Hoje é meu aniversário de 25 anos. Para a maioria das pessoas esse dia é um bom dia. Onde a família e os amigos vão te parabenizar e te dar presentes. Mas não para mim. Esse dia só me lembra que é mais um ano que passo de baixo do teto de meu "pai" mas sem ser tratada como filha. Mais um ano que devo moradia e comida a ele.
Sou filha da empregada com o patrão. Todos sabiam, mas ele me odiava. Assim como odiou a minha mãe. Há pouco mais de dois anos ela veio a falecer. Era mais velha e precisava de cuidados, os quais não teve. E eu, uma bastarda, sem dinheiro e qualquer direito não pude ajudá-la. A vida é uma m***a mesmo, não é?! Suspiro enquanto estendo as roupas.
Tenho dois irmãos. Um irmão, mais velho, cerca de 5 anos, Felipe. E uma irmã, três anos mais nova, Isabelle. Ela é linda e boa. A única que se parece com a sua mãe, que também já faleceu. Por que as pessoas boas morrem e as más não? Não consigo entender essa lógica!
- Lore... - Ouço-a me chamando
- Belle, bom dia.
- Veja! - Ela me estende uma caixa. - É para você.
- Ah, não precisava, você sabe!
- Vamos, venha! - Ela me puxa até meu quarto nos fundos da casa. - Abre! - Diz com um enorme sorriso.
Abro a caixa devagar, temendo estragar o meu único presente. Começo a tirar os papéis e o vejo, é um vestido. É azul claro, com pequenos brilhos, e um estojo. Abro-o e vejo um par de brincos e uma gargantilha.
- Isa... o que é isso?
- Mandei fazer, especialmente para você. - Sorrio para minha irmã.
- Obrigada, são mesmo lindos. - Fecho o estojo.
- Você vai comigo em uma festa de gala. - Diz rodopiando animada.
- Não mesmo!
- Papai disse que podia te convidar.
- Ele disse?
- Pois então, também estranhei, mas eu venho pedindo a tanto tempo que ele deve ter se cansado e aceitou.
- Não, melhor não. Você sabe que depois ele desconta me dando mais trabalho.
- Ah Lore, não faz essa desfeita! Eu escolhi essa roupa especial para você. - Sorrio para Isabelle, com aquele imensos olhos verdes. Era capaz de dominar o mundo se quisesse.
- Tá bom, mas vai ter que fazer um penteado em mim! - Digo, sabendo que ela ama fazer penteados.
- Fechado! - Ela me abraça. - Parabéns irmã.
- Obrigada irmã. - Ela é a única que me trata como irmã e amiga. A vida dela também não é fácil, vive sob domínio de nosso pai, e não pode fazer quase nada. Só fica trancada dentro de casa ou na casa de nossa tia, que também é uma maluca, assim como nosso pai.
Volto para a rua onde termino de estender as roupas. Sento por um momento no sol, sobre o belo e verde gramado.
Eu queria ter podido estudar, mas sem a permissão de seu Eduardo Gravetti, aprendi a ler e escrever com minha mãe. E já tinha que agradecer por ele ter me dado seu sobrenome. Nunca pude o chamar de pai, e pra falar a verdade nunca tive vontade. Ele nunca fez papel de pai. Até a sua esposa se importava mais comigo do que ele.
Mas venho recebendo um salário desde os meus 21 anos. Parte tenho de dar a ele, ou seja, devolver não é? Como aluguel e alimentação. A pequena parte que me sobra, guardo. Tenho quase 10 mil, quando fechar 10 mil, que será daqui uns 3 ou 4 meses, vou ir embora daqui. Conseguirei me manter por uns meses até conseguir emprego e então serei livre. Sorrio com o vento batendo em meu rosto.
Eu amo a primavera!
Fecho os olhos, me imaginando naquele belo vestido que Isa comprou para mim. Quem sabe eu não encontrasse um amor para mim? Bem, não nessa festa, pois sei que nessas festas só tem políticos chatos e corruptos. Quero um amor leve, tranquilo e feliz. Quero dançar na chuva e ir no show da Katy Perry. Me ergo e vou para a cozinha ajudar no almoço. Não posso me distrair, preciso fazer tudo certinho e receber meu salário cheio, para enfim por os pés longe daqui!
***
- Ai, Belle. - Grito para Isabelle que puxa meu cabelo, fazendo uma trança embutida em mim.
- Desculpa, Lore. - Ouço-a fungar.
- Ei... - Viro-me para ela.- O que foi que aconteceu? - Ela desaba a meu lado com as mãos no rosto. - Belle, está me assustando o que te fizeram?
- Não Lore... não fizeram nada a mim...
- Então? - Acaricio seus cabelos lisos e loiros.
- Você me perdoa?
- Pelo quê? - Franzo o cenho sem entender. Isabelle recomeça a chorar.
- Papai deve a um homem, parece que é um homem perigoso, matador de aluguel.
- Oh! - levo as mãos a boca.
- Ele disse ao homem que tem uma filha, que podia cedê-la em casamento em troca da dívida.
- Ele não faria isso! - Falo sentindo-me adormecer, pois sei que faria.
- Ele disse para eu ser boazinha, mas eu implorei que não fizesse isso e Felipe sugeriu que entregasse você. - Meu próprio irmão! Era um asqueroso! - E papai gostou da ideia. Me pediu para falar para você fingir ser eu. Mas não posso te pedir isso, eu irei.
Minha cabeça gira. Queriam entregá-la a um louco perigoso? Esse homem não tinha limites!
- Não precisa me pedir irmã. - Abraço-a forte e fecho os olhos. Ela era a única que eu sentia que me amava, não podia deixá-la passar por isso. - Eu faço!
- Não, Lore... ele é perigoso. Pode te matar...
- E se não for eu, vai ser você!? - Sinto minha voz sair embargada. Já estou na m***a, passei minha vida toda nela, o que é mais um tempo? Poderia conversar com esse homem e quem sabe não fechamos um acordo? Não custa tentar!
Isabelle chora por mais algum tempo, então digo para ela terminar meu penteado e ir se preparar, deve estar linda, como sempre é. Não deve mostrar a nosso pai, que ele a fez chorar. Ele tinha prazer em nos fazer sofrer, e eu não daria esse gostinho a ele.
- Está linda, Lore.
- Você é linda, Belle. Agora vai e fique ainda mais.
- Você promete se cuidar?
- Só se você prometer também! - Unimos nossos mindinhos e juramos nunca nos abandonar, nem que fosse em pensamentos.