Isabela Duarte percebeu que algo estava errado no dia em que acordou e não sentiu pressa.
Não havia prova, nem trabalho, nem aula capaz de empurrá-la para fora da cama. O relógio marcava quase dez da manhã quando ela abriu os olhos, mas o corpo continuava pesado demais para se mover. O quarto parecia menor. O ar, mais denso. Como se tudo tivesse sido sugado para um ponto invisível no peito.
Ela fechou os olhos de novo.
Durante semanas, vinha atravessando a faculdade como quem atravessa um corredor estreito, de cabeça baixa, torcendo para não ser vista. O caminho até a sala de aula parecia sempre mais longo do que o normal. Os degraus, mais altos. Os corredores, mais barulhentos. E os olhares — sempre os olhares — colavam nela como se não houvesse mais nada a observar naquele lugar.
Isabela tentava fingir que não percebia, mas percebia.
Os cochichos quando ela passava.
Os risos abafados.
Os comentários jogados ao vento, baixos o suficiente para não virar confronto, altos o bastante para ferir.
Havia dias em que conseguia se concentrar. Em outros, a mente simplesmente se desligava. As palavras do professor chegavam fragmentadas, sem sentido, como se fossem ditas em outra língua. O caderno, antes organizado, agora acumulava páginas em branco.
Ela, que sempre sentou na frente, passou a escolher os lugares do fundo. Não queria ser vista. Não queria levantar a mão. Não queria ouvir seu nome ecoar na sala como se fosse uma provocação.
Naquela manhã, Isabela decidiu não ir.
Sentou-se na beira da cama, abraçou os próprios joelhos e ficou ali por longos minutos, encarando o chão. O celular vibrou com uma notificação da faculdade. Depois outra. Depois mais uma.
Ela não abriu nenhuma.
A mãe percebeu a mudança antes mesmo de Isabela dizer qualquer coisa. Percebeu no jeito mais lento, no prato quase intacto no café da manhã, no olhar perdido enquanto mexia o açúcar na xícara.
— Você não vai hoje? — perguntou, com cuidado.
Isabela balançou a cabeça em negativa.
— Não consigo.
A palavra saiu pequena, mas carregada de um peso enorme.
A mãe se sentou à frente dela, apoiando os cotovelos na mesa.
— Quer conversar?
Isabela respirou fundo. Havia dias que tentava formar aquela frase, mas ela sempre ficava presa na garganta.
— Mãe… — começou, a voz falhando. — Eu não aguento mais.
O silêncio que se seguiu não foi de julgamento. Foi de escuta.
— Eles me olham como se eu não fosse mais nada — Isabela continuou. — Como se tudo o que eu sou tivesse sido apagado por causa de um erro que não foi meu. Eu entro na sala e sinto que não pertenço mais ali.
A mãe apertou os lábios, segurando a própria emoção.
— Você sempre pertenceu — disse. — E sempre vai pertencer.
Isabela balançou a cabeça, com um riso triste.
— Não é assim que parece.
Os dias seguintes se arrastaram. Isabela começou a faltar com mais frequência. Primeiro uma aula. Depois um dia inteiro. Depois uma semana. A sensação de culpa se misturava ao alívio momentâneo de não precisar enfrentar aquele ambiente.
Mas o alívio nunca durava.
Quando ficava em casa, o silêncio gritava. As paredes pareciam se aproximar. A mente repetia cenas, palavras, imagens que ela preferia esquecer. O corpo cansava sem esforço algum. Havia dias em que levantar da cama parecia uma tarefa impossível.
A mãe observava tudo com atenção e preocupação.
— Isabela — disse certa noite, sentando-se ao lado dela no sofá. — Eu percebo que você está adoecendo.
Isabela desviou o olhar.
— Eu não quero desistir… — sussurrou. — Mas continuar está me destruindo.
A mãe respirou fundo.
— Eu não gosto dessa ideia — confessou. — Você sabe o quanto eu sonhei com a sua formatura.
Isabela sentiu o coração apertar.
— Eu sei. E isso é o que mais dói.
— Mas eu também não posso te perder — a mãe completou, com a voz firme. — Nenhum diploma vale a sua vida.
Isabela chorou ali mesmo, encostada no ombro da mãe, sentindo-se pequena outra vez. Não como quando era criança, mas como alguém que tinha sido quebrada por dentro.
Alguns dias depois, a decisão foi tomada.
A faculdade parecia ainda mais fria naquela manhã. Isabela caminhou até a secretaria com passos hesitantes, segurando os documentos com as mãos trêmulas. Cada pessoa que passava parecia saber exatamente o que ela estava prestes a fazer.
Sentou-se diante da funcionária, respondeu às perguntas mecânicas, assinou onde mandaram assinar.
Quando a caneta tocou o papel pela última vez, Isabela sentiu algo estranho: não era só tristeza. Era uma mistura confusa de derrota e sobrevivência.
Ela estava desistindo do sonho.
Mas, naquele momento, também estava tentando se salvar.
Ao sair do prédio, parou por alguns segundos na escada. Observou estudantes subindo e descendo, conversando sobre provas, trabalhos, planos. Um mundo que continuava girando sem perceber que o dela tinha acabado de parar.
Isabela respirou fundo e seguiu.
Em casa, a mãe a recebeu com um abraço silencioso. Não houve sermão. Não houve reprovação. Apenas presença.
— Você vai ficar bem — disse, com convicção. — Nem que eu precise te lembrar disso todos os dias.
Os dias seguintes mergulharam Isabela numa rotina estranha. Não havia horários. Não havia metas. Apenas um cansaço constante que não passava com o sono. Às vezes, ela ficava horas olhando para o teto. Outras, chorava sem saber exatamente por quê.
A depressão não chegou fazendo barulho. Ela se instalou devagar, ocupando espaços antes preenchidos por sonhos.
Isabela sentia vergonha. Vergonha por não estar estudando. Vergonha por não estar bem. Vergonha por depender tanto da mãe para coisas simples.
— Você não é um peso — a mãe dizia sempre que percebia o olhar dela. — Você é minha filha.
Mas, mesmo assim, Isabela se sentia quebrada.
Às vezes, pegava os antigos cadernos da faculdade e folheava. As anotações organizadas pareciam pertencer a outra pessoa. Uma Isabela que existiu antes de tudo ruir.
À noite, o silêncio ficava mais pesado. Era quando os pensamentos vinham sem filtro. Quando a dúvida se tornava c***l.
E se eu nunca voltar?
E se tudo isso for o fim?
A mãe estava sempre ali. Preparando comida. Chamando para tomar banho. Sentando ao lado da cama quando Isabela acordava de um pesadelo. Segurando a mão dela como se dissesse, sem palavras, que ainda havia chão.
Isabela não sabia quanto tempo levaria para se sentir inteira outra vez. Não sabia se algum dia pisaria novamente numa sala de aula sem sentir medo.
Tudo o que sabia era que, naquele momento, desistir tinha parecido a única forma de continuar viva.
E, mesmo sem perceber, enquanto se despedia do sonho, Isabela começava — ainda que de forma torta e dolorosa — a construir a força que um dia a faria voltar.