Capítulo 3

816 Palavras
Jantamos em silêncio, como todas as noites desde que Katerina fora embora. Dona Rosa mastigava calmamente seu bife, até que começa a tossir compulsivamente. Fixo meu olhar em seu rosto, no instante em que solta os talheres, levando uma mão ao pescoço, dando a entender que estava engasgada. Sabia que não estava. - Mamãe? - Ela arregala os olhos tossindo – Vou buscar um copo de água - levanto adentrando na cozinha, ouvindo sua tosse nitidamente. Tiro do meio de um jarro de plantas artificial um pequeno frasco com liquido transparente. Entendia o quão errado era o que estava fazendo nos últimos anos, matava aos poucos a mulher que me deu a vida. Tudo isto por raiva. Odiava o fato de não me amar como amava Katerina, sempre foi Katerina. Muitas vezes chegava a desejar que tivesse sido morta, invés de papai, ele sim me amava, aplaudia meus progressos e sempre torcia por mim. Ao contrário de mamãe, que nunca demonstrou seu amor por mim e começara a me desprezar desde que Katerina não era mais um problema. Volto para a sala de jantar com um copo d’água, entregando para mamãe que não hesita em pegar. Nos minutos seguintes, tenta normalizar a respiração, enquanto massageava o peito. Até que trêmula, termina de beber o restante da água em seu copo. - Como está se sentindo? - Estou bem – diz seca, apoiando às mãos na mesa para levantar – Vou me deitar. Limpe tudo. Balanço a cabeça assentindo, observando-a sair do cômodo se apoiando nas paredes. Retiro os pratos da mesa, levando-os para a lavadeira, me certificando em seguida que não havia ficado nenhuma migalha, para só então ir para meu quarto. Tiro a blusa da manga comprida, tirando de dentro da minha mala um kit de primeiros socorros. Faço uma careta quando tiro às gases, completamente encharcadas de sangue, analisado os pontos inflamados, suspirando profundamente antes de abrir a caixa vermelha ao meu lado. O dia seguinte amanhece chuvoso para meu pesar. Odiava chuva, desde o momento em que nos mudamos para Harlem. Diferente de Katerina que estava bem feliz em se livrar dos dias ensolarados e quentes de Cholula. Saio do meu quarto, concentrando o olhar no chão, ouvindo a voz de mamãe vindo de seu quarto enquanto rezava em espanhol. Era o que fazia todas as manhãs há dez anos. Pedia que Deus protegesse sua amada filha e que a trouxesse de volta para casa sã e salva. Graças aos céus ou não, seu pedido nunca foi realizado e esperava que nunca fosse realizado. Atravesso a rua correndo na tentativa de não me molhar, em vão, me sentindo úmida e gelada ao sentar atrás do volante, dando partida após aquecer um pouco o carro. O departamento continuava movimentado, igual a última vez que vira. Telefones tocando, pessoas conversando e transitando de um lado para o outro e uma vontade enorme vindo de mim para ser mandada para outra missão. - Kathléia - Pisco duas vezes, encontrando Jack com as mãos na cintura me encarando – Na minha sala. Agora. Inspiro profundamente seguindo-o. Jack era conhecido por seu temperamento explosivo e por usar uma prótese capilar, nada discreta, mesmo a maioria das pessoas conhecendo o motivo pelo qual a usava. Ele para diante da janela atrás da mesa vernizada. - Pode me dizer o que aconteceu em Los Angeles? - pergunta tentando controlar a raiva na voz. - Ross descobriu tudo e fui obrigada a agir. - Agir – Ele repete, baixando a cabeça, forçando um sorriso - Você fez o treinamento, não fez, Kathléia? Pois acredito que sim. - É. Eu fiz – digo engolindo em seco. Jack se vira sustentando meu olhar. - Então sabe que deveria seguir o protocolo, pedir reforços e esperar. - Ele iria matá-la, Jack – argumento. - Ou talvez não. Ross não iria querer mais uma morte em suas costas – Reviro os olhos – Portanto, espero que não cometa mais o mesmo erro – Fecho os punhos com força - Agora pode ir. Levanto saindo da sala sem fazer barulho, caminhando em passos largos até o banheiro, onde pego várias folhas de papel, entrando em um reservado. Coloco às folhas na boca, gritando o mais alto que posso até perder o fôlego. Repito o mesmo processo, até sentir minha garganta arder. - Kathléia? - Ouço a voz de Sara. Me recomponho rapidamente, abrindo a porta do reservado. - Oi – esboço um sorriso. - Está tudo bem? Vi você saindo da sala do Jack. - Sim. Está - Caminho até o lavatório, lavando minhas mãos. Sara inclina a cabeça para o lado me avaliando. - E como está o ferimento? - Olho para ela secando minhas mãos. - Estou bem, Sara – Tento garantir, vendo a dúvida pairar em seu rosto. - Tudo bem então - Ela sorri levemente, me acompanhando para fora do banheiro.
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