O homem ao meu lado que eu nem fazia idéia de qual era o nome dele ainda, estava deitado com os olhos fechados como se estivesse dormindo. Eu não sabia se devia acordá-lo, ou só fingir que não estava vendo ele cochilando quando me disse para não dormir.
Olhando lá para baixo, eu não via absolutamente ninguém. Deviam estar todos dormindo, e então seria esse o momento perfeito para irmos ao banheiro. Eu estava explodindo de vontade de fazer xixi, e morrendo de sede e fome ao mesmo tempo. Isso realmente é uma tortura.
Me vi obrigada a acordar a bela adormecida. Olhei para ele e ergui as mãos em sua direção tentando criar coragem para mexer com ele.
— Ei! — O chamei. — Homem!
Ele não respondia, então eu comecei a balançá-lo. Meu Deus, será que ele morreu? Eu bati várias vezes na cabeça dele, e se... Não! Nada haver, está tudo bem.
— Estão todos dormindo, já está na hora de irmos ao banheiro. — O sacudi mais um pouco mas não tive resposta. — Você está vivo, não está? Me diga que está!
Peguei em sua mão olhando a pulsação dele. Está vivo pelo menos.
— Você está vivo, ainda bem. — Suspirei de alívio.
Fiquei olhando lá para baixo, não apagaram as luzes. Provavelmente para dificultar mais ainda nossa vida, todos com fome e sede em um buraco como esse e ainda sem conseguir dormir direito por causa da merda de uma luz fluorescente que dá para enxergar até o passado.
— Claro que eu estou vivo, só estava testando você. — O homem falou do nada me assustando ao ponto de que eu virasse para o outro lado e ficasse pendurada me segurando na lateral da cama. — Mas que merda, você não é perigosa mas só me dá dor de cabeça. — Ele resmungou.
O homem segurou na minha mão e me impulsionou para a cama de baixo.
— Fique aí! Eu vou descer, e então desceremos juntos. — Ele sussurrou.
Fiquei alí olhando as escadas aparecerem na lateral da beliche e aos poucos as pernas dele surgirem.
Quando seu corpo estava quase totalmente sobre a beliche, ele sorriu para mim.
— Vem. — Ele disse me entregando a barra de ferro que antes funcionava como um degrau. — Mas tome cuidado porque a escada está solta.
Então ele começou a descer. Observei lá de cima vendo ele descendo na maior tranquilidade.
Ele me olhou com uma cara de tipo "você não vem?". Tomei coragem e me posicionei na escada começando a descer também.
Aparentemente estava tudo tranquilo. Quando cheguei lá embaixo, ele estava observando todos para vê se realmente estavam dormindo e então seguiu até a porta do banheiro. Segui ele até lá.
— Pronto. Agora você me espera aqui na frente. — Ele ordenou.
— Me deixe ir primeiro, por favor. Estou quase tendo um treco. — Implorei.
— Eu deixaria, mas preciso ter certeza de que você não vai sair e me deixar aqui sozinho. — O homem falou e sumiu pela porta.
Depois de alguns instantes ele saiu.
— Vá. — O homem ordenou novamente.
Ele não precisou mandar duas vezes, entrei lá dentro prendendo a respiração de tão sujo que aquele local estava em apenas um dia e então saí depois de usar.
O homem saiu quase correndo até às escadas e então gesticulou para que eu subisse primeiro.
Já lá em cima, me deitei em uma cama e ele deitou na do lado. Tirou a escada que estava alí e colocou abaixo do nossos pés novamente.
— Agora você vai dormir um pouco, e eu vou ficar de guarda. Quando eu estiver com sono você vai ficar de guarda e eu durmo. — Ele ordenou. Tudo o que ele fala me faz sentir uma ovelhinha ordenhada por um lobo.
— Não confio em você, você vai dormir antes mesmo de me acordar.
— Eu fingi estar dormindo para saber se posso confiar em você quando eu estiver dormindo. Pode dormir tranquila. — O homem explicou.
— Você só está disfarçando.
— Acredite no que quiser, mas vá dormir.
Deitei, apoiando a cabeça no travesseiro que tinha cheiro de mofo. Tentei dormir mas não conseguia, por estarmos no alto, a luz ficava bem mais forte alí.
Abri os olhos e vi o homem me encarando, quando viu que eu abri os olhos ele desviou.
— Como é o seu nome? — Questionei.
— Como é o seu? — Ele devolveu a pergunta sem responder a que era direcionada para ele.
— Você não confia em mim, não é?
— Não. — Confirmou.
Soltei um longo suspiro, olhei para ele que estava sentado ao meu lado com as mãos apoiadas nos pés que se tocavam. Seus joelhos estavam aberto e um deles me tocava.
— Meu nome é Kiria, mas me chamam de Kira. Não gosto de Kiria, esse i é muito incomum.
Ele ficou em silêncio por uns segundos.
— Me chamo Chase.
Eu sorri, ele finalmente confiou em mim. Chase... O nome dele é Chase.
— Não fiz nada, está vendo? Pode confiar em mim. — Falei sorrindo minimamente.
Chase me observou por uns segundos e depois desviou o olhar.
— Seu namorado deve estar quase tendo um infarto agora sem saber o que está acontecendo com você. — Chase falou mas era como se ele estivesse falando mais para si mesmo do que para mim.
— Não tenho namorado.
— Achei que o marrento era seu namorado. — Ele falou.
— O Ash? Não, não é. — Eu quis rir.
Chase ficou em silêncio por longos minutos, depois deitou na cama ao meu lado.
— Por que você está aqui? — Ele questionou.
— Para resgatar uma amiga.
— Ela está presa aqui?
— Não. Estamos treinando para resgatá-la, ela foi sequestrada e só temos um ao outro. Nós 5 estamos treinando para ir atrás dela, nós 5 contra não sei quantas pessoas. — Falei cerrando os dentes tentando não lembrar disso.
— Quem é ela? — Chase questionou curioso.
Ele virou seu rosto em minha direção, desviei no mesmo instante. Me senti intimidada por um instante.
— Kimberly.
Chase encarou o teto e suspirou pesadamente.
— Quem a sequestrou?
— Você a conhece? — Questionei confusa por ele agir assim, e também porque não consigo mais não imaginar que a vida de todo mundo está interligada.
— Quem foi? — Chase ignorou totalmente minha pergunta.
— O ex-namorado, Liam.
Ele ficou em silêncio, sua expressão não parecia preocupação mas sim surpresa. Chase ficou sério por uns instantes, ficou calado.
— Vá dormir. Quando eu estiver com sono eu acordo você. — Ele ordenou.
— Está bem.
Virei para o outro lado e deitei tentando dormir. Fiquei encarando o chão lá embaixo e então acho que eu adormeci.