesse ali. Um arrepio subiu pelo meu corpo inteiro, me fazendo prender a respiração por um segundo.
Abri os olhos na hora.
Balancei a cabeça, como se pudesse afastar aquilo.
Terminei o banho rápido, tentando não pensar mais nisso, me vesti com uma roupa confortável e desci.
Encontrei dona Lindalva na cozinha.
— Quer ajuda?
Perguntei, meio sem jeito.
Ela olhou pra mim e sorriu.
— Já tá tudo pronto, minha filha. Pode sentar.
Assenti e fui me sentar. Logo depois, Amanda chegou também, cheia de energia como sempre, falando qualquer coisa da faculdade.
A gente jantou nós três.
Por alguns minutos, parecia uma vida normal.
Mas aquilo tava preso dentro de mim.
E eu sabia que precisava falar.
Criei coragem, respirei fundo e soltei:
— Ceifador falou, que eu sou a fiel dele.
As duas olharam pra mim na mesma hora.
Continuei, mesmo sentindo meu rosto esquentar.
— E que eu vou visitar ele nas quintas também, além do Domingo.
Amanda arregalou levemente os olhos, e dona Lindalva ficou séria, pensativa.
— Toda semana?
Ela perguntou.
— São dois dias de visita lá.
Ela fez uma pausa.
— Pensei que fosse só um.
Meu coração acelerou.
Eu abaixei a cabeça, sentindo a vergonha tomar conta de mim.
Mas falei.
— Quinta-feira. É visita íntima.
Minha voz saiu baixa.
O silêncio caiu na mesa, pesado.
Eu apertei as mãos no colo, sentindo o nervoso voltar com tudo.
— Ele, exigiu.
Falei por fim, quase sussurrando.
Não tive coragem de levantar o olhar. Fiquei ali.
Esperando alguma reação.
Sem saber o que vinha depois.
Dona Lindalva ficou em silêncio por alguns segundos depois que eu falei, o olhar dela mudou na hora, firme, daquele jeito que dá pra ver que ela não gostou nem um pouco.
— Isso não tá certo, não.
Ela falou, balançando a cabeça.
— Você é uma moça de respeito, minha filha, isso aí é coisa pra essas giriquita.
Meu coração apertou, porque no fundo era exatamente assim que eu me sentia perdida no meio de uma coisa que eu não entendia.
Ela continuou, já se levantando um pouco nervosa:
— Vou falar com o Fred, isso precisa ser resolvido.
Antes que eu falasse qualquer coisa, Amanda se meteu, mais calma, mas direta:
— Vó, se a Eloá é a fiel dele, é justo que ela vá.
O silêncio caiu de novo.
Dona Lindalva parou no meio do movimento, como se tivesse lembrado de algo importante, e levou a mão à testa.
— Meu Deus, é mesmo.
Ela voltou a olhar pra mim, agora com outro tipo de expressão, mais séria, mais consciente.
— Minha filha, então você agora é minha neta também.
Ela veio mais perto e colocou a mão no meu ombro.
— A mulher do chefe.
Engoli seco. Isso ainda é estranho demais pra mim.
— Eu não sou de acordo com essa tal de visita íntïma.
Ela suspirou.
— Mas como mulher dele, você tem que ir.
Eu sorri fraco, sem força, só por educação mesmo.
Mas fiquei quieta.
Não tive coragem de falar que ainda sou virgem.
Aquilo já tava difícil demais, eu não queria tornar tudo ainda mais vergonhoso.
Depois que a conversa acabou, dona Lindalva falou com mais suavidade:
— Vai descansar, minha filha.
Assenti.
Me levantei, lavei as mãos na pia, ainda meio perdida nos meus próprios pensamentos.
— Boa noite.
— Boa noite.
Elas responderam.
Subi pro quarto devagar, sentindo o cansaço bater, mas a cabeça, não parava.
Passei pelo quarto dele.
Parei na porta, Olhei.
Por impulso, entrei.
O quarto tava arrumado, silencioso, com a presença dele ali mesmo sem ele estar.
Fiquei alguns segundos parada no meio do quarto, olhando em volta.
Mas não tive vontade de ficar.
Não ainda.
— Amanhã eu arrumo isso.
Murmurei pra mim mesma.
— Troco os lençóis, deixo do meu jeito.
Talvez assim, eu me sentisse menos deslocada ali. Saí e fui pro meu quarto.
Escovei os dentes, prendi o cabelo de qualquer jeito e me joguei na cama, exausta.
Mas não era um cansaço físico. Era da mente, de pensar demais, de sentir demais.
De não entender nada.
Fechei os olhos, tentando dormir. Mas o celular vibrou.
Abri na hora. Era ele.
Meu coração disparou.
A mensagem era direta:
— Manda uma foto de agora.
Eu sentei na cama, ajeitei o cabelo rápido com as mãos, posicionei o celular e tirei uma selfie simples.
Enviei. Fiquei esperando.
Segundos depois, veio a resposta, Um coração.
E outra mensagem:
— Linda pra Carälho.
Senti meu rosto esquentar na hora.
— Não vejo a hora de te ver de novo.
Parei.
Mas ele continuou:
— E dessa vez, sem nada cobrindo teu corpo.
Meu estômago revirou, não de nojo. De nervoso.
Respirei fundo e não respondi essa parte. Continuei a conversa normal.
Falamos sobre a vó dele, contei como ela reagiu, ele respondeu tranquilo, como se já esperasse.
Depois, ele mandou um áudio.
Eu coloquei no ouvido.
E na mesma hora…
Me arrepiei inteira.
A voz dele, rouca, baixa. parecia que tava perto de mim. Fechei os olhos sem perceber.
Aquilo mexia comigo de um jeito que eu não sei explicar.
A gente continuou conversando.
Sobre coisas simples.
Nada sobre aquilo, Nada sobre sexo. Só conversa normal.
E talvez isso tenha sido o que mais me confundiu.
Porque com ele, nunca era só uma coisa.
O tempo foi passando, minhas respostas foram ficando mais lentas. Até que eu simplesmente apaguei.
Com o celular na mão.
E a cabeça cheia demais pra sonhar.