Neste espaço, vocês terão o prazer de conhecer o nosso protagonista, que de mocinho não possui absolutamente nada. Ele não se encaixa no estereótipo de herói, tampouco de vilão; na verdade, é um homem comum, que frequentemente se erra até mais do que acerta. Ele está em uma busca constante para conquistar um lugar no seu próprio coração. Permitam-me apresentar-lhes Marcus!
Michigan EUA
Marcus
— Caramba! Como assim não posso voltar? — Exclamei em voz alta em inglês, olhando para o homem à minha frente enquanto ele ajeitava os óculos com as mãos trêmulas.
— Lamento, Marcus, mas estamos seguindo as diretrizes do seu pai. Sua missão aqui ainda não está concluída. Há muito por fazer e a nossa responsabilidade… — O homem trêmulo evitou meu olhar, sua fala carregada com um sotaque norte-americano. Tenho essa mania terrível de perceber quando as pessoas estão com medo e quase sinto uma atração para aumentar a sensação, até o cheiro do temor pairar no ar.
— Ele é quem paga a vocês, não a mim, droga! Vocês acham que vou cair nessa? Acordem! Não estou aqui para trabalhar para vocês. São vocês que trabalham para mim, entendeu por'ra! — o gerenciador olhava para chão ao me ouvir, nem parece que o cu'zão paga de bichão com os outros funcionários.
— Senhor...
— Não tem senhor nenhum aqui... cara'lho! — interrompi, dando um chute no ar. Caminhei até a geladeira e apanhei uma garrafa de bebida. Não é a minha favorita, mas é o que temos disponível.
Meu pai me enfiou nessa situação em que só posso sair com a permissão dele. Eu vim de boa vontade, mas conviver diariamente com essa galera aqui está me enlouquecendo, o lugar é intragável, os americanos não têm senso de humor, o que deixa o meu ainda mais amargo, o único cara que mais converso vejo de vez enquanto, ele e brasileiro também, homem de confiança do meu pai, Ítalo não é o que chamo de amigo, mas dá para relevar, é o menos cara de bun'da desse lugar, nem as mulheres passam batido, não é à toa que gosto tanto das brasileiras. Se for para olhar para caras amarradas, prefiro olhar para a minha própria cara por'ra!
Não tenho a opção de sair da empresa em que estou e também não levo esse trabalho a sério. No início, levei a sério, mas logo percebi que estavam me empurrando tarefas deles, não que eu estivesse trabalhando para eles. Estou começando a pensar que teria sido melhor ficar choramingando pela prostituta.
Por mais que odeie o lugar e todos ao meu redor, encontrei uma maneira de retomar os meus projetos. Só isso para me fazer relaxar um pouco.
Consegui instalar meu app de espionagem no notebook que utilizo da empresa. Nem mesmo o meu próprio notebook eu pude trazer, meu pai tem medo de eu me comunicar com a Belly por e-mail, voltei a ser criança nas mãos do senhor Alexander. Não sei como me submeti a isso, mas fazer o quê? Tenho que obedecer ao meu velho, não é?
Estava conversando com Lucca, meu amigo, a respeito das últimas notícias. Quando cheguei aqui, entreguei meu celular e ainda não me foi devolvido, um bando de insolentes. Sinto como se estivesse numa espécie de confinamento forçado.
Por mais que eu saiba que meu pai está fazendo isso para o meu bem, tenho minhas revoltas sobre o seu comando. Não sou obrigado a aceitar tudo o que ele me impõe.
Para me comunicar com Lucca, utilizo um aplicativo de mensagens pela web. Ontem, consegui invadir meu celular, o que foi um processo árduo, mas me permitiu acessar os contatos. Meu nome? Marcus Hernandez. Acabei de completar 30 anos, sou detetive particular, traficante de armas, e revoltado, só para você saber posso ser tudo o que me convêm. E por que estou retido nos Estados Unidos por vontade do meu próprio pai? Agora você vai entender.
Alguns anos atrás...
Sempre fui atraído por mulheres mais velhas, aquelas de personalidade mais forte e ousada. Preferia as garotas de programa por não saber como lidar bem com mulheres simples, aquelas que enfrentam o cotidiano, trabalham e têm suas próprias vidas. Desde jovem, tive um apetite pelo tipo de mulher mais experiente. Após completar meus 18 anos, comecei a frequentar boates e casas de prostituição, esse tipo de lugar que os jovens gostam.
No entanto, essa busca incessante por prazeres passageiros começou a se tornar vazia. Cada encontro casual parecia deixar um vazio maior do que antes.
Foi nesse momento que conheci alguém que mudaria drasticamente o curso da minha vida. Seu nome era Belly, uma mulher deslumbrante que capturava a minha atenção com seu sorriso cativante e a maneira como encarava a vida, algo que me intrigou desde o início. Nos cruzamos em uma boate onde ela trabalhava. Eu sabia que ela era uma garota de programa, mas acreditava que, se eu lhe proporcionasse melhores condições de vida, ela consideraria a possibilidade de ter algo sério comigo. Ingênuo, não é mesmo? Pensei em estar buscando o melhor para nós dois.
À medida que nossos encontros se tornaram mais frequentes, meu ciúme por ela só crescia, arrumava problemas para mim e para ela. Um ano após nos aproximarmos, cheguei ao limite. Desejava tê-la somente para mim e pedi que abandonasse a vida que levava. Ela concordou. Por um curto período, desfrutamos de momentos felizes juntos, mas logo comecei a desconfiar de suas atitudes. (Confesso que desconfio até da minha própria sombra.) A verdade é que sou excessivamente desconfiado e pedi a meu amigo Lucca para testá-la. Infelizmente, ela caiu na armadilha. Minhas suspeitas se confirmaram, e eu estava certo. Bastou uma oferta tentadora para que ela traísse a minha confiança.
A partir desse momento, voltamos a nos encontrar ocasionalmente. Eu aparecia nos lugares onde ela estava, tentando atrasar seu trabalho e afastar seus clientes. No entanto, o cansaço muitas vezes me vencia, e acabei diminuindo minha presença. Mas ela não queria ser deixada de lado, de jeito nenhum. Foi assim que entramos em um ciclo de relacionamento turbulento. Brigávamos e, no final, sempre acabávamos na cama. Era uma dinâmica constante, e não tenho motivos para reclamar. Afinal, eu adorava ser chamado por ela, em vez de ficar monitorando seus locais de trabalho.
Mas tudo desandou, na última vez que nos vimos ela estava sendo abusada por um dos seus clientes, aquela imagem do cara foden'do com ela não sai da minha cabeça, eu estourei os miolos do m*l'dito.
Porém, para a minha des'graça, ela me tratou com uma frieza nunca antes. Essa indiferença dela teve um impacto maior em mim do que vê-la com aquele desconhecido. Foi a sua frieza que realmente me feriu. Acabamos discutindo, ela acabou falando que perdeu a guarda do seu filho, e mesmo que ela tenha se desculpado minutos depois por telefone, o estrago já estava feito. A partir daí, entrei em um ciclo de dias e noites embriagado. Todos tentaram me ajudar, mas foi um ciclo de altos e baixos. Até que meu pai decidiu intervir e me enviou para o lugar onde estou agora.