Capítulo 19

1793 Palavras
Luís se remexe no banco, sentindo o estômago revirar de ansiedade quando, ao olhar através do visor, percebeu que Eduardo estava indo para um caminho diferente do que levava à casa deles. Seus dedos se apertaram contra o tecido do próprio moletom, o peito subindo e descendo com a respiração acelerada. Era impossível não reparar. Ele conhecia o caminho para casa, cada curva, cada casa, pois vivia contando elas sempre que passavam. Mas aquele trajeto era estranho para ele. Definitivamente nunca veio aqui antes.. Luís engoliu seco e se virou lentamente para Eduardo. O semblante do cacheado permanecia impassível, os olhos fixos na estrada, as mãos firmes no volante. Não havia nenhum traço de hesitação em sua postura, nenhum sinal de que estivesse apenas pegando um atalho ou mudando de ideia no último segundo. Isso fez o pânico crescer ainda mais dentro de Luís, como uma sombra engolindo cada pensamento racional. Luís engoliu seco, criando coragem. — Ha-Eduardo… — A voz saiu hesitante, quase um sussurro. Eduardo não respondeu. Nem um olhar, nem um desvio de atenção. Apenas continuou dirigindo. Luís sentiu a temperatura do próprio corpo despencar. O silêncio era pior do que qualquer resposta, porque significava que não era um engano. Significava que ele não queria contar. Com os dedos trêmulos, ele apertou os braços ao redor do próprio corpo e desviou o olhar para a janela, os olhos analisando as ruas, memorizando o caminho, caso precisasse… fugir? A palavra pairou na sua mente como um aviso, e ele odiou a sensação que isso lhe causava. Depois de mais algumas ruas que ele definitivamente não reconhecia, Eduardo finalmente estacionou. Luís sentiu aquele arrepio sombrio voltar a subir por sua espinha ao observar a casa à sua frente. Era uma casa normal como qualquer outra em Londres, mas que fazia o corpo todo de Louis se arrepiar apenas por olha-lá. Algo nela o fazia se sentir m*l. Como se estivesse sendo engolido por algo invisível e assustador. Seu peito subiu e desceu rapidamente. Eduardo desligou o carro, tirou o cinto e abriu a porta sem pressa. Luís, no entanto, permaneceu imóvel. Seus dedos estavam dormentes, as pernas fracas, e sua respiração se tornou mais curta. Ele sabia que algo estava errado. Ele sabia que não queria sair daquele carro. Não queria seguir Eduardo. Não queria. Ele agarrou o tecido do moletom com mais força, o coração martelando. Talvez fosse uma visita rápida. Talvez Eduardo só tivesse que pegar algo de algum amigo e depois iriam para casa. Mas qualquer esperança que tinha foi destruída quando Eduardo parou com a porta do motorista aberta, inclinando a cabeça para o lado com um olhar tedioso. — Se eu fechar essa porta e você não tiver saído da p***a desse carro — ele disse, a voz baixa e perigosa —, eu vou arrastar você pra fora dele. Luís engoliu em seco, o pânico o sufocando. Ele não teve tempo para assimilar a ameaça por completo. Apenas abriu a porta com pressa, o corpo tremendo enquanto tentava sair do carro. Um puxão brusco o jogou de volta contra o banco, e só então ele percebeu que ainda estava com o cinto preso. Com os dedos apressados, ele destravou o cinto e praticamente saltou do carro antes que Eduardo tivesse que vir buscá-lo. Seu peito subia e descia de forma irregular, os pulmões implorando por ar. Eduardo lançou-lhe um olhar breve antes de seguir em direção à casa. Luís hesitou. Ele podia correr. Podia fugir. Podia simplesmente sair dali antes que algo acontecesse. Mas para onde? Ele não sabia onde estava. Não conhecia aquele bairro. E pra piorar, não havia ninguém circulando por ali. Ele apertou os olhos e respirou fundo antes de seguir Eduardo. Estava tudo bem. Tudo ficaria bem. Recitou esse mantra pra si mesmo enquanto seguia Eduardo. Eles pararam na frente da casa, parecia uma mini mansão. A porta da casa se abriu depois que Eduardo tocou a campainha. — Stewart! — Alguém exclamou. Luís piscou e viu um rapaz loiro, aparentemente da mesma idade que Eduardo. Eduardo ergueu um canto do lábio em um sorriso satisfeito e bateu o punho contra o do outro. Luís observou a interação com cautela, sentindo um frio ainda mais intenso se instalar em seu estômago. O loiro o olhou de relance. A expressão dele não era exatamente amistosa. O mais estranho era que ele não parecia surpreso com a presença de Luís. Era como se já soubesse que ele estaria ali. Isso fez com que sua respiração falhasse por um segundo. Eduardo entrou, e Luís não teve escolha a não ser segui-lo. O interior da casa não era diferente de qualquer outra. Parecia normal. Sofás, uma televisão grande ligada ao fundo, um cheiro de cigarro misturado com perfume. Mas a atmosfera estava errada. Algo estava fora do lugar, mesmo que ele não conseguisse apontar exatamente o quê. Na sala, haviam outras pessoas. Luís contou oito. Oito rapazes, todos parecendo veteranos de alguma escola, todos com olhares avaliadores, frios. E todos pararam para olhar para ele assim que entrou. Luís sentiu a pele se arrepiar da cabeça aos pés. Os olhares não eram amigáveis. Não eram neutros. Eram famintos. Como se o estivessem estudando, como se estivessem decidindo algo sobre ele. Luís se encolheu, puxando o casaco para mais perto do corpo, tentando se fazer menor. A porta se fechou atrás dele com um baque surdo. Seu coração saltou contra o peito. Ele não queria estar ali. Ele queria ir para casa. — Então, cara — um dos rapazes se pronunciou, inclinando-se para frente no sofá, os olhos escuros e avaliadores. — O que você tem para nós? Luís sentiu o estômago revirar. Essa pergunta não era para ele. Era para Eduardo. E o jeito como foi dita fez com que um arrepio doloroso percorresse sua espinha. — Jason disse que você tinha algo divertido em mente. Jason. Esse era o nome do loiro. Mas Luís nem teve tempo de processar a informação, porque foi então que percebeu algo ainda pior. O rapaz que falava com Eduardo lançou-lhe um olhar direto. Aquele mesmo olhar calculista que os outros tinham lhe dado ao entrar. Luís abriu a boca, mas não conseguiu emitir som algum. Ele sentia como se estivesse pisando em gelo fino, e a qualquer momento ele poderia quebrar. Eduardo não respondeu. Ele apenas sorriu. Largo. E então se jogou no sofá, relaxado, como se não houvesse nada de errado acontecendo. — Vocês verão. — Ele disse, os olhos verdes brilhando com algo que Luís não conseguiu decifrar. Mas o que realmente fez o terror o engolir foi o fato de que, durante toda a frase, Eduardo não desviou o olhar dele. Luís sentiu a garganta secar. Ele não sabia o que estava acontecendo e não tinha interesse em descobrir. Ele só queria ir embora. Luís se limitou apenas em se encolher num canto. Ele nunca desejou tanto se tornar invisível. — Hey, pegue uma bebida pra mim. — O coração de Luís disparou com a voz de Eduardo. Estava perdido dentro de sua mente. Eduardo voltou seus olhos pro menor, apontando pra cozinha. Luís engoliu seco e foi a passos pesados até a cozinha. Ele se sentiu desconfortável em invadir daquele jeito a casa de alguém que ele sequer conhecia, mas ele abriu a geladeira e Luís se surpreendeu com a quantidade de bebidas alcoólicas que havia ali. Eram de vários tipos. Luís se perguntou se eles fariam alguma festa ali. Ele pegou uma cerveja que sabia que Eduardo gostaria e procurou por um abridor de garrafas. Quando estava indo embora, um outro rapaz entrou na cozinha, Luís travou em seu lugar por um instante mas depois se apressou saindo daquele local, mas ele escutou claramente quando o homem sussurrou algo como "isso vai ser divertido" e riu consigo mesmo. Luís continuou de pé depois de entregar a bebida ao Stewart, sem saber o que fazer ou por quê estavam ali. Ele tentou voltar a se encolher num canto e desejou que fossem embora logo. Eduardo deu um gole em sua bebida e em seguida um rapaz veio com uma garrafa de whiskey. Luís franziu o rosto. Afinal, por que Eduardo pediu pra ele pegar uma cerveja se iria beber o whiskey? — Por quê você tá escondido aí? Se aproxime, a gente não morde. Luís se surpreendeu quando o rapaz que abriu a porta chegou perto dele, Luís estava tão distraído pensando em ir embora que sequer havia notado a presença dele. Essa pessoa, sem esperar a resposta de Luís ou noção nenhuma de respeito, segurou em seu braço e o puxou para o meio da sala, onde os rapazes se encontravam. O peito de Luís subia e descia pela respiração acelerada. Todos agora o olhavam e Luís não gostava disso. — Onde você vai? — Eduardo questionou quando Luís tentou fugir daquela atenção toda. — Fique aí. Eduardo se levantou e automaticamente Luís deu um passo para trás, mas bateu em algo duro e quando virou-se assustado encontrou novamente o rapaz que pensava ser dono da casa. Luís automaticamente se afastou dele e apertou suas mãos engolindo em seco, com Eduardo agora a um passo dele. Luís mordeu os lábios em puro nervosismo. Ele não entendia o que estava acontecendo e só queria ir embora. Luís apertou as mãos no tecido de sua camisa, decidindo criar coragem e pedir para irem embora. — Eduardo... — Tire a roupa. — O cacheado interrompeu ele m*l pronunciou seu nome. Uma onda de sons animados se ouviu ao comando do cacheado. Luís piscou, achando que escutou m*l. Ele continuou imóvel olhando Eduardo e em seguida olhou ao redor, vendo os rapazes olhando atentos pra ele. — O-o quê...? Luís foi surpreendido quando a garrafa de cerveja na mão de Eduardo colidiu com sua cabeça. Ele caiu no chão com o impacto e sua cabeça girou por longos segundos. A garrafa partiu e o líquido derramou-se em seu corpo. Luís gemeu de dor, engasgando-se com um soluço. O sangue escorrendo embaçou a visão de seu olho esquerdo. — Não vou repetir. — O olhar de Eduardo era sombrio agora, completamente sem emoção. Era como se toda sua paciência tivesse sido esgotada. Luís tremeu fortemente, em sua mente ele apenas conseguia se perguntar o que havia feito de errado para deixar Eduardo tão zangado. Luís não se lembrava, então não podia concertar. Tremendo, o menor se levantou e começou a tirar a roupa. Ele fez o mais lento que conseguiu, tentando inutilmente adiar o que for que estava por vir. Eduardo deu um gole na garrafa de whiskey e voltou a se sentar. — Quem quer ser o primeiro? A respiração do Luís travou. Literalmente, ele parou de respirar.
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