Não faço a mínima idéia de quem ela é e o que ela foi na vida de Ash, mas eu tenho que saber como ela é, é uma necessidade minha.
— Como a Emily era? — Questionei para Dylan como se eu soubesse quem ela é.
Não me conformo, duas vezes em que uma Emily se mete na minha vida. De uma coisa eu tenho certeza, elas não são a mesma pessoa, não poderia ser. Muita coincidência.
— Aparência?
— Claro, Dylan. — Revirei os olhos impaciente.
— Ah, ela parece com você e um pouco com a Kim também. — O olhar de Dylan murchou quando ele mencionou o nome da Kimberly. — Cabelos claros quase loiro igual o seu, olhos castanho claro também. Rostinho de sonsa mas insistem parecer de um anjo. — O fuzilei com os olhos.
— Cabelos claros quase loiro igual o seu, olhos castanho claro também. Rostinho de um anjo. — Repeti para mim mesma.
— Rostinho de sonsa. — Dylan corrigiu. — Você lembra muito ela, até no modo de se expressar.
Ash realmente lembra dela quando me vê, como eu suspeitei.
Eu tive que falar para a minha mãe.
— Como assim você vai parar a faculdade? Kiria... — Mamãe parecia sem reação, a informação repentina a deixou sem palavras. — Kiria e os seus sonhos, os seus planos... O que você vai fazer da vida?
— Mamãe, eu nunca quis fazer medicina. Esse é o seu sonho, não o meu. — Falei rápido ainda tentando ganhar coragem.
— Moda, é isso o que você quer? Não Kiria, eu não quero que você curse moda. — A voz robótica da minha mãe por causa da ligação partia meu coração ao meio.
— Não mãe, não quero cursar moda. Acho que no fundo eu só queria que você ficasse feliz por essa escolha, igual quando você ficou feliz quando a Anne passou na faculdade de moda.
— Mas eu fiquei feliz porque ela estava feliz, mas para você eu quero um futuro diferente. Eu quero algo melhor para você, entende? — Mamãe questionou deixando um silêncio ensurdecedor em seguida.
Tudo ia acabar assim?
— Licença. — Ash tomou o celular da minha mão e o colocou no ouvido. — Olá minha senhora, aqui quem está falando é o Ash. Você não deve me conhecer mas eu sou o irmão da Kimberly, a amiga da sua filha, conhece?
— Ash, não! — Fiquei pulando ao lado de Ash tentando tomar o celular dele mas Ash é muito alto e não consegui alcançar o suficiente, fora que ele caminhava de um lado para outro.
— Sim! É, na verdade resumindo nossa história. Vivemos em comunidades... — Ash fez uma pausa. — Sim! Favelas. Digamos que é um estado, com algumas cidades e cada uma tem um exército liderado por um líder, no caso a que vivemos foi liberada por meu pai mas agora é liderada por mim. Nessas comunidades cada uma precisa desse exército para marcar território, sabe? Para caso a comunidade vizinha tente invadir e expandir o território deles roubando o nosso, caso isso aconteça precisamos estar preparados.
— Ash! — O repreendi mas ele nem ao menos deu importância. — Não era assim que eu ia contar.
— Nosso pai era um filho da p**a, e a Kimberly fugiu dele e por isso foi morar aí. Mas nos reencontramos novamente. Inclusive, deixa eu contar para você o que ninguém conta. A senhora é invasiva e desnecessária, a Kira já é adulta e você não tem o direito de se meter na vida dela. Sua velha intrometida.
— Ash! — Lhe dei um chute no joelho e o celular caiu no chão. — Merda!
Peguei e coloquei de volta no meu ouvido.
— Mamãe!
— É verdade? Você está envolvida com gente criminosa, Kiria? — Mamãe questionou de uma forma que não demonstrava se estava com raiva ou decepcionada.
— Essa é sua chance, esse é o momento perfeito para pôr um ponto final. Desculpa, mas você precisava desse empurrãozinho. — Ash sussurrou e saiu.
— É, mãe. Eles não são criminosos, só não tiveram as mesmas oportunidades que nós duas. Você não tem o direito de se meter na minha vida da forma que você se mete. Minhas roupas, eu uso as que eu gostar, se você quiser customizar as suas você pode, mas as minhas não.
— Kiria, eu só quero o seu bem...
— Mas o que eu como ou o que eu visto, não tem nada haver com estar bem. Sobre se preocupar em relação ao Ash, a antiga vida da Kim... Eu entendo, mas ela foi sequestrada e eu preciso trazer ela de volta. Prometo ficar bem, não vai me acontecer nada, fique tranquila. Vou sumir por um tempo, mas fique calma. Se acontecer algo comigo você será a primeira a saber, mas não vai acontecer, eu garanto.
— Kiria... É muita informação... Eu... — Mamãe repetia várias vezes.
— Eu vou ficar bem, amo você. — Desliguei. Não posso continuar com essa conversa.
Mas que merda, não era dessa forma que eu pretendia contar tudo para ela.
— Ash! — Gritei. — Você é um i****a. — Dou vários tapas nele até que ele esteja encostado na parede.
Fico um pouco amendrontada quando ele me empurra para longe.
— Você é m*l agradecida, eu ajudei você a fugir dessa sua mãe desnaturada e é assim que você agradece? Kira, ela não tem o direito de tentar mudar quem você é.
— Não fala assim dela! — Sinto algumas lágrimas escorrer pelo meu rosto.
Kimberly... Eu queria tanto que você estivesse aqui, você não falaria assim dela. Eu sei que não falaria.
— Se prepara para irmos para o treinamento, você tem mais bastante tempo para explicar cada detalhe para ela antes de irmos. — Ash complementou. — Não faço a mínima idéia de quanto tempo vamos ficar por lá.
Encaro suas costas enquanto ele se afasta.
— Boa tarde. — O cabeleireiro me cumprimenta. — O que vai ser hoje?
Me acomodei na sua cadeira giratória e encarei meu reflexo no espelho.
— Um pixie cut com a franja bem comprida, e uma cor bem escura. O mais preto que tiver. — Pedi.
— Muito bem, cortar bem curto e pintar de preto. — O homem sussurro para si mesmo. — O seu cabelo é loiro escuro sabia? E é tão comprido, reforça bastante o seu rostinho de anjo. Tem certeza, meu amor?
— Tenho. — Respondi decidida.
A partir de agora eu não quero mais me olhar no espelho e vê aquela menina que aceitava tudo e não opinava em nada. Eu não sou a mesma e nem vou ser.
Pela Kimberly.
[...]
Entrei na sala de aula um pouco envergonhada, era típico meu.
Não costumava conversar com as outras crianças, eu não tinha amigos. O que me reconfortava era aquele menina bonita que sempre senta no cantinho da sala e também não tinha amigos. Sempre nos encarávamos mas nunca nos falamos.
Uma vez derrubei meus livros no corredor e todos riram, ela estava passando por mim e me ajudou a recolher.
— Obrigada. — Agradeci com um sorriso gentil, mas ela apenas forçou um sorriso e saiu.
Ela tinha sempre esse olhar sofrido, como se estivesse com medo de algo. Nunca falava com ninguém e nunca falava mais de três ou cinco palavras.
— Alguém está sem dupla? — A professora questionou. Sempre tive raiva disso, o que os professores acham? "Sim, eu estou sem dupla. Eu sou fracassada e sem amigos". — Levantem as mãos quem está sem dupla.
Ergui a minha mão para o alto.
— Só a Kiria e a Kimberly? Perfeito, se juntem meninas.
Oi? Eu ia fazer dupla com a esquisita da sala?
— Pode ser na sua casa? — Kimberly apareceu ao meu lado na hora de ir embora.
— Como?
— O trabalho. — Ela forçou um sorriso. — Pode ser na sua casa?
— Ah, claro.
Esse e como maioria dos trabalhos que fizemos juntas até que ela pegou confiança o suficiente comigo para me levar até a casa dela.
— Kiria, Kiria, Kiria... — Um i****a repetia meu nome.
Já estávamos no ensino médio, Kim e eu já éramos melhores amigas. Minha única amiga.
— Quando foram registrar você, bateram a cabeça no teclado, Kiria? — O grupo de menino inteiro riu.
— Escuta aqui! — Kim se aproximou deles que estavam encostados nos armários.
— Kim, não! — Tentei impedi-la mas não consegui.
— Por acaso o médico cortou o seu p*u quando você nasceu, achando que era o cordão umbilical? Barbiezinha. — Kimberly ironizou. — Cadê o volume da sua calça, i****a! — Kimberly gesticulou para baixo em direção à sua calça. Todos os garotos se calaram.
[...]