Capítulo 22
Marcos (Terror) narrando
O baile tinha enchido rápido demais.
Mais rápido do que eu esperava.
Do camarote, eu conseguia enxergar uma parte considerável do pista, mas mesmo assim mantinha os olhos atentos às entradas, aos corredores e principalmente aos homens que circulavam por ali. Em noite de baile, qualquer descuido podia virar problema. A polícia costumava evitar uma invasão quando o morro estava lotado, mas eu já tinha aprendido que não existia lugar completamente seguro.
Ali dentro, tudo podia mudar em questão de segundos.
Meu olhar acabou encontrando Maju no meio da multidão.
Ela estava com Cecília e Gabriela, segurando um copo na mão enquanto conversava e sorria de alguma coisa que uma delas tinha falado.
Sorri de canto.
Até parecia que tinha esquecido onde estava.
Ou talvez estivesse tentando esquecer.
Meus olhos foram até lelê, que estava trabalhando no bar.
Eu sabia que ele tinha o costume de colocar algumas coisas nas bebidas das mulheres quando recebia ordem para isso, mas daquela vez não queria ninguém mexendo no copo da Maju.
Fiz um sinal discreto.
Apontei para ela.
Depois balancei a cabeça negativamente.
Ele entendeu e assentiu.
— Não cansou ainda dela? — Sorriso perguntou ao meu lado.
Continuei olhando para Maju.
— Dela quem?
— Da Maju.
Soltei uma risada curta.
— Não.
Ainda está de boa.
PH, que estava sentado do outro lado, me encarou.
— Você está acabando com a vida da garota.
Virei o rosto lentamente.
— Ela devia ter pensado antes de deixar a família se afundar em dívida.
— A dívida não era dela.
— Mora na mesma casa.
Dei de ombros.
— Enquanto estiver comigo, pelo menos a irmã dela não passa necessidade.
PH soltou o ar pelo nariz.
— Você sempre arruma uma justificativa.
— Não preciso justificar nada.
Me joguei para trás na cadeira e acendi outro baseado.
O silêncio durou pouco.
— E aquele policial? — Capeta perguntou.
Meu olhar ficou mais pesado.
— Que policial?
— Andrade.
Revirei os olhos.
— Vai mesmo estragar minha noite falando daquele filho da p**a?
— Você viu que ele assumiu o cargo? Está em todos os jornais.
Joguei a fumaça para o lado.
— Não vai ficar muito tempo.
— O informante disse que ele está planejando subir o morro — Sorriso comentou. — E você sabe que isso pode ter relação com a mãe da Maju.
Meu maxilar travou.
— Nem me lembra daquela filho da p**a.
Olhei novamente para Maju.
Ela estava rindo, mas de vez em quando seus olhos encontravam os meus.
E toda vez que isso acontecia, o sorriso dela desaparecia.
Eu sabia que ela tinha medo de mim.
Era exatamente assim que deveria ser.
— A mãe dela deixou uma merda grande para trás — falei.
PH cruzou os braços.
— E o pai dela?
Olhei para ele.
— O que tem?
— Sumiu do morro.
— Melhor assim.
— É o pai dela, Terror.
— E daí?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Você não acha estranho ele simplesmente ter saído levando uma mochila?
Meu olhar se estreitou.
Aquilo eu ainda não tinha esquecido.
— Eu espero que ele não volte.
— E se ele estiver metida em alguma coisa?
Sorriso perguntou.
— Se ele tiver levado informação para o Andrade, a história muda.
Fiquei alguns segundos encarando o movimento lá embaixo.
— Se ele entregou alguma coisa...
Passei a língua pelos dentes.
— ... ele não vai ter tempo de se arrepender.
O assunto morreu ali.
Voltamos a falar sobre os problemas do morro, cobranças, movimentações e alguns parceiros que estavam chegando de outras comunidades.
O camarote começou a ficar cheio.
Homens entrando.
Cumprimentos.
Conversas.
Negociações.
Eu estava prestando atenção em uma delas quando percebi que alguma coisa tinha mudado.
Procurei Maju novamente.
Nada.
Cecília também tinha desaparecido.
Gabriela não estava mais perto delas.
Franzi a testa.
— Cadê elas?
PH olhou para baixo.
— Não sei.
Levantei imediatamente.
— c*****o.
Meu olhar foi direto para o bar.
— lelê!
Ele veio até mim.
— Fala, chefe.
— Cadê as garotas?
Ele apontou para a pista lá embaixo.
— Eu dei a bebida que você mandou.
Meu rosto fechou.
— Como assim, a bebida que eu mandei?
— Você pediu para eu cuidar delas.
— Eu mandei você não colocar p***a nenhuma no copo da Maju.
Ele ficou pálido.
— Eu...
— Merda.
— Eu coloquei.
Achei que era isso que você queria.
Minha mão fechou em punho.
— Seu filho da p**a.
PH levantou da cadeira.
— p***a.
— O quê?
Ele apontou para a pista.
— Olha lá.
Segui o dedo dele.
Meu sangue ferveu.
As três estavam no meio da pista.
Cecília dançava com Gabriela, enquanto Maju parecia completamente diferente da garota que eu conhecia.
Ela ria.
Dançava.
Girava no meio da multidão.
Como se não existisse medo.
Como se eu não existisse.
Até que um homem aparecer perto dela.
Pela aparência, não era do morro.
Ele se aproximou demais.
Maju continuou dançando sem perceber.
Até que ele colocou a mão na cintura dela.
Meu olhar escureceu.
— Quem é aquele?
Ninguém respondeu.
O homem se aproximou ainda mais.
Maju virou o rosto.
Ele tentou beijá-la.
Foi o suficiente.
Puxei a arma.
Levantei para o alto.
Pou Pou...
O disparo fez o baile inteiro congelar.
A música parou.
As pessoas começaram a se afastar.
O silêncio tomou conta da pista.
Maju ergueu os olhos.
Nossos olhares se encontraram.
Eu estava completamente fora de mim.
— MAJU!
Ela ficou imóvel.
— Eu vou te matar!
O medo tomou conta do rosto dela.
Ela olhou ao redor, percebeu que todos estavam olhando e saiu correndo.
Correu pela pista sem sequer olhar para trás.
E eu fui atrás.
Porque naquele momento eu não queria saber quem era aquele homem.
Não queria saber quem tinha colocado aquela bebida na mão dela.
Só conseguia pensar em uma coisa.
Ela tinha desobedecido.
E, naquela noite, o morro inteiro acabaria descobrindo o que acontecia quando alguém esquecia quem era o Terror.