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1482 Palavras
Prólogo O silêncio entre eles não era vazio. Era um campo minado. — Você é de fora? A pergunta, embora simples, carregava um certo desafio, como se já soubesse a resposta e quisesse apenas confirmar o que os olhos haviam percebido. Kiara manteve o olhar firme do outro lado da mesa — uma superfície de madeira escura, brilhando sob a luz difusa do escritório. Impecavelmente limpa. Impessoal. Como ele. Nicolas D’Alencar. O nome ecoava na sua mente com a precisão de uma manchete. Executivo renomado. Meticuloso. Intocável. E, ainda assim, absurdamente humano naquele instante — folheando o seu currículo com um desinteresse tão bem ensaiado que parecia arte. — Sou de Curitiba. Ela respondeu, a voz contida, mas segura. — A minha família por parte de pai, mora aqui em SP, então, agora estou a tentar fincar raízes aqui. — Treze dias na cidade? Ele murmurou, sem levantar os olhos. — Isso. Num pequeno apartamento, por enquanto. — Veio sozinha? A pergunta a fez hesitar por um segundo, mas não mais. — Sim. Foi então que ele ergueu os olhos. Cinzentos. Tempestuosos. — E o seu noivo? Kiara olhou para a aliança no dedo e entendeu que ele já a havia notado. Tudo nele era observação e controle. — Isso é relevante? Perguntou, tentando não perder a compostura. — É. Disse ele, com a franqueza de quem não está acostumado a ser contrariado. — Porque quem trabalhar comigo precisa estar disponível. Sempre. — Ele não está comigo em São Paulo, se é isso que quer saber. Ficou resolvendo questões do trabalho dele. A ideia é que venha depois. Nicolas sustentou o olhar por tempo demais. — Interessante. Noiva e... disponível. — Desculpe? Ele sorriu, um sorriso que parecia surgir não dos lábios, mas de algum pensamento indecente. — Profissionalmente. Não leve a m*l. Mas ela levou. Não por sentir-se ofendida, mas por sentir-se vista demais. Havia algo nele que desconcertava. Um magnetismo incomodo. Um charme feito de arrogância, olheiras m*l dormidas e ternos amarrotados. Ele era belo, sim, mas não era só isso. Era perigoso. — Senhor D’Alencar... — Nicolas. Não sou juiz, nem tão velho. Ela engoliu seco. — Você tem o que preciso. Disse ele, após virar a última página do currículo. — Idiomas, organização, disciplina. Gosta de balé? A pergunta a pegou de surpresa. — Gostava... quando tinha tempo. — E de ler? — Quase sempre antes de dormir. Dessa vez, ele sorriu de verdade. Mas só com um canto da boca. O suficiente para bagunçar certezas. — Não procuro uma assistente. Procuro alguém que viva o meu tempo. Que respire o meu fôlego. Eu sou o projeto. — Eu entendo, mas... — A última assistente disse que quem aceitar essa vaga deve ter um certo desequilíbrio emocional. Kiara não resistiu e sorriu. Pela primeira vez, de verdade. — Talvez eu tenha. Ele a observou como quem tenta decifrar um segredo antigo. — Interessante. Repetiu. E foi só isso. Uma palavra jogada no ar, entre o fim e o começo de algo que nenhum dos dois ousava nomear. Ela saiu da sala com a nítida sensação de que acabara de atravessar uma linha invisível — e perigosa. ** — Senhor D’Alencar, a próxima candidata está à espera. — Mande entrar. Ele ajeitou os punhos da camisa, tentando organizar o próprio pulso. Mas não adiantava. Ainda via os olhos dela. A nova candidata entrou. Sorriu, entregou o currículo. Disse algumas frases bem colocadas. Mas ele já não ouvia. — Você mora onde? Perguntou, interrompendo. — Perdizes. Por quê? Ele não respondeu. Pegou o celular do bolso e saiu da sala sem dizer mais nada. Do outro lado da rua, Kiara tentava chamar um carro por aplicativo. O ar estava mais quente do que lembrava. Ou talvez fosse só o nó na sua garganta. O celular tocou. — Alô? — Não é seu noivo. A voz era dele. Grave, direta, sem espaços para dúvida. — Nicolas? O nome escapou como um sussurro que ela não pretendia dizer. — Gostei do som do meu nome na sua voz. Silêncio. Ele continuou: — Quer o emprego ou não? Ela hesitou. — Pensei que... — Eu também. Mas mudei de ideia. — Isso não parece um trabalho. Parece uma armadilha. — Talvez seja. Mas é uma armadilha de luxo. O salário é ótimo. As viagens são frequentes. E o apartamento tem vista para o Ibirapuera. — Como assim? — O edifício é meu. Seremos vizinhos. Ou algo assim. Ela fechou os olhos. O coração batia mais forte do que deveria por algo que, em tese, era apenas trabalho. — Temos ou não um acordo? Ele insistiu. E foi ali, entre o som dos carros e o torpor da decisão, que ela entendeu: talvez não fosse sobre emprego. Nem sobre ele. Era sobre o que ela mesma estava tentando evitar. — Sim. Respondeu, a voz mais baixa do que gostaria. — Quando começo? — Agora. ** _______________________________________________________________________ 1. Capitulo – Onde foi que eu me enfiei O elevador subiu lentamente, como se saboreasse a tensão de Kiara Medeiros. Aos 27 anos, ela carregava mais certezas do que gostaria e menos esperança do que merecia. Tinha a beleza das mulheres que não se esforçam para agradar — pele morena clara, olhos castanhos intensos, e um rosto emoldurado por cabelos castanhos escuros, presos num coque firme. A sua postura era ereta, os ombros erguidos, mas os dedos apertavam a pasta com mais força do que necessário. Estava começando o seu primeiro dia na Atlas Systems — e a sua vida estava prestes a mudar. Quando as portas se abriram no 28º andar, Kiara sentiu o contraste imediato entre o luxo e o silêncio. O ambiente exalava poder. Ou melhor, o poder de um só homem. — Bom dia. Disse a recepcionista, sem sorrir muito. — O senhor D’Alencar pediu que você vá direto para a sala dele. Kiara assentiu e seguiu pelo corredor, sentindo a pressão do lugar se acumular nos ombros. Ao chegar à porta, bateu suavemente. — Entre. A voz que respondeu era grave, controlada. O tipo de voz que não se espera, mas que impõe respeito mesmo no silêncio. Nicolas D’Alencar. Tinha 30 anos, e o tipo de beleza que vinha da presença, não da simetria. Alto, ombros largos, cabelos pretos levemente desalinhados, e um olhar cinza claro que parecia saber demais — e sentir de menos. A camisa branca dobrada nos antebraços e o relógio suíço discretamente elegante não diziam “rico”. Diziam “acostumado a mandar”. Ele estava de pé, de costas para a sala, olhando a cidade pela imensa parede de vidro. Um predador à vontade em seu território. — Dormiu bem? Ela hesitou, depois respondeu com firmeza: — Sim. E o senhor? — Evite esse tom de formalidade exagerada. Não gosto de jogos. Ele se virou, e foi como se o ar mudasse de densidade. Aqueles olhos... — Pode sentar. Ela obedeceu, tentando manter o controle da própria respiração. — Fizemos uma triagem. Viagens começarão já esta semana. Rio de Janeiro primeiro. Paris, talvez em três semanas. Tem passaporte? — Sim, atualizado. — Ótimo. Não tenho paciência para imprevistos que poderiam ser evitados com planejamento. Enquanto falava, ele analisava seus gestos como se decifrasse um código. Kiara sentia o peso daquele olhar. Um misto de julgamento e... algo mais difícil de nomear. — Ainda está noiva? Ele perguntou, com a mesma naturalidade de quem pergunta se vai chover. Ela demorou um segundo para responder. — Estou. — E isso será um problema? — Para quem? O canto da boca dele se curvou, mas não em um sorriso. Em algo mais sutil. Quase perigoso. — Para o seu tempo. O meu exige exclusividade. E sinceridade. — Eu entendo. E estou disposta a dar o meu melhor. Ele inclinou-se levemente para a frente, apoiando os antebraços sobre a mesa. — “Dar o melhor” não basta aqui. Não busco assistentes. Busco resistência. Resiliência. Entrega. Eu sou o projeto. As palavras o deixavam mais nítido. Nicolas era frio, exigente, controlador. Mas por baixo da perfeição ensaiada, havia algo quebrado. E Kiara viu. Ou achou que viu. Antes que pudesse responder, ele estendeu um envelope para ela. — Aqui estão os seus acessos, senhas, agenda da semana. O resto, você vai descobrir sozinha. Gosto de quem aprende rápido. Ela assentiu. — E mais uma coisa. Disse ele, antes que ela saísse. — Não me chame de senhor D’Alencar. Nunca mais. Kiara parou com a mão na maçaneta. Virou-se devagar. — Como devo chamá-lo, então? — Como você quiser. Desde que não seja “imune”. A frase ficou no ar, pairando entre a ameaça e o convite. Kiara saiu do escritório com um milhão de pensamentos. Mas um deles era mais alto que todos: Ela havia mergulhado fundo. E não havia mais como voltar à superfície.
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