Capítulo 2

1608 Palavras
Naquele momento, Pérola não aguentou. Seus olhos se encheram de lágrimas, e ela começou a chorar ali mesmo, no meio da loja. Ele estava de costas, e ela tentou limpar o rosto rapidamente, mas foi inútil. Ele se virou, assustado e sem entender. — Me dá licença, vou chamar alguém para te atender... — disse Pérola, com a voz embargada. — Você está bem? — perguntou ele, surpreso. — Não, moço, não estou. E não precisava falar desse jeito comigo. Prefiro usar roupas falsas do que ostentar uma vida que não tenho. Não sou menos que ninguém por isso! — respondeu ela, enxugando as lágrimas. Ele se desculpou, dizendo que não havia se expressado bem. Pérola não respondeu e se afastou, deixando sua colega atendê-lo. Correu para o banheiro, sentindo-se humilhada e exausta. Pediu para sua patroa liberá-la mais cedo, alegando não estar se sentindo bem. Eram umas 18h de sexta-feira. Ao sair da loja, ele já havia ido embora. Chegou em casa exausta e não contou nada à mãe, inventando uma enxaqueca e TPM. Tomou banho, deitou-se e chorou até dormir. Acordou com a mãe chamando para jantar, mas disse que não queria. A mãe percebeu seu abatimento e perguntou o que havia acontecido, mas Pérola apenas disse que estava cansada do trabalho e do estágio, evitando compartilhar seus sofrimentos, especialmente os relacionados ao preconceito, para não preocupar a mãe, que tinha problemas de pressão alta. No sábado, acordou um pouco melhor e trabalhou na loja pela manhã. À tarde, descansou em casa. Recebeu uma ligação de uma amiga, convidando-a para trabalhar em uma festa de aniversário de pessoas influentes. Pérola aceitou na hora, precisando do dinheiro e de uma distração. Às vezes fazia trabalhos extras como garçonete ou recepcionista, e depois sempre se divertia com os amigos. A amiga disse que seria legal e que precisavam ir bem vestidas, maquiadas e de salto alto. Pérola escolheu um vestido preto para a festa, que era em uma balada fechada. Ela ficou na portaria com a lista até a responsável chegar. As pessoas foram chegando, e ela viu o cliente m*l-educado da loja. Ele sorriu e disse "oi". Pérola manteve a seriedade e perguntou: — Qual o seu nome? — Klaus! — respondeu ele. Pérola procurou na lista, verificou e colocou uma pulseira no braço dele. Ele segurou sua mão e disse: — Queria me desculpar com você! — Imagina, eu estava tendo um dia r**m apenas. Boa festa! — respondeu Pérola, tentando ser cordial. Ele entrou, mas logo voltou e perguntou seu nome. — Pérola — respondeu ela. — Vamos reiniciar? Prazer, Pérola, sou o Klaus! — disse ele, educadamente. Pérola manteve a postura séria enquanto a aniversariante se aproximava repentinamente e o chamava. Klaus lhe disse, com um olhar de despedida, "a gente se vê". Logo, a moça responsável pela portaria chegou, e Pérola se dirigiu ao bar. Cerca de meia hora depois, Klaus foi pegar uma bebida; sua colega o serviu, e ele ficou a encarando, encostado no balcão. Pérola continuou trabalhando, sem se distrair ou lhe dar atenção. Ele logo se afastou, e horas depois, quando a festa acabou, já super tarde da madrugada, restavam uns quatro convidados, incluindo a dona da festa, Klaus e o pessoal arrumando tudo para encerrar o expediente. Os convidados se foram, e o pessoal tomou alguns drinks e cervejas, mas Pérola não bebeu, pois quase nunca tinha esse hábito. Ela apenas conversava descontraidamente. Logo, ela e sua colega saíram, e Klaus estava lá fora, encostado no carro. Ele correu até Pérola e disse: — Finalmente! Estava te esperando. Pérola respondeu surpresa: — Me esperando?! Ele confirmou: — Sim, quero me desculpar com você, sabe... Posso te dar uma carona? Pérola respondeu indiferente: — Você não tem por que se desculpar, falou o que pensa baseado na sua realidade. Eu estava tendo um mau dia e me exaltei um pouco. Ele a segurou pelo braço e propôs: — Vamos dar uma volta? Pérola se esquivou: — Não, olha a hora que é, preciso ir para casa. Ele insistiu: — Eu te levo embora, se preferir. Pérola recusou, agradecendo. Sua colega conversava com o ficante, que também trabalhava ali, e comentou que eles iriam estender a noite, perguntando se o "amigo" de Pérola a levaria. Convidou Klaus para ir junto. Pérola disse que estava cansada e precisava ir para casa, mas Klaus a interrompeu, respondendo à amiga: — Eu levo ela, pode deixar. Se Pérola pedisse, sua amiga e o ficante a levariam para casa sem problemas, mas ela sabia que seria um incômodo. Por outro lado, Klaus estava sendo gentil e educado, embora fosse um desconhecido. Um pouco insegura, Pérola aceitou a carona. Enquanto se despedia da amiga, enviou uma mensagem com todos os dados de Klaus, do carro e o que sabia sobre ele, por segurança, caso algo acontecesse. Ela sempre fora um pouco paranoica. Eles entraram no carro, um carrão de luxo, o que já era de se esperar. Pérola, envergonhada, permaneceu em silêncio. Klaus perguntou: — E aí, Pérola, nome bonito. Me fala um pouco mais sobre você? Pérola respondeu séria: — O que quer saber? Ele disse "tudo", e Pérola falou: — Tenho 21 anos, moro com a minha mãe, Lucinda. Perdi meu pai quando eu era pequena, vítima de bala perdida, era de se esperar já que moro na favela. Estudo enfermagem, tô quase me formando. Uso roupas do camelô, mas isso você já sabe. Gosto de pagode, funk, sei lá, não tenho nada muito interessante pra te dizer. Fala de você aí. Pérola foi afrontosa, testando a gentileza dele, e Klaus não foi ogro nem esnobe. Ele respondeu: — Eu não quis te ofender, me desculpa por aquele dia. Sou médico, moro perto da praia, tenho 28 anos e gosto do seu senso de humor, mesmo que um pouco n***o. Pérola respondeu: — Médico? Que legal. Ele perguntou, colocando a mão na perna dela: — Você não quer dar uma parada em algum lugar? Pra gente poder se conhecer melhor! Pérola tirou a mão dele da sua perna e respondeu séria: — Não, se você não quiser só me levar pra casa, pode me deixar aqui mesmo, que eu me viro. Ele respondeu sem graça: — Não, que isso, vou te levar em segurança para sua casa. Eles conversaram pouco, e Pérola não se sentiu à vontade ao lado dele. Ele a deixou na porta de casa, e quando ela foi beijar seu rosto, ele a beijou na boca. Foi um beijo intenso. Pérola agradeceu a carona, desceu do carro, e eles nem sequer trocaram números. Dias depois, Pérola estava trabalhando na loja, atendendo uma cliente, quando Klaus entrou, sorriu para ela de longe, e ela retribuiu o sorriso, dizendo "oi". Ele ficou vendo algumas peças, e quando a cliente de Pérola se foi, ele disse à colega que gostaria de ser atendido por Pérola, porque ela conhecia seu gosto. Pérola se aproximou e disse: — Olá, boa tarde, tudo bem? Posso ajudar? Ele respondeu que estava ótimo, e Pérola perguntou: — O que você procura hoje? Ele respondeu baixinho: — Você deve me achar estranho, né?! Sempre vindo comprar presentes femininos. Pérola respondeu, mexendo nas roupas: — Não, imagina. O que você tem em mente hoje? Ele disfarçou: — Conseguir o seu contato, eu não sabia como te encontrar, fiquei pensando em você. Pérola respondeu apreensiva: — Você não pode falar essas coisas aqui, para, por favor, se não você pode me prejudicar. Ele respondeu: — Calma, Pérola, ninguém ouviu nada! Pérola começou a mostrar algumas peças para ele, suas mãos ficaram geladas e trêmulas. Ele pegou discretamente na mão dela e perguntou: — Você tá nervosa? Pérola ignorou a pergunta: — Qual a idade dela? Você tem preferência de cor? Ele respondeu: — 21, 22, acho que pode ser cores quentes, algo colorido, ainda não sei do que ela gosta. Pérola imaginou que ele pudesse estar falando dela. Eles foram para o balcão com perfumes importados, e enquanto Pérola mostrava as fragrâncias, escreveu seu número em um papelzinho e entregou a ele sem que ninguém visse. Klaus disse, achando graça: — Eu não posso sair sem levar nada, já que tomei seu tempo! Pérola respondeu: — Imagina, pode sim, sem problemas. Ele a fez mostrar mais algumas coisas, escolheu uma bolsa linda de R$300, pediu para embrulhar e foi embora. Quando Pérola saiu do trabalho, havia uma mensagem dele dizendo que gostaria de sair com ela. Pérola respondeu que estava sem tempo, com muito trabalho, mas na verdade não queria. Ele respondeu que tudo bem, que quando ela estivesse mais tranquila, era para avisar. Ele começou a puxar assunto, e eles conversaram durante aquela noite e nos dias seguintes, trocando várias mensagens, nada demais, apenas se conhecendo melhor. Ele mandou uma foto dele no trabalho, e Pérola, que também estava no hospital, mandou uma foto sua de enfermeira. Ele respondeu que achava legal ela estudar e trabalhar, mas que achava uma pena ela não ter tempo para sair com ele. Como a conversa deles estava agradável há dias, Pérola aceitou sair. Havia muito tempo que ela não ficava com ninguém, e estudando tanto, era difícil ter tempo. Klaus se mostrou paciente por dias, então eles marcaram para sábado às 21h. Pérola ficou muito ansiosa, sem saber o que esperar. Por mensagem, ele não disse nada sobre onde iriam ou o que fariam. Ela estava acostumada a sair com gente como ela, mais humilde, e raramente teve um encontro de verdade. Começou a revirar o guarda-roupa, achando que não tinha sido uma boa ideia, mas seria chato desistir em cima da hora.
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