Era hora do almoço e para compensar o café da manhã, decido almoçar no meu restaurante favorito da cidade. Cantina Taqueria & Tequila Bar.
Havia conhecido por acaso, em um dia que só desejava voltar para minha cidade natal e esquecer que um dia havia ido para a América.
Terminava meu terceiro taco de carne, quando meu celular começa a tocar insistentemente e o nome de Vicent aparece.
Ignoro. Me concentrando na refeição nas minhas mãos.
O celular retorna a tocar.
Mais uma vez.
Outra.
Até que termino de comer e atendo.
- Vicent.
- Ah. Oi, Káh – diz Vicent hesitante – Então, é que Sara foi buscar Smile no pet shop e a garota Mariah disse que já tinha o levado.
- E imagino que Sara o quer.
- Isso mesmo.
- Diga à ela pra vir buscar. Estou no Cantina, ela sabe onde é.
- Está bem – Desligo, olhando para o gato na cadeira ao lado.
Como havia imaginado, Sara não demora para chegar no restaurante acompanhada por Vicent, que fica um pouco para trás quando ela caminha em passos largos até a mesa onde estava e pega a caixa, olhando com os olhos marejados o gato.
Seus lábios tremiam ao me olhar.
- Não devia ter feito isto.
- Sara...- digo levantando.
- Sabes lo importante que és para mi – diz em espanhol – Se usar ele era seu plano para voltar a falar comigo, falhou miseravelmente, Kathléia – Ela gira os calcanhares, passando por Vicent, que ainda sustenta meu olhar antes de segui-la.
Devia ter interpretado tal situação como um aviso do que estava por vir. Mas naquele momento não estava querendo prestar atenção em avisos.
Graças ao meu plano falho com Sara, acabei por passar o final de semana escondida dentro do meu quarto.
Não que alguém fosse sentir minha falta.
Pois sabia que não iriam.
Dona Rosa mostrava querer saber a todo custo o que havia causado meu isolamento repentino, mas a última coisa naquele momento que iria fazer, seria me abrir com ela. Contar algo sobre minha vida que, ela nunca se interessou.
Quando a segunda-feira chegou, desejei adoecer para ficar em casa, só que aí lembrei que para ficar em casa, teria que lidar com Dona Rosa e sentia que minha paciência se esgotava.
- Este café está horrível – Mamãe reclama ao tomar um pouco do café.
- É o café que sempre faço na cafeteira, mamãe – digo tomando mais um gole do café.
Ela faz uma careta, encarando a xícara.
- Não. Não – Ela ergue o olhar me olhando – Com certeza você mudou o café – Em seguida ela se levanta, abrindo e fechando os armários em busca de outro café que não existia.
O café para mim estava normal, já que não costumava colocar veneno em minha caneca.
- Por quê mudaria o café, mamãe? Se sei que só gosta deste – Levanto no exato momento em que desfere um tapa no meu rosto.
Permaneço alguns segundos parada, absorvendo o que acabara de acontecer.
- Olha o modo que fala comigo – Ela murmurra – Sei que gosta de mentir e se disse que mudou o café, você mudou.
Inspiro profundamente colocando minha caneca na pia, para só então deixar a cozinha com o lado esquerdo do meu rosto ardendo.
Todos os dias no departamento pareciam iguais, acredito que por causa dos telefones tocando, conversas vindo de vários cantos e pessoas transitando de um lado para o outro.
Só que naquela segunda-feira, havia algo de diferente no ar.
Pares de olhos se colocam sobre mim quando entro no departamento, seguido de murmúrios.
A impressão que tinha era que a maioria das pessoas falavam do mesmo assunto.
Sento diante da minha mesa, sem perceber quando Jack se aproxima.
- Kathléia – diz sério.
- Ah. Oi, Jack – suspiro – Ainda não tenho numa pista de Ross.
- Não é sobre Ross que quero falar com você. Quero que venha na minha sala.
Franzo o cenho assentindo, seguindo-o.
Fecho a porta atrás de mim ao entrar na sala.
Jack respira fundo, antes de concentrar seu olhar em mim.
- Nesta manhã, assim que cheguei, fiquei sabendo de boatos que está tendo o caso com Bruce Evans, o Chefe de Polícia de Manhattan.
-...não sei como...
- Boatos como este, principalmente como Bruce, não é algo bom. Já que o pai de Valerie Evans, é o ex Chefe de Polícia Hall, muito influente e que pode facilmente acabar com sua carreira na narcóticos- Ele dá a volta na mesa, parando na minha frente – E não querendo que isto aconteça, vou ter que te afastar, até toda essa poeira baixar.
- O quê? Me afastar? – pergunto incrédula.
Ele afaga meu ombro.
- Vai até ser bom pra você, descansar um pouco. Talvez fazer uma viagem – Ele força um sorriso – Veja isto como uns dias de folga adiantados das suas férias.
Balanço a cabeça assentindo, dando um meio sorriso em seguida.
- Obrigada, Jack – Giro os calcanhares, caminhando em passos pesados até minha mesa, onde pego minha bolsa e deixo o departamento o mais rápido que posso.
Esmurro o volante algumas vezes, ao dirigir para longe do departamento. Lágrimas quentes e grossas ameaçavam minha visão, ao fundo podia escutar buzinas e xingos, porém estava com raiva demais para prestar atenção em alguma coisa e só conseguia afundar meu pé no acelerador.
Até que de repente ao tentar passar um cruzamento aberto, um carro bate na porta do carona, me tirando da estrada e consequentemente me fazendo bater de frente em um poste, acionando numa fração de segundos o air-bag.