Capítulo 11

703 Palavras
Capítulo 11 Maria Júlia (Maju) narrando Eu saí da boca sem olhar para trás. Minhas pernas pareciam pesar toneladas enquanto eu descia a viela. O coração ainda batia acelerado e as palavras do Terror ecoavam na minha cabeça como uma sentença. "Você só sai do morro quando eu autorizar." "Quando eu mandar chamar, você vem." "Nada de homem perto de você." Era como se eu tivesse deixado de ser dona da minha própria vida. Respirei fundo tentando afastar aquele aperto no peito, mas não adiantava. A sensação era de que o ar não chegava aos meus pulmões. Conforme eu caminhava, percebia alguns vapores espalhados pelos becos. Alguns conversavam entre si, outros fingiam nem notar minha presença. Mesmo assim, eu sentia que estava sendo observada. Não precisei olhar para trás para ter certeza. O Terror cumpria tudo o que dizia. Quando virei a esquina da minha rua, encontrei um dos vapores parado perto de um poste, fumando. Assim que passei por ele, ouvi sua voz. — Boa tarde, Maju. Assenti com a cabeça. Continuei andando. Nem dez passos depois, ouvi o rádio preso à cintura dele chiar. Meu estômago embrulhou. Eu sabia que aquilo tinha a ver comigo. Cheguei em casa e fechei a porta atrás de mim. O silêncio me recebeu. Meu pai continuava deitado no sofá, completamente apagado. Garrafas espalhadas pela sala. Bitucas de cigarro no chão. Uma televisão ligada sem ninguém assistir. Olhei para ele durante alguns segundos. Raiva. Era isso que eu sentia. Enquanto eu fazia de tudo para manter aquela casa de pé, ele afundava um pouco mais a cada dia. Subi para o meu quarto. Joguei a bolsa sobre a cama. Peguei o celular. Doze mensagens. Cinco ligações perdidas. Todas da Cecília. Fechei os olhos. Eu queria atender. Queria contar tudo. Queria chorar no colo da minha melhor amiga. Mas não conseguia. Como eu explicaria uma situação que nem eu mesma entendia? Apaguei a tela do celular sem responder. Alguns minutos depois, fui buscar a Luiza na creche. Quando ela me viu no portão, correu na minha direção. — Mana! Ela praticamente se jogou nos meus braços. Sorri pela primeira vez naquele dia. Um sorriso pequeno. Mas verdadeiro. — Como foi a aula? Ela começou a falar sem parar. Contou da professora. Do desenho que fez. Da brincadeira com os colegas. Eu escutava tudo tentando guardar aquela alegria. Era a única coisa boa que ainda existia na minha vida. No caminho de volta, ela segurou minha mão. — Você tá triste? Olhei para ela. — Por que perguntou isso? — Porque você tá sorrindo com os olhos tristes. Meu coração apertou. Uma criança de seis anos tinha percebido o que eu tentava esconder do mundo inteiro. Acariciei seus cabelos. — É só cansaço. Ela pareceu acreditar. Quando chegamos em casa, preparei um macarrão simples. Era o que ainda restava no armário. Enquanto ela assistia desenho na sala, sentei na cama com meu celular. Abri alguns aplicativos de emprego. Várias vagas. Faxina. Atendente. Caixa. Auxiliar de cozinha. Todas fora da comunidade. Todas exigiam que eu saísse do morro. Soltei uma risada amarga. Nem procurar trabalho eu podia mais. Meu celular vibrou. Cecília: "Você sumiu." "Estou preocupada." "Me responde, por favor." Escrevi várias respostas. Apaguei todas. No fim, mandei apenas: "Estou bem." A mentira mais difícil que já escrevi. Anoiteceu rapidamente. Depois de colocar a Luiza para dormir, permaneci sentada ao lado da cama dela. Observando seu sono tranquilo. Passei a mão em seu rosto com delicadeza. — Eu prometo... Sussurrei. — Eu vou proteger você. Nem que isso custe a minha liberdade. Foi nesse momento que bateram na porta. Três batidas secas. Meu coração acelerou. Desci as escadas. Abri apenas uma fresta. Do lado de fora havia um vapor. — Recado do Terror. Engoli em seco. — Amanhã. Sete horas da manhã. O PH passa aqui. Você vai com ele. Antes que eu pudesse responder, ele virou as costas e foi embora. Fechei a porta lentamente. Encostei as costas na madeira. Passei a mão pelo rosto. Pela primeira vez, eu compreendi que aquilo não era uma ameaça feita no calor do momento. Era a minha nova realidade. E, gostando ou não... Eu havia me tornado uma refém do Terror.
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