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1951 Palavras
CAPÍTULO 5 — GABI NARRANDO Meu celular vibrou em cima do criado-mudo pouco depois da meia-noite. Eu já estava deitada, com o cabelo espalhado pelo travesseiro e os olhos pesados de sono, quando estiquei a mão para pegar o aparelho. Pensei que fosse João. Ele tinha mania de mandar mensagem em horários absurdos, principalmente depois do baile, só para me provocar. Mas, quando olhei para a tela, meu sorriso desapareceu. Era Cecília. Abri a conversa e encontrei uma mensagem que me fez franzir a testa. “Eu preciso fugir.” Fiquei alguns segundos olhando para aquelas palavras. Pensei que talvez ela estivesse exagerando. Talvez tivesse brigado com os pais. Talvez estivesse triste e tivesse escrito aquilo no impulso. Mas alguma coisa no meu peito disse que não era uma simples briga. Cecília não era do tipo que mandava mensagens assim. Ela sempre pensava antes de falar, sempre pedia desculpas, sempre parecia preocupada em não incomodar ninguém. Se ela tinha chegado ao ponto de dizer que precisava fugir, alguma coisa muito séria tinha acontecido. Sentei na cama e liguei para ela. Chamou uma vez. Duas. Três. Quando estava quase caindo na caixa postal, ela atendeu. — Gabi? A voz dela estava tão baixa que quase não consegui ouvir. — Cecília? O que aconteceu? Ela ficou em silêncio. — Cecília, fala comigo. Ouvi uma respiração trêmula do outro lado. — Eu… eu não sei o que fazer. Meu coração apertou. — Você está onde? — Na faculdade. — Como assim na faculdade? — Eu estou escondida aqui. Levantei da cama na mesma hora. — Escondida? — Sim. — Por quê? Ela começou a chorar. — Eu não posso voltar para casa. Fiquei alguns segundos sem conseguir responder. A voz dela tinha mudado completamente. Não era a garota tímida que eu conhecia da faculdade. Era uma garota assustada, perdida, que parecia estar tentando segurar o próprio mundo com as mãos. — Cecília, o que aconteceu? — Meu pai… Ela parou. — O que seu pai fez? — Ele… ele bateu na minha mãe. Fechei os olhos. — Meu Deus. — Eu tentei ajudar. Ele também ficou agressivo comigo. Depois me trancou no quarto. Meu sangue ferveu. — Você está machucada? — Meu braço está doendo, mas eu estou bem. — Você tem certeza? — Tenho. — E sua mãe? O silêncio dela foi a resposta. — Eu não sei o que fazer, Gabi. Eu não tenho para onde ir. Comecei a andar pelo quarto. — Você está sozinha aí? — Estou. — Tem alguém da faculdade por perto? — Não. Eu esperei todo mundo ir embora. — Você comeu? Ela ficou em silêncio. — Cecília, você comeu? — Não. Fechei os olhos novamente. Aquela garota estava sozinha, de madrugada, escondida em uma faculdade, sem saber para onde ir e provavelmente sem ter ideia de como sair dali. Eu poderia simplesmente dizer para ela chamar a polícia. Poderia dizer para procurar um abrigo. Poderia ligar para alguém. Mas conhecia o medo que ela tinha do próprio pai. E também conhecia o tipo de influência que aquela família tinha. Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo naquela casa, mas sabia que Cecília precisava de alguém naquele momento. — Você consegue sair daí? — Não sei. — Então fica onde está. Não sai daí sozinha. — Gabi… — Eu vou te buscar. Ela ficou em silêncio. — Você vai? — Vou. — Mas para onde eu vou? Parei de andar. Essa era a parte que eu ainda não tinha pensado. Minha casa. Na mesma hora, imaginei o rosto de Grego. Não. Não, não, não. Meu irmão jamais permitiria que eu levasse uma desconhecida para dentro de casa sem avisar. Principalmente uma garota que estava fugindo de uma família poderosa. Ele faria mil perguntas. Queria saber quem ela era, de onde tinha vindo, por que estava fugindo, quem estava atrás dela. E provavelmente me mandaria levá-la embora. Mas eu não conseguia abandonar Cecília. — Você confia em mim? — Confio. — Então vem comigo. — Para onde? Respirei fundo. — Para minha casa. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Gabi, eu não quero te causar problemas. — Você não está causando problema nenhum. Eu sabia que estava mentindo. — Eu vou buscar você. — Tem certeza? — Tenho. Desliguei a ligação e fiquei olhando para o celular. Eu tinha acabado de tomar uma decisão que poderia me colocar em uma encrenca gigantesca. Grego confiava em mim. E eu estava prestes a esconder uma garota dentro da casa dele. Mas eu faria. Porque naquele momento eu não conseguia pensar em outra coisa. Peguei uma blusa, calcei o tênis e saí do quarto. Desci as escadas devagar, tentando não fazer barulho. Eu precisava sair sem que Grego percebesse. Quando cheguei à sala, encontrei Otávio perto da porta, mexendo no celular. Parei imediatamente. — Otávio? Ele levantou os olhos. — Vai sair? — Vou. — Agora? — É. Ele me encarou. — Aconteceu alguma coisa? — Não. Ele levantou uma sobrancelha. — Gabi. — O quê? — Tá aprontando o quê? Tentei sorrir. — Nada. — Tu nunca sai essa hora dizendo que não aconteceu nada. — Eu só preciso resolver uma coisa. — O Grego sabe? Meu coração acelerou. — Ainda não. Otávio ficou sério. — Gabi… — Não fala nada para ele. — Tu sabe que eu não posso esconder coisa do teu irmão. — Otávio, por favor. Ele passou a mão pelo rosto. — Isso vai dar merda. — Eu sei. — É coisa de homem? — Não. — Então o que é? Eu hesitei. — Uma amiga precisa de ajuda. Ele ficou me olhando. — Qual amiga? — Uma menina da faculdade. — Ela tá onde? — Na faculdade. — E tu quer ir buscar ela agora? — Quero. Otávio soltou um suspiro. — Vou contigo. — Não precisa. — Precisa, sim. — Otávio… — Gabi, eu sou teu motorista e tua segurança. Se o Grego descobrir que eu deixei tu sair sozinha de madrugada, ele me mata antes de perguntar o motivo. Não consegui segurar uma risada. — Exagerado. — Tu não conhece teu irmão? — Conheço. — Então vamos. Saímos. Durante o caminho, meu celular não parava de vibrar com mensagens de Cecília perguntando se eu estava chegando. Eu respondia tentando tranquilizá-la. Quando finalmente chegamos à faculdade, vi Cecília sentada perto de uma das entradas laterais. Ela estava abraçada à própria bolsa e parecia tão pequena naquele banco que meu coração doeu. Assim que me viu, levantou-se. — Gabi. Fui até ela. — Você está bem? Ela balançou a cabeça. — Não muito. Puxei-a para um abraço. Cecília ficou alguns segundos imóvel, como se não estivesse acostumada a receber carinho de alguém que não fosse a própria mãe. Depois me abraçou também. — Vamos sair daqui. Ela pegou a mala pequena que estava ao lado do banco. — É só isso? — Eu não consegui pegar mais nada. Olhei para a mala. — Tudo bem. Vamos. Otávio abriu a porta do carro. Cecília entrou no banco traseiro. Eu entrei ao lado dela. Assim que começamos a andar, ela olhou pela janela. — Para onde estamos indo? Eu respirei fundo. — Para minha casa. — Onde você mora? Olhei para ela. — Na Maré. O rosto dela mudou. — Na… Maré? — Sim. Ela ficou em silêncio. — Eu nunca fui lá. — Eu sei. — Gabi, você tem certeza? — Tenho. — Seu irmão sabe que eu estou indo? Mordi o lábio. — Não. Ela arregalou os olhos. — Como assim? — Ele está dormindo. — E se ele descobrir? — Aí eu resolvo. Otávio olhou pelo retrovisor. — Tu tá muito confiante. — Fica quieto, Otávio. Cecília olhou para ele. — Desculpa. Otávio soltou uma risada. — Não precisa pedir desculpa, não. Tu não fez nada. Continuei olhando para Cecília. — Grego é meu irmão. Ele é… difícil. — Difícil? — Muito. — Ele é bravo? — Bastante. — Ele vai ficar bravo comigo? — Provavelmente. Ela ficou ainda mais pálida. — Eu posso ficar em outro lugar. — Não. — Gabi… — Você não tem para onde ir. E eu não vou deixar você sozinha. Ela ficou quieta. Depois de alguns minutos, começamos a entrar na comunidade. Cecília olhava pela janela para tudo ao redor. As casas, os becos, os comércios ainda abertos, as motos passando, as pessoas conversando nas calçadas. Era evidente que ela estava tentando entender aquele lugar. — É muito diferente do que eu imaginava. Sorri. — A televisão mostra uma coisa. Morar aqui é outra. — Você gosta? — Amo. Ela olhou para mim. — Mesmo com tudo? — Mesmo com tudo. O carro continuou subindo. Quando chegamos à minha rua, Cecília ficou ainda mais surpresa. A casa do meu irmão era grande, bonita e completamente diferente do que ela provavelmente imaginava. Portão alto, garagem espaçosa, carros de luxo estacionados, motos alinhadas, iluminação externa e uma área enorme ao redor da casa. Quando entramos na garagem, Cecília ficou olhando. — Essa é sua casa? — É. — É enorme. — Meu irmão gosta de exagerar. Otávio estacionou e desceu. — Vou ficar por aqui. Olhei para ele. — Se o Grego perguntar… — Eu não vi nada. Sorri. — Obrigada. Entramos rapidamente. A casa estava silenciosa. Levei Cecília pela lateral para que ninguém a visse. — Fica quietinha. — Tá. Subimos as escadas. — Meu irmão está fora. — Tem certeza? — Tenho. Levei Cecília até um quarto de hóspedes. — Você pode ficar aqui. Ela entrou devagar, olhando ao redor. — É lindo. — Pode usar o banheiro. Tem toalha no armário. Vou pegar algumas roupas minhas para você. Ela colocou a mala no chão. — Gabi… — O quê? — Obrigada. Sorri. — Depois você me agradece. Agora vai tomar banho. Ela entrou no banheiro. Enquanto isso, fui até meu quarto e peguei algumas roupas. Quando voltei, deixei tudo sobre a cama. — Essas devem servir. — Obrigada. — Vou ficar lá embaixo. Ela assentiu. — Tá. Desci as escadas e respirei fundo. Eu tinha conseguido. Cecília estava dentro de casa. Grego não sabia. Tudo estava sob controle. Ou pelo menos eu queria acreditar nisso. Depois de algum tempo, Cecília apareceu usando uma das minhas camisetas largas e um short confortável. Os cabelos pretos estavam molhados, caindo pelas costas. Ela parecia mais tranquila. — Melhor? Ela assentiu. — Muito. — Você pode dormir aqui. — Eu tenho medo de ele descobrir. — Meu irmão não vai fazer nada com você. Ela me olhou. — Você tem certeza? Antes que eu pudesse responder, ouvi um barulho vindo da garagem. Um carro. Meu corpo inteiro congelou. Conhecia aquele som. Conhecia o motor. Conhecia o jeito como o portão da garagem abria. Olhei para Cecília. Ela ficou pálida. — O que foi? Levei um dedo aos lábios. — Shhh. O carro parou. As portas se abriram. Ouvi passos. Meu coração começou a bater tão forte que parecia querer sair pela boca. Grego tinha chegado. — Gabi! Fechei os olhos. Merda. A voz dele ecoou pela casa. — Gabi, c*****o! Onde tu tá? Olhei para Cecília. Ela estava imóvel, segurando a barra da camiseta com as duas mãos. — Não faz barulho — sussurrei. Os passos começaram a subir. Um. Depois outro. Cada vez mais perto. Cecília olhou para mim com os olhos arregalados. Eu sabia exatamente o que aconteceria quando meu irmão descobrisse que eu tinha colocado uma desconhecida dentro da casa dele. E, pela primeira vez naquela noite, eu me arrependi de não ter pensado em um plano melhor. Os passos pararam do outro lado da porta. Minha respiração travou. A maçaneta começou a se mover.
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