Capítulo 3

2039 Palavras
— Então você é Angela. - Ele perguntou assim que meu pai fechou a porta, se aproximando de mim. Eu não sabia bem como reagir, parecia que as palavras tinham sumido da minha mente, que minha boca não obedeciam, ele me deixava sem jeito. Ele se aproximou o suficente para que eu sentisse o calor exalar de seu corpo, aquilo era sufocante, intimidador. Tremi inteira quando ele pegou minha mão e os levou até os lábios, num gesto cavalheiro. Só que eu estava me tremendo inteira e rezava a todo instante para que ele não percebesse isso, mas era difícil dizer, ele me olhava firme e ilegível enquanto eu parecia que iria desmoronar á qualquer instante. — Sim. - Foi a única coisa que eu consegui dizer, olhando em seus olhos. Eu não me considerava baixa, sabia que minha altura estava na média das moças, mas ao seu lado eu parecia minuscúla, não só por sua altura mas como por sua presença. — Você é muito mais bonita pessoalmente. - Me analisou inteiramente e eu estremeci ainda mais diante seu olhar. Logo papai coçou a garganta para chamar sua atenção mas ele era controlado o suficiente para tirar os olhos de mim só quando planejou, ele era controlador, dava para perceber o quanto ele odiava que mandassem nele.- Eu dúvidei quando me disseram que tinha uma filha, Dario. Meu pai engoliu em seco e olhou para mim. Eu sabia que meu pai não costumava comentar muito por ai que me tinha, para o publico ele tinha apenas meus três irmãos e apenas um circulo intimo que frequentava nossa casa sabia da minha existência. — Mantenho ela aqui.- Papai respondeu impaciente, visivelmente incomodado com aquela conversa. Ele não gostava de Dante, ou tinha medo. A segunda opção era a que mais parecia verdadeira. — Prende ela aqui. - Corrigiu Dante e meu pai me olhou de novo, nervoso. Depois os olhos dele voltaram para mim.- Quer dizer que ela nunca saiu lá fora? — Ela tem voz. - Murmurei audaciosa. A forma que ele falava com meu pai, como se eu não estivesse ali, me deixava desnorteada e brava. Por um momento sua expressão vacilou, e surpresa preencheu seus olhos. — E então? - Perguntou ele pacientemente, dessa vez se referindo á mim. Sua calma era irritante. — Algumas vezes. - Respondi. Eu me sentia pressionada, naquele momento. Como se eu estivesse em um interrogatório decissivo. Uma sombra passou através de seus olhos quando lhe respondi mas eu não soube identificar. Olhei de relance para papai e ele estava acanhado. Nunca o tinha visto assim, nem parecia um líder, não parecia um senador, ele parecia um p*u mandado diante de Dante. Quem era ele afinal? Por que meu pai tinha tanto medo desse homem? A pergunta mais certa a se fazer era, o que meu pai tinha feito para estar com medo dele? — Interessante. - Respondeu me analisando. - Você pode se sentar, não precisa me tratar com formalidade, nem você, Dario. Soltei o ar de meus pulmões, percebendo só então que eu os segurava. Estava nervosa. Não esperava que ele fosse novo, quase tanto quanto meus irmãos e muito menos que fosse atraente. Eu estava conformada que estaria me casando com um parceiro do governo de meu pai, estava conformada em passar uma vida miserável, longe dos romances que eu lia em meu quarto. Mas Dante era incrívelmente sedutor, assim como ameaçador. Ele era como um predador que usava a sua beleza para atrair suas vitimas, quando menos a presa esperava, ele atacava. Aquele pensamento fez meu corpo inteiro formigar. Me sentei cruzando as pernas e naquele momento me arrependi de não ter colocado calças, alguma coisa que cobrisse minhas pernas por inteiro. O impulso involuntário percorria meu corpo, uma vontade de me esconder, de me cobrir, ele me olhava como se fosse me devorar. Meu pai se sentou á minha frente, e Dante se sentou numa poltrona ao lado, também de frente para mim. Aquilo era desconfortável, tê-los olhando para mim. Nunca tive tanta atenção em minha vida como nas últimas semanas. — Ela é só uma menina, Dante. - Meu pai falou com ele, a voz trêmula e vazia. Eu não entendi exatamente o que ele quis dizer com isso. — Posso falar com ela á sós? - Aquela pergunta me pegou de surpresa, e meu pai também que me olhou rapidamente. A dúvida em seus olhos, se deveria, se eu queria. Mesmo nervosa por pensar em ficar sozinha com ele assenti para papai. — Estarei por perto, Angela, se precisa basta gritar. - Eu o encarei, sentindo meu peito explodindo. O que ele faria se eu gritasse? Pedisse ajuda? Se ele quisesse mesmo me proteger de Dante, não estaria me entregando á ele de bandeija, então por que deveria confiar que ele iria me proteger se eu chamasse por ele? Dante o olhou de canto, um sorriso sombrio e frio nasceu em seus lábios. Ele tinha achado graça no que meu pai tinha dito, assim como eu ele deve ter pensado que meu pai não conseguiria fazer nada para me salvar se eu chamasse. Um calafrio percorreu meu corpo enquanto eu ouvia os passos lentos do meu pai saindo, hesitando. Tentei lhe enviar um sorriso mas naquele momento, tendo medo de Dante, acredito que meu sorriso saiu desesperado, como um pedido de socorro. Mas papai sumiu e logo ficou apenas eu e ele na sala. Eu sentia minha pele queimando com seu olhar, ele me encarava fixamente e isso era muito desconfortável. Tentei não deixar isso me abalar, como se já não fosse tarde demais. — Por que quer casar-se comigo? - Perguntei, sentindo a garganta seca. E não era sede. Eu olhava todos os detalhes do piso de mármore da casa para não ter que ohar em seus olhos. — Seu pai ofereceu você. — Ele não faria isso. - Assegurei. Conhecia meu pai, apesar de estar me entregando ali para Dante, ele não faria isso de bom grado. - O que você fez á ele? — Não te disseram? - Perguntou, erguendo uma de suas sobrancelhas. — Pra pagar uma dívida de aposta. - Sussurrei mas o silêncio na casa era tão grande que ele ouviu, sem dúvidas.- Isso é ridículo. — Sim, eu concordo. - O quê? Encontrei os seus olhos, eu estava surpresa por sua confissão. Busquei por algum indicio de humor, tentando saber se ele estava apenas brincando com meus sentimentos mas não havia nada. Apenas um rosto calmo e sereno, como se não existisse algo no mundo capaz de tirar seu controle. - Eu apenas o ameaçei, ele não quis implorar, só concordou. Ele parecia ler meus pensamentos, nem precisei perguntar o por quê e ele já tinha respondido. Respirei fundo novamente, tentando acalmar os meus nervos. Eu estava em alerta, á todo segundo. — Então por que não desiste? - Tentei, esperançosa. Ele podia muito bem estar blefando, tentando saber até onde meu pai iria com essa história. Era assim que acontecia nos livros, não era? Sua risada me fez dar um leve sobressalto de susto. — Por que isso até que não é uma má ideia. - Admitiu e eu suspirei, derrotada. Os contos de fadas só existem nos livros. - Seu pai é um homem de muita influência no estado, Angela, e isso é bom para meus negócios. Tê-lo em minha mão é algo que não posso dispensar. Então era isso, tudo se tratava de negócios. — Então não passo de uma maneira de você chegar onde quer. — Sim. - Admitiu e eu o olhei, sentindo meu sangue esquentando por tamanha ousadia. Ele não tinha pudor, falava aquelas coisas sem se importar com meus sentimentos, sem se importar se eu ia ou não me sentir bem com isso. Ele me olhava fixamente, esperando por fraqueza. Eu podia ter medo, estava aterrorizada, mas eu não era fraca, nunca fui. — Se você não mudou de ideia, por que veio aqui? — Por que eu queria vê-la pessoalmente. - Senti minha nuca se arrepiar, seu tom de voz se agravou e o sorriso que nasceu em seu rosto era desconhecido para mim. - Quando eu vi sua foto não acreditei que era possível ser tão bonita.. mas eu estava enganado. Senti minhas bochechas queimarem e com certeza eu estava vermelha. Meu coração pulando no meu peito tão forte que eu sentia que podia me rasgar á qualquer momento. — Obrigada. - Me atrevi á agradecer. Ele mexia comigo... — Você realmente nunca saiu dessa cobertura? - Ele parecia incrédulo em seu tom de voz mas sempre que eu procurava por alguma emoção em seu rosto, em seu olhar, só conseguia ficar ainda mais tensa por perceber que ele parecia uma pedra. — Algumas vezes, muitas delas quando eu era mais nova. - O que tinha de ma.l em falar a verdade? Não é como se qualquer coisa no mundo pudesse acabar com isso. — É um desperdício. Você teria tido uma vida incrível se seu pai não fosse desprezível. — Ele é um bom homem. - Rebati rapidamente, me sentindo ofendida. Ele ergueu suas sobrancelhas pretas e grossas sustentando o olhar que eu lhe lançava. — Ele está casando você com um completo estranho, manteve você presa nesse lugar por vinte anos e rouba dinheiro das pessoas das quais ele governa. - Senti minha garganta fechando á cada palavra que ele dizia. - Ele não é um bom homem. — É pra mim. - Eu murmurei, sentindo meu peito queimando. Nada no mundo me faria pensar diferente. - Todo mundo comete erros. E mais uma vez ele riu, como se eu tivesse contando uma piada. — Eu gosto da sua inocência, Angela. Mesmo sabendo que ele não é digno, você o defende com unhas e dentes. — As pessoas eram ao me achar ingênua, Dante. - Senti um leve adoçicar em minha lingua ao dizer seu nome. Era a primeira vez que eu me permitia á isso. E era a primeira vez desde que ele chegou que vi algo em seus olhos além de frieza: satisfação. — De fato. - Murmurou baixo, como se estivesse falando mais consigo mesmo do que respondendo á mim. Ele se levantou devagar e num reflexo eu acabei me levantando junto, só que muito mais rápida que ele. Ele me olhou, estranhando minha rapidez, mas eu conseguia ver o quanto ele se divertia com minha reação. Eu não podia evitar, ele me deixa nervosa. Afundei minhas unhas na palma de minha mão quando notei que ele se aproximava, eu tentei desviar o olhar do seu mas era como um imã que me puxava de volta. Observei ele buscar algo dentro de seu paletó, uma caixinha preta, e parar á centimetros de mim. Eu estava de salto e ainda sim batia apenas em seu nariz, precisando levantar o queixo para olhá-los nos olhos, com tamanha proximidade. Será que ele podia ver o quanto eu estava nervosa? - Pegue. Ele colocou sua mão na minha e deixou a caixinha comigo. Eu não olhei o que era, não conseguia desviar meus olhos dos seus. O sentimento de que ele podia me dar o bote á qualquer momento se eu vacilasse, me consumia. — O que é? - Sussurrei, soprando próximo de seu rosto. — Você verá. - Não contive meus nervos, acabei passando a língua pelos lábios. Era instinto, ele estava tão próximo, se eu desse mais um passo e ficasse nas pontas dos pés conseguia alcançar seus lábios. Que nessa proximidade parecia delicioso. Seu cheiro era suavemente doce ainda sim forte, era afrodizíaco. Toda vez que eu puxava o ar para meus pulmões sentia que queria beijá-lo. Mesmo que meu interior gritasse para fugir. Engoli em seco quando ele pegou uma mecha do meu cabelo e colocou para trás da orelha, analisando meu rosto minunciosamente.- Te vejo em breve, Angela. Nos olhamos mais um pouco antes dele se afastar em direção á porta e sumir do meu campo de visão. Ele me deixou ali parada com a pele formigando por seu toque, com a respiração descontrolada, com uma vontade absurda de beijá-lo e fugir ao mesmo tempo enquanto segurava o seu presente em mãos.
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