Kali

1919 Palavras
Enquanto isso, na entrada da cozinha do castelo, Ren, o conselheiro do rei dos lobos Youkai, aguardava paciente com Délia, a cozinheira do castelo e esposa de Ren, que a nova caçadora trouxesse as carnes pedidas para o almoço do próximo dia. O velho Youkai diz: — Espero que o rei e o príncipe se entendam dessa vez, é muito importante que o jovem mestre entenda a necessidade de ter uma esposa. — Por que o menino Hidetaka veria problema nisso? É um jovem lobo Youkai, de linhagem pura, forte, belo… Qualquer mulher na face da terra ficaria encantada em tê-lo ao seu lado. — Mulher, o jovem mestre tem aquele problema… Ele não vê o porquê deveria ter uma esposa se essa não poderá satisfazê-lo. A cozinheira olhou para o marido, seu rosto tomou expressão pensativa e cheia de inconformidade. O som do trote de um cavalo chamou sua atenção e reconheceu a caçadora chegando a cavalo, trazendo dois enormes javalis, conforme foi solicitado, com meia dúzia de faisões amarrados pelos pés. A velha ainda responde: — É só uma questão de tempo até que encontre a fêmea certa, meu velho. Com certeza, deve haver uma jovem que será merecedora de nosso jovem mestre. — Tomara que esteja certa, Délia! O que pediu que o caçador trouxesse afinal? Questiona o velho Youkai, a acompanhando na direção da jovem caçadora que se preparava para descer do cavalo para que Délia pudesse escolher a caça do dia. A mulher de meia-idade olha para o marido com ar contrariado, corrigindo: — Caçadora… Ela chegou há alguns meses. Sempre traz a caça viva para eu escolher, venha ver. Kali, trouxe o que pedi? A jovem coberta por uma longa capa n***a, olha para a cozinheira informando amavelmente: — Sim, senhora Délia, trouxe dois javalis para escolher o que melhor serve ao prato que deseja fazer e algumas aves, caso deseje prepará-las também. — Mas estão vivos! Constata Ren demonstrando exagerada surpresa, Kali responde sem olhar para ele: — Sim, senhor, é melhor para o preparo da refeição que a carne seja o mais fresca possível, assim que a senhora Délia fizer a escolha da peça que deseja, a abato imediatamente. A velha cozinheira examinava os dois suínos atenta, anunciando: — Este aqui, Kali, tem bastante gordura, parece ter ótima banha. — Como desejar senhora. Kali puxa o suíno sobre o ombro de uma única vez, o animal era enorme, Ren observava um pouco chocado. Kali era uma moça, à primeira vista bastante delicada para levantar um animal daqueles com tamanha facilidade, mas o colocou no chão deitado e com uma faca grande deu-lhe um único golpe certeiro no coração, matando assim o grande javali. Ele questionou olhando-a: — Deseja que eu o coloque na cozinha, senhora Délia? — Sim, por favor. Kali coloca o corpo do suíno sobre o ombro. Ren, que estava observando próximo da jovem, assim que ela ergueu o suíno, o velho Youkai teve a impressão de ver uma marca conhecida no antebraço direito dela. Ren estreitou os olhos, para tentar ver melhor, mas Délia observou o marido, questionando irritada: — O que está olhando? Ele balança a cabeça mais para afastar aquele pensamento da cabeça do que para negar qualquer acusação da esposa. Kali entrou na cozinha para colocar o javali sobre uma espécie de balcão, para que os auxiliares pudessem iniciar a limpeza e a preparação de sua carne. No interior da cozinha, estava Ami, a jovem filha adotiva do príncipe lobo Youkai, que ao ver a caçadora entrando com aquele javali no ombro foi até ela sorridente: — Senhora caçadora, belo javali. — Menina Ami! Sim, foi uma boa caçada hoje. Veja, trouxe-lhe o que prometi. — Sim! Deixe-me segurá-lo. — Claro, agora ele é seu, cuide bem de seu novo amigo. Diz a jovem caçadora sorrindo para a adolescente que aguardava com as mãos estendidas, que a mulher à sua frente retira se de uma espécie de bolsa sob sua capa um filhote de coelho com pelo branco e olhos vermelhos. A menina o segurou com cuidado encantada com o pequeno animalzinho, dizendo: — Obrigada, ele é lindo! Kali sorri ao observar a felicidade da garota ao ganhar um novo bichinho, já estava saindo da cozinha quando ouviu Sônia protestar: — Você a mima demais. Kali olhou no rosto de Sônia, filha da cozinheira, ambas já se conheciam, pois, moravam perto, a caçadora sorriu, baixando a cabeça, dizendo: — É só um coelho, Sônia, o que me custava trazer-lhe um? Veja a alegria dela. — É verdade, Ami é um encanto de moça! Espero que tenha trazido minhas aves. — Sim, pode vir escolher. Às duas saem de dentro da cozinha para analisar as aves, Délia e Ren já estavam analisando os majestosos faisões que a caçadora havia trazido, o velho constata tentando puxar conversa e saber mais sobre aquela estranha mulher: — Que animal impressionante, embora seja apenas uma moça, você é boa em seu ofício. — Obrigada, senhor, faço o meu melhor. Sônia diz animada: — Você não viu nada pai, nossa caçadora também tem uma pequena criação de animais, que nos fornece algumas espécies de carnes, ovos e leite fresco. Diferente do caçador anterior. Quero esses três, Kali. — Impressionante, você e seu marido devém ter muito trabalho. Kali não disse, o olhar de Délia e Sônia pareciam que iriam fuzilar o velho Youkai. A caçadora estava de costas para eles, tirando as aves do cavalo, entregou-as para Sônia, que os segurou pelas patas. Mais uma vez a jovem se virou para Délia questionando como sempre amável: — Além dos ovos e do leite, tem mais alguma encomenda para amanhã, Senhora Délia? — Acredito que não Kali, caso haja alguma necessidade pedimos a Sônia que lhe avise. — Sim, senhora. Com licença. Diz a jovem montando no cavalo e saindo devagar com o restante de sua caçada. Tudo que Délia não aproveitava, Kali levava para sua casa, tratava os ferimentos do animal, caso houvesse e depois o soltava de volta na floresta. Por esse motivo, nunca levava as caças mortas até o castelo, para que não houvesse desperdícios. Assim que Kali se afastou, Sônia repreendeu Ren: — Pai, precisava ter falado sobre o marido de Kali? — Qual o problema nisso? — Kali não tem um marido, ela não me contou muito de seu passado, mas acredito que ela é viúva ou foi abandonada por ele. — Viúva jovem desse jeito, pobre mulher. Diz Ren com pesar na voz, no clã do velho Youkai, uma mulher jovem e solteira poderia ser tomada por qualquer macho mesmo contra sua vontade. Ele estava ainda pensativo sobre a marca no braço dela, mas foi tirada de seus pensamentos pelas palavras de Délia, constatando: — Com certeza não ficará por muito tempo assim, ela é muito bonita. Sônia que ajeitava as aves para os auxiliares levarem para dentro da cozinha, acrescenta as palavras da mãe: — Mamãe diz a verdade, mas não me parece muito disposta a deixar alguém aproximar-se dela. — Por que diz isso? Questiona Ren franzindo as espessas sobrancelhas, Sônia explica: — Existe um comentário, entre os criados, que o general Hathor tem uma queda por ela, mas não tem muito progresso em suas investidas, mesmo tentando cortejá-la insistentemente. — Hathor? Repete Ren, sem conseguir disfarçar sua surpresa, sempre supôs que ele gostasse de machos, pensou um pouco, não se lembrando de tê-lo visto com uma fêmea, mas se estivesse mesmo cortejando a caçadora, aquilo faria sentido, ouviu a resposta animada da filha: — Sim, seria um ótimo marido para Kali… — Tudo a seu tempo… Venha Sônia, temos que deixar esses faisões limpos para poder cozinhá-los pela manhã. Você não tem trabalho para fazer, Ren? Diz Délia, com o intuito de dispersar o marido e a filha para seus trabalhos. A velha cozinheira estava ficando incomodada com a atenção de seu marido sobre a nova caçadora. Ren ainda um pouco pensativo parece ser desperto pelas palavras da mulher respondendo: — Sim, tenho de acompanhar a reunião de nossas majestades, me deseje sorte. — Boa sorte, pai. Diz Sônia sorrindo vendo o pai se afastar galante na cozinha, enquanto os cozinheiros limpavam e cortavam as carnes utilizadas para preparar as refeições no próximo dia. Em uma das tabernas comuns no território dos lobos Youkai, Shiroyasha e Kuroneko estavam sentados bebendo sem a incômoda presença de Yokata. Kuroneko parecia distraído com a presença de uma bela taberneira que atendia no local, percebendo a distração desse e não tendo interesse em permanecer muito tempo em sua companhia, Shiroyasha diz assertivo: — Diga-me o que tem em mente, oferecerá uma de suas filhas, ou alguma princesa de um de seus aliados? Kuroneko olha para o primo sentado à sua frente. Ele, que parecia ter sido desperto de um transe, tomou um gole de cerveja, respondendo: — Nem que eu desejasse poderia oferecer uma de minhas filhas, não nenhuma filha. E você? — Não possuo filhas em idade de casamento, mas tenho uma ideia de como podemos nos beneficiar dos planos de Yokata. — Conte-me tudo. — Procurarei os bastardos e propor uma aliança com eles, tenho interesse que a mão do filho de Yokata vá para a princesa do Clã das Sacerdotisas… — O Clã da Lua? Supus que estivessem extintos… — Não, ainda restou apenas uma descendente, a princesa Kara. Dizem que ela é amaldiçoada com a juventude eterna, o que a torna pouco atraente para qualquer macho adulto… Kuroneko produz um som alto e agudo, seguido de uma careta, acrescentando: — Já ouvi falar dessa fêmea e de seus poderes mágicos, dizem que ela é quase tão perigosa quanto a criatura que vive junto a Hakin. Shiroyasha sorri incrédulo, constatando mais para si do que para o outro: — Nada é mais mortal do que aquela coisa… — O que quer dizer? Pergunta Kuroneko curioso, Shiroyasha aproxima um pouco dizendo baixo: — Aquela criatura possui até mais poder que o exército do imperador, apenas com sua presença conseguiu colocar uma das esquadras do príncipe Fã para correr com o r**o entre as pernas, sem falar de outro benefício… — Outro benefício? Pergunta Kuroneko curioso, Shiroyasha olha para os olhos curiosos em sua frente, respondendo: — Ela possui alguma espécie de magia ... Pois, consegue aumentar o poder daquele que a torna seu amante… — O que você está dizendo? — Sim, aquela fêmea pode tornar a criatura que se deita com ela cada vez mais poderosa. — Não podemos deixar Yokata saber disso, ou ele tentará se tornar amante dessa criatura. — Sei disso, mas o bastardo não permite que sua amante durma com outro macho, particularmente acho um erro, mas ele é sentimental… — Imagine o poder que essa criatura daria a um exército, dominaríamos essa terra. Quanto ele quer por ela? — Não creio que ela esteja à venda. — Bobagem, todos estão à venda, principalmente as fêmeas. Kuroneko riu maldosamente tomando mais um gole de sua cerveja, Shiroyasha bebeu de uma única vez sua bebida dizendo: — Acertarei com a princesa do Clã da Lua para casar-se com o filho de Yokata, mas não sem antes ter a certeza de um interessante acordo para nós. — Ótimo, deixe-me informado sobre isso. O mestiço de lobo e Inu Youkai acena positivamente com a cabeça antes de sair da taberna apressado, não desejava ficar nem mais um segundo nas terras de Yokata e muito menos na presença de Kuroneko, o qual ele desprezava.
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