Capítulo 1

1604 Palavras
O rosto de Luís estava sendo pressionado no colchão bruscamente, o tecido áspero contra sua pele úmida pelo suor e lágrimas. Sua respiração vinha em arquejos curtos e dolorosos, enquanto tentava processar a dor que se espalhava pelo seu corpo. — Ed-Eduardo... mais devagar... va-vai mais devagar, por favor... por favor — sua voz saiu entrecortada, quase inaudível. Eduardo não diminuiu o ritmo. Cada movimento era forte, violento, quase mecânico. Luís sentia o quadril de Eduardo colidindo brutalmente contra si, sem dar-lhe um segundo sequer para respirar, sem nenhuma pausa para aliviar a dor lancinante que o consumia. — Não é você quem dita as regras aqui, maninho — sussurrou Eduardo contra o ouvido de Luís, sua voz carregada de desprezo. Luís sentiu quando Eduardo se afastou momentaneamente, apenas para investir com ainda mais força logo em seguida. Um grito escapou de sua garganta, rasgando suas cordas vocais. Ele mordeu o lábio inferior até sentir o gosto metálico de sangue, tentando conter as lágrimas que insistiam em cair. Eduardo odiava quando ele chorava. Aquela tortura durou por mais algum tempo. Eduardo abusou de seu corpo vilentamente. Mordendo seus ombros, puxando sem piedade seu cabelo... Era uma tortura que parecia não ter fim. Quando finalmente terminou, Eduardo soltou um gemido satisfeito, apertando com força a cintura de Luís. Depois de alguns minutos ele se afastou sem qualquer resquício de remorso. Louis permaneceu imóvel, o corpo trêmulo e vermelho, ainda sofrendo espasmos involuntários. — Porra... — murmurou Eduardo, saindo de dentro de Luís e olhando para ele com desdém. — Ei, o que você está esperando? — cutucou Luís com o pé. — Levante e arrume essa bagunça. Não quero te encontrar aqui quando eu sair do banho. Eduardo caminhou até o banheiro, fechando a porta com força. O som do chuveiro ligando preencheu o silêncio opressivo que havia se instalado. Luís ficou ali por longos minutos, imóvel. Cada centímetro do seu corpo doía, cada respiração era um lembrete c***l do que havia acabado de acontecer. Seu corpo parecia queimar de dor, e ele podia sentir o gosto metálico do sangue na boca devido à força com que mordeu os lábios para não gritar. Finalmente, reuniu forças para se levantar, mesmo que cada movimento fosse como pisar em vidro quebrado. Ele arrumou os lençóis da cama com mãos trêmulas, esforçando-se para não deixar nenhuma evidência do que havia acontecido ali. Depois, saiu do quarto mancando pelo corredor vazio, cada passo ecoando nas paredes frias da casa. Assim que entrou em seu quarto, fechou a porta com cuidado e deslizou até o chão. Abraçou os joelhos contra o peito, escondendo o rosto entre eles. As lágrimas caíram silenciosas, pesadas, como se pudessem carregar um pouco do peso que esmagava seus ombros. Luís não tinha mais forças para chorar alto. Há um ano, tudo parecia promissor quando Luís e sua mãe chegaram àquela casa. Samanta estava radiante, cheia de esperança de que finalmente encontrariam um lar seguro, onde poderiam reconstruir suas vidas. Daniel era um homem gentil e atencioso, alguém que parecia verdadeiramente amar sua mãe. Mas Eduardo… Eduardo era um poço cheio de raiva e ódio, que havia decidido tornar da vida de Luís um inferno naquela casa. No início, foi sutil. Eduardo ignorava Luís quando estava em casa, e quando seus olhares se cruzavam, os dele estavam sempre frios e sombrios. Depois vieram os insultos: — Você não pertence a este lugar. — Sua mãe não passa de uma prostituta barata. — Você é só um parasita, Luís. Luís tentava ignorar. Tentava acreditar que Eduardo, de alguma forma, superaria aquilo, que era apenas uma fase. Ele buscava se manter invisível, andando pela casa como um fantasma para evitar confrontos. Mas Eduardo não permitia que ele se escondesse. Logo, os insultos se transformaram em empurrões nos corredores, tropeços “acidentais” que o faziam cair, objetos arremessados contra ele com precisão cirúrgica. — Olha por onde anda, bicha — Eduardo dizia, com um sorriso c***l dançando em seus lábios. Depois vieram os abusos. As portas que se abriam silenciosamente no meio da madrugada, os sussurros carregados de ameaça, os momentos onde o ar parecia congelar e o mundo deixava de existir fora daquele quarto. Luís lutava. No início, ele lutava. Chorava, implorava, mas ninguém nunca veio. Samanta nunca ouviu. Daniel nunca percebeu. Quando esses abusos aconteciam, eles nunca estavam em casa, e Luís sentia-se sozinho e encurralado. A casa era grande demais, e os segredos, profundos demais para serem descobertos. Com o tempo, Luís desistiu. Desistiu de lutar, desistiu de chorar, desistiu de se importar. Se ele não resistisse, Eduardo às vezes era menos c***l. As sessões eram menos violentas, menos brutais. Então Luís aprendeu a se esvaziar, a desligar sua mente quando tudo acontecia. Ele aprendeu a ser um bom garoto. Mas não importava o quanto ele tentasse se proteger dentro de si mesmo; a dor sempre o alcançava no final. Ele se tornou uma sombra dentro daquela casa. Um corpo que vagava silencioso, invisível, carregando consigo um peso que ninguém parecia notar. ___ Luís acordou num sobressalto. A respiração ofegante, dolorosa. Ele olhou ao seu redor com urgência, procurando por ele. Mas ele não estava ali. O quarto estava mergulhado na escuridão, mas Luís conseguia enxergar os contornos das sombras que se espalhavam pelas paredes. Seu corpo estava frio, úmido de suor, os lençóis emaranhados ao seu redor como correntes. Ele havia sonhado com Eduardo novamente. Não era novidade; na verdade, era quase rotina. Cada noite era uma nova oportunidade para que seu subconsciente revivesse os momentos mais sombrios, mais dolorosos. Ele estava cansado. Extremamente cansado. Luís se sentou na cama, respirando fundo, tentando estabilizar seu peito arfante. Seus olhos percorreram o criado-mudo ao lado da cama e pousaram no copo vazio que estava ali. Ele costumava deixá-lo cheio antes de dormir, mas naquela noite havia esquecido. Por um momento, pensou em simplesmente deitar novamente e ignorar a secura em sua garganta. Mas sua boca parecia colada, e o gosto amargo que restava do pesadelo só piorava a sensação. Com movimentos lentos, ele colocou os pés no chão gelado e se levantou. O rangido do assoalho sob seus pés soou alto demais no silêncio opressivo da casa. Ele caminhou até a porta e abriu-a com cuidado, espiando o corredor vazio antes de sair. Cada passo era calculado, como se ele estivesse pisando em uma mina terrestre. A cozinha estava mergulhada na penumbra, iluminada apenas pela fraca luz da lua que passava pela janela. O relógio na parede marcava 2h45, e o som de seu tique-taque preenchia o silêncio absoluto. Luís caminhou até a pia, pegou um copo no armário com mãos trêmulas e encheu-o com água. O líquido frio desceu por sua garganta, e por um breve instante, ele quase se sentiu normal. Quase. Mas então, passos ecoaram atrás dele. O copo parou a meio caminho de sua boca, e sua respiração ficou presa na garganta. Ele não precisava se virar para saber quem era. O ar ao seu redor parecia ter ficado mais pesado, mais frio. Eduardo estava ali. — O que você está fazendo aqui a essa hora? — A voz dele soou fria, casual, mas carregada com uma ameaça silenciosa. Luís se virou lentamente, o copo ainda firme em suas mãos, mas seus dedos tremiam tanto que ele m*l conseguia segurá-lo. Eduardo estava encostado na porta da cozinha, descalço, vestindo apenas uma calça de moletom folgada que caía baixo nos quadris. Seus olhos verdes, mesmo na penumbra, tinham um brilho predatório que fez Luís estremecer. — E-eu só… só vim pegar água… — murmurou Luís, sua voz quase inaudível. Eduardo deu alguns passos lentos em direção a ele, sem desviar o olhar. Luís sentiu seus músculos travarem; ele não conseguia se mexer. — Sempre tão patético… — murmurou Eduardo, um sorriso torto e c***l formando-se em seus lábios. Ele passou por Luís como se ele não estivesse ali, mas seu ombro bateu contra o de Luís com força suficiente para desequilibrá-lo. O copo escapou de suas mãos e caiu no chão, quebrando-se em dezenas de pedaços que se espalharam pelo chão. O som do vidro quebrado ecoou na cozinha, cortando o silêncio como uma faca afiada. Eduardo parou, virou-se para encarar Luís e franziu os lábios com desprezo, o ignorando logo em seguida. Ele abriu a geladeira, pegou uma garrafa de bebida no armário e saiu da cozinha, sem olhar para trás. Luís ficou ali, parado, o olhar fixo nos cacos espalhados pelo chão. Seus ombros tremiam, e ele podia sentir as lágrimas ardendo nos olhos, mas ele as conteve. Ele não podia chorar. Não ali. Finalmente, com movimentos cuidadosos, ele ajoelhou-se no chão e começou a recolher os pedaços de vidro com as mãos nuas e trêmulas. Um estilhaço afiado cortou seu dedo, e uma fina linha de sangue escorreu, pingando no chão. Luís mordeu o lábio com força, abafando o soluço que ameaçava escapar. Ele fungou e continuou, mais devagar dessa vez, recolhendo cada pedaço de vidro até que tudo estivesse limpo. Depois, ele lavou o corte no dedo sob a torneira, observando a água avermelhada desaparecer pelo ralo. Seu reflexo no vidro da janela parecia pálido, cansado, vazio. Suspirando, ele secou as mãos, apagou as luzes e subiu as escadas. Seu corpo tremia a cada passo, e sua cabeça parecia pesar toneladas. Quando finalmente chegou ao quarto, ele fechou a porta atrás de si e deslizou até o chão. Ele abraçou os joelhos contra o peito e enterrou o rosto entre eles. As lágrimas vieram silenciosas, rolando por seu rosto pálido enquanto ele sufocava os soluços contra as pernas.
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